A Epopéia humana é um cadinho que contém e pode conter infinitas caracterizações. E aí imbricam-se e confrontam-se oriente, médio-oriente e ocidente. Mas então, há que se reportar à história humana, pois que o homem em sendo animal gregário, traz em instância primeira a possibilidade inata da comunicação.

Sabe-se que, a se colocar metaforicamente um relógio de 12 horas computando-se desde o inextricado big-bang universal até a apoteose hominídea, insere-se esta última há poucos minutos finais da décima segunda hora.

Ainda mais: milhões de centenas de anos atrás viviam imensos répteis de peculiaridades intrigantes. Naqueles tempos onde a composição químico-físico do ar pedia pulmões gigantes em forma de fole, primata algum podia subsistir.

Mas o universo, desde o seu big-bang, evolui, e provavelmente desde antes de tal explosão, cujo mistério enceta aos pesquisadores dúvidas insolúveis (principalmente se o universo for mesmo eterno, encetado por ciclos de implosão e explosão).

É nesta evolução que répteis dantescos deram lugar a aves, e pequenos primatas primitivos descamparam lado a lado dos mamíferos, herbívoros e carnívoros. Impressionam atualmente, novas descobertas de fósseis e relíquias que, graças à tecnologia, acabam por “informar” ao homem de agora que muitos conceitos científicos têm que ser revistos. Mesmo a respeito de Purgatorius , as informações não estão finalizadas.

Pois que, de primitivos seres peludos, avançaram para linhas darwinianas, como orangotangos, gorilas, chimpanzés e homo sapiens (derivado este de outros, como cro-magnon e australopitecus), de hábitos gregários e cérebro em desenvolvimento, estes seres principiaram com pequenas descobertas e criações de utensílios cotidianos: de Prometeu, fizeram o fogo, e da pedra lascada, lanças para o abate, culminando no inusitado: a roda.

Assim, na pré-história, quando as noites eram frias e úmidas, as quais eram aplacadas pelo fogo e couro, os pré-homens se entocavam em cavernas.

Segundo Marshall Mc Luhan, teórico canadense da informação, cujo pensamento alcançou destaque sui generis no rol das teorias comunicacionais, a tecnologia é extensão do homem. Para ele, a roda é prolongamento do pé, o livro do olho, a roupa do corpo, e os circuitos elétricos extensões “cerebrais”, logo, todo o meio é a mensagem!

De volta

Daí, como comunicação e informação, estes homens criaram ritos, onde a “grafia” (só desenhos) representava a ciência e a mística da época. Com bisões pintados nas cavernas, em locais exclusivos, os homens estavam crentes no sucesso da caçada, pois a imagem era a informação (e a informação era – e é – poderosa, já o sabiam, mesmo que intuitivamente).

Atravessando o tempo, pode-se pôr em paralelo as paredes pintadas das catedrais góticas. Lá (até hoje), os homens “arquitetaram” suas cavernas e reproduziram seus temas religiosos como que para lembrar, informar acerca de seu liame universal: para viver no mundo, o homem tinha quem se lembrar do não-mundo, do impalpável.

Dentro destas paredes “religiosas” estão as formas mais “puras” e diretas de se prestar um serviço de informação aos homens. Pois que eram vulgos e rudes, então analfabetos, as imagens em forma de histórias em quadrinhos (HQ) supriam tais deficiências, informando (e lembrando, o que de certa forma é mais importante ainda) a eles, como deveriam pensar e agir, baseados na trindade santa e em exemplos sacros (fig. 1).

Aportando-se aos tempos presentes, poder-se-ia dizer que pouco mudou: as imagens estáticas estão em “movimento”nas “catedrais” elétricas (televisão).

Mas, agora, os serviços de informação estão pulverizados.

A se entender isto, necessita-se breve explicação: se “arte”, palavra derivada do latim, significa modo autêntico de ser e agir, e “tecknòs” é seu equivalente grego, temos então como “tecnologia” um modo verdadeiro de ser e agir.

