O Processo criativo na elaboração de uma HQ fantástico-filosófica: o sistêmico em contraponto ao fragmentado*

Resumo:
Embora pouco se divulgue, há diferenças no processamento da criação artística e o pensamento cartesiano em que áreas cerebrais distintas são acionadas. O ato criativo supõe interação mental envolvendo um cérebro ambi-hemisferial: direito (intuitivo e atemporal), e esquerdo (racional e temporal). Assim, elaborar uma história em quadrinhos (HQ) pressupõe um diferencial do de pensar e escrever um artigo.

Com base nas descobertas do processamento mental, aponto considerações e reflexões acerca do processo criativo, em especial nas HQ fantástico-filosóficas que realizo, baseando-me em De Gregori, Goswami e outros. Assim, como metodologia experimental, apresentei um ato artístico em que criei uma HQ ao som de música, que pode ser visto no vídeo abaixo:

O criar artístico e racional
As descobertas atuais da ciência, principalmente no que concerne à área cognitiva tem modificado a maneira de ver e de pensar o cérebro (a mente). Além disso, a própria mudança paradigmática da ciência clássica para a quântica destronou uma visão tida como objetiva e cartesiana excludente, para outra subjetiva e probabilística de uma realidade, que afeta a humanidade (Andraus, 2006). Com isso, têm surgido novas maneiras de se encarar a(s) realidade(s) e o ensino tem também se modificado. Buscam-se novas competências e transformações. O filme Pink Floyd “The Wall” (Parker, 1982) mostrou bem como a educação linear e opressora escondia uma subjetividade e um conteúdo emocional latente e mal trabalhado.

Isto tudo, atualmente, pode ser percebido pela maneira de se verificar como funciona a mente: nosso cérebro, composto principalmente pelo réptil, límbico e neocórtex, e subdividido em hemisfério esquerdo e direito guarda assombros que nunca antes puderam ser verificados, e graças à tomografia computadorizada (cuja tecnologia provém da ciência quântica) vai destrinchando conhecimentos amplos. O hemisfério esquerdo, antes tido como dominante, deixa de ter tal denominação e é visto agora como parte integrante (e integradora) do hemisfério direito (antes tido como obscuro), que se mostra essencial, pois traz o novo, a criatividade, a intuição, o pensamento religioso, que é decodificado e nomeado pelo esquerdo. De Gregori (1999) completa tais informações expondo que há também a parte central (cérebro réptil), pragmática, que operacionaliza tudo (fig. 1).

O autor sugere que o uso equilibrado das três funções é o ideal para uma vida ampla. As experiências e pesquisas atuais atestam tal veracidade: mas há muito ainda que descobrir. Como, por exemplo, a leitura dos fonemas, que se dá principalmente no hemisfério esquerdo, enquanto que as imagens no direito (incluindo a leitura de ideogramas).

As histórias em quadrinhos são feitas principalmente por imagens. A união dos desenhos dos quadrinhos, com a lógica cartesiana de sua estrutura mais os textos fonéticos, podem corroborar numa ativação diferenciada do cérebro, do que aquela que pertinente ao texto per si.

Porém, o que aqui está em pauta é reconhecer, graças a esses desvelamentos científicos, a diferença no processamento racional (fragmentado) e intuitivo (sistêmico). Ambos hemisférios têm diversas áreas de atuação e operacionalização, mas um ou outro hemisfério pode ter mais ativação em determinadas áreas próprias, de acordo com os estímulos (hipertrofiando partes, e atrofiando outras).

Ao escrever um texto científico, por exemplo, a escrita fonética, mais o processamento racional mental, provavelmente incidem num uso muito alto das áreas pertinentes à lógica e à razão (hemisfério cerebral esquerdo). Isto não quer dizer que não haja criatividade, pois as “descobertas” que vão surgindo durante o elaborar das pesquisas são prenhas de criatividade. Porém, ao elaborar uma obra artística – quer seja pintura, poesia, vídeo arte ou história em quadrinhos, por exemplo, a operacionalização mental pode se dar distintamente.