Aí, reporta-se a McLuhan (os meios são extensões do homem) e até a Buckminster Fuller (o “arquiteto” criador das abóbodas geodésicas) tendo afirmado que a evolução tecnológica do homem é um caminho tão natural e “técnico” quanto a evolução da natureza biológica (e eu saliento, cósmico, pois aquela pertence a esta, como nos enfatizam Carl Sagan e Fritjof capra).

Assim, a descoberta da eletricidade e o desenvolvimento industrial tinham fatalmente que se operarem como conseqüência do homem material.

O que talvez não estivesse previsto, e poderia ser passível até de mudança, era uma abordagem psicossocial diferenciada do homem, em relação à sua própria inserção nesta caminhada evolutiva.

Mas como o homem poderia fazê-lo, se ele mesmo é extensão da natureza?

E, percorreu ele, um caminho natural?

Pois nesta incessante caminhada, o homem tem se utilizado daquilo que lhe é mais importante: a informação, e com ela tem retido historicamente todos os dados, através da documentação, gerenciando-os, a fim apenas, de otimizar a educação.

O problema foi que, com o advento da catedral-televisiva, o próprio meio seduziu e talvez ludibriou o homem.

Brincando de “Deus” (naturalmente, pois se Ele existisse, ele-homem seria/é extensão dEle), o homem produziu ciência cada vez mais tecnicista e elétrica, alcançando os chips de computador.

Assim, com a TV atual, videogames e computador, a tríade informacional (Santa trindade tecnológica?) pode continuar, propagar e “globalizar” o homem-contemporâneo.

No computador, as informações são virtuais, não existem materialmente (extensão da potencialização psíquica do homem). Está claro que houve (e há evolução). Mas não está claro que tipo de evolução. Nesta confrontação de idéias, chega-se, enfim, a se discutir os papéis dos serviços de informação relativos à educação: se o mundo está “linkado”, porque os problemas perenes não se resolvem, ao contrário, só se amontoam?

O sociólogo Domenico de Masi, afirmou que, no âmbito econômico, o sistema comunista sabe dividir, mas não produzir, e o capitalista, conquanto produz em profusão, malogra na divisão, marginalizando muitos seres humanos.

Com isto não há maneira de se formar e/ou informar estas pessoas, e sem formação, apenas informação, nada é suprido: um adolescente “órfão” de classe média brasileira pode “navegar” pela Internet o quanto quiser. Ficará saturado de dados, mas não saberá nem para quê, e nem como usá-los.

Se a televisão tem como objetivos, informar e ajudar na formação da sociedade – pois sabe-se que as tvs brasileiras funcionam sob condição de concessão governamental, com o fim adendo de prestar serviços sociais – porque os canais emissores se prestam cada vez mais à vulgarização e informes sem caráter didático? (na Itália a programação televisiva também é de má qualidade, e tem havido “greves” por parte da população, em prol a uma melhoria na rede de programação).

À parte toda esta parafernália que o ser humano criou e destinou a seu próprio uso, parafernália esta em condição de ser usada como serviço de informação, o mundo contemporâneo parece estar saturado, tanto de informações (no ar) como de pessoas (e este parece ser um dos problemas, da “bola de neve”).

Assim, cada vez mais, em benefício ao consumo, que em verdade comanda a vida de todos, os humanos (não mais primatas) se esgotam nos trabalhos (quando os conseguem, pois agora deve-se ser “técnico”), mal gerenciando seus lares, abandonando sua prole, que, como dito, enfronhada nos bombardeios informacionais, não consegue usá-los, pois não são possuidores de uma formação de base que lhes permita isso. Computadores em escola de rede pública ficam sem uso, pois os professores estão despreparados para sua utilização (quanto mais para lecionar acerca de seu funcionamento aos alunos), quer seja também dos livros, das HQ e da tv.