Nachmanovitch menciona essa questão acerca do processamento criativo de certos artistas:

‘As artes plásticas criaram uma tradição de “automatismo”; pintores como Wassily Kandinsky, Yves Tanguy, Joan Miro e Gordon Onslow Ford encararam suas telas sem nenhum tema preconcebido, apenas permitindo que as cores e formas fluíssem de um impulso intuitivo e espontâneo do inconsciente. Nas improvisações, séries de pinturas que constituíram a base para grande parte da arte do século XX, Kandinsky traça estados de espírito e transformações na forma como lhe ocorriam’. (NACHMANOVITCH, 1993: 20-21)

Na atualidade há a possibilidade de se averiguar como se dá esse processo na mente por pesquisas em que a tomografia computadorizada acuse o processamento dos atos. Porém, não há registro conhecido oficial de que os quadrinhos (ou “banda desenhada”, como são conhecidas as histórias em quadrinhos em Portugal) tenham sido aferidos, conquanto sua leitura e incidência mental.

Alan Moore explica a questão da leitura das imagens em contraposição aos textos, elucidando que o governo americano já investigou o fenômeno:

‘Da forma como eu compreendo a divisão entre o lado esquerdo do cérebro, e o lado direito, e em termos muito gerais, a metade esquerda lida com o racional, a linguagem, a articulação de frases. A metade direita lida com o irracional, o inconsciente. Pode ser que a palavra seja a unidade de conta da metade esquerda, e a imagem seja a unidade de conta da metade direita. E há realmente algo de único na maneira como a banda desenhada combina palavras com a imagem. Eu sei que foram feitos testes no Pentágono, para apurar a forma de transmitir a informação de um modo mais directo e eficaz, de forma a que essa informação fosse retida, e concluíram que essa forma é a banda desenhada. Não é o texto sem imagens, nem o texto ilustrado. Penso que isso se deve ao facto de a banda desenhada apelar simultaneamente às duas metades do cérebro. Há pessoas que não sabem ler banda desenhada. E a explicação que dão para não saber ler banda desenhada é que não sabem por onde começar – se pelo texto, se pela imagem. Se fizermos a mesma pergunta a qualquer leitor de banda desenhada, ele não saberá dizer por onde começa. É uma leitura simultânea’ (MOORE, 2002: 8).

É sabido que Charles Darwin, conforme se utilizava cada vez mais do cérebro racional, com o passar dos anos percebeu-se menos sensível às artes:

‘Darwin preocupou-se com a diminuição de sua sensibilidade artística nos últimos anos. Darwin concluiu que a atrofia vinha da unilateralidade de sua atividade científica. Concluiu que é uma perda de felicidade, pois prejudica também o caráter moral, debilitando a parte excitável da natureza humana’ (TREVISAN,2002:19).

Como autor, e após terminar a tese de doutorado pude comprovar (tendo me tornado cobaia involuntariamente de mim mesmo) que isso é pertinente: usei tanto de racionalidade que acabei diminuindo minha vontade de criação artística.

Ainda assim, e apesar dessa sobrecarga em meu processamento racional, vez ou outra, ao criar HQ, principalmente após esse período, pude perceber mais nitidamente a diferença de processamento mental entre o pensar racional e o quântico-artístico.

Como exemplo, quando elaborei a HQ “Hesperornis-Pássaro do oeste” (fig. 2), verifiquei durante o processo, que os “saltos” mentais eram diferentes, e que as lógicas outras, das de uma narrativa linear. Ao terminar a elaboração de HQ, fui constatando diferenciais no processamento para elaborá-la diferentemente de outro mais lento e esmiuçado que se dá ao elaborar um artigo científico (como este que estou ora redigindo).

*Texto reeditado a partir de sua publicação e apresentação no Para o II Seminário Nacional de Pesquisa em Cultura Visual – FAV UFG – Poéticas Visuais (2009).

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