Conclui-se que, embora os serviços de informação existam em profusão e no “ar”, seus papéis deveriam estar mancomunados com um incessante fazer educacional atrelado a objetivos de caráter humanístico (no sentido de fraternos até).

Verifica-se pelos noticiários linkados no mundo, que grassam (como sempre) guerra, pobreza, mazelas em geral, e constata-se por estes mesmos serviços de informação que a eles apraz trazer apenas dados. Quando não, programas que exacerbam somente a libido animal (neocortex: cérebro reptiliniano) do homem.

Mas sabe-se, através (veja só) de uma simples história em quadrinhos (cria evolucionária das pinturas rupestres e das catedrais), que alguns símbolos agem na psique humana, podendo dar novos cursos a ela (o que pode ser perigoso se mal direcionado). Tal fato é mencionado numa história em quadrinho autoral adulta: “Do Inferno” de Alan Moore (fig. 2).

E isto comprova que os quadrinhos têm atualmente um papel predominante para o adulto contemporâneo, já que, como as HQ têm sido relegadas, paradoxalmente vem sofrendo de pouca censura, embora, como se tenha aventado, seu poder informacional seja muito mais contundente do que aparente, graças à visualidade imagética de sua linguagem. E a imagem tem uma preponderante ação no cérebro humano.

Assim, pelo menos, num destes serviços de informação (no caso, as histórias em quadrinhos), também se pode encontrar pontos positivos na formação e educação do homem contemporâneo. Requer-se cuidado apenas, na escolha dos títulos.

É natural que possa haver informação também noutros serviços e meios (como o cinema e a tv), mas enfim, está nítido que seus papéis estão, atualmente, em cheque, conforme se relatou.

Como saber quais escolher? Quais mídias? Que conteúdos?

Eis a dificuldade…não se pode fazer isso sem uma base de formação, que incluiria três partes: a inteligência, a intuição-criativa e a ação pragmática. Cada qual, que pode ser relacionada a uma porção cerebral, conforme apontou Waldemar De Gregori em O poder de seus 3 cérebros (Pancast, 1999), deveria estar sendo usada a contento: o hemisfério direito-criativo/espiritual, estaria criando, enquanto o esquerdo/racional pensaria a situação, e o central poria em operação.

Nossa sociedade, ao que parece, desvirtuou tal processamento, hipertrofiando o esquerdo, e colocando-o em primeiro, atrofiando atualmente a criatividade, e operacionalizando da maneira que bem entende, tornando a maioria dos seres humanos mecanizados em mente.

E isto se repete nas mídias e principalmente nas propagandas para vendas de produtos, com o intuito principal de vendas e lucros, sem questionamentos de consciência. Algumas HQ, como American Flagg, de Howard Chaikin (fig. 3), traz como ficção científica em pauta tal assunto: um futuro dominado por corporações, corrupto e violento.

É hora de se rever tudo isso, antes que a ficção se torne realidade!

Gazy Andraus (2002, atualizado em 2004 e 2008)

Gazy Andraus
([email protected])

[1] A teoria do universo eterno começa agora a desbancar esta do Big-bang: só para advertir que a ciência não é infalível.

[2] Na verdade, a paleontologia classifica os dinossauros como distintos dos répteis.

[3] Um pequeno mamífero que deu origem ao séqüito de primatas, cujo nome remonta à dificuldade obtida em ter-se destrinchado seus ossos

Gazy Andrausconsciência e quadrinhosEpopéia Humana Informacional,gazy andraus,Humanéia,Marshall Mc LuhanA Epopéia humana é um cadinho que contém e pode conter infinitas caracterizações. E aí imbricam-se e confrontam-se oriente, médio-oriente e ocidente. Mas então, há que se reportar à história humana, pois que o homem em sendo animal gregário, traz em instância primeira a possibilidade inata da comunicação. Sabe-se que,...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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