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figura 01: Do inferno, de Alan Moore e Eddie Campbell

Do Inferno de Alan Moore para os quadrinhos adultos: uma mente autoral a serviço da expansão da consciência

Você já ouviu falar em Whitechapel? É uma igreja em Londres. Ela foi projetada por Hawksmoor para ter uma aparência aterradora e solene, de acordo com as tradições pagãs dos antigos arquitetos dionisíacos.

E em Tomas Hobbes, o único pensador, antes de seu amigo Coleridge, a sugerir que certos símbolos afetam de forma sutil a mente humana. Você já ouviu falar neles?

Pois estas asserções acima são excertos de um diálogo entre dois personagens, na obra Do inferno, escrita pelo consagrado e polêmico autor de Histórias em Quadrinhos (HQ) inglês Alan Moore, e desenhada por Eddie Campbell (fig. 1).

Tal diálogo está no terceiro quadrinho, do capítulo dois, p. 44, do primeiro volume de uma obra dividida em 4 tomos, já editada (e reeditada) no Brasil. Se você nem imagina do que se trata, tente assistir ao filme homônimo que passou pelos cinemas brasileiros (“From Hell”) com o ator Johnny Deep, já lançado em DVD (mas, é óbvio, pouco se aproxima da HQ em complexidade).

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Capa de A Small Killing

Em primeiro lugar, da época vitoriana, em plena Londres lúgubre, surge uma deformidade alcunhada de homem-elefante, a qual se encontra pessoalmente com (adivinhe quem!) Jack, o estripador. Mas no filme, que é baseado nesta obra de narrativa literário-imagético-dramático-ficcional-realista, muitos detalhes não puderam ser mostrados, só visíveis no álbum roteirizado por Alan Moore e excelentemente desenhado por Eddie Campbell (num estilo hachuriado em preto e branco que lembra os desenhos daquele período retratado).

Nos quatro volumes em quadrinhos, que contam de uma forma aterradoramente realística a convivência de uma Londres conturbada com um homem que assassinava mulheres com requintes de um cirurgião dissecando cadáveres, cujas motivações se encontram além da moralidade ou da imoralidade (a bem dizer de uma quase amoralidade), permeando cultos sacros e iniciações maçônicas, fica-se estarrecido com os limites a que podem chegar os ditames de uma mente humana.

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Página de A Small Killing

A bem dizer, cada um dos quatro volumes traz um apêndice detalhado por Alan Moore, que afere um tom documental único à obra, aferindo um ponto à parte para esta monumental saga, que, na contra-capa de seu quarto e último tomo descreve motivações afinadas inclusive com a física quântica, onde se percebe que o homem não é apenas um corpo, mas sim uma energia ondulatória.

Numa incrível associação, Moore conseguiu unir estes paralelos quânticos à motivação de Jack, o vulgo estripador, lembrando bastante a visão que tem Goffredo Telles Junior da probabilidade quântica da inteligência humana em seu livro O Direito Quântico.

Muito complexo, mas também instigador é o roteiro que nos presenteia o autor, que já contribuiu com o universo das HQ com as obras V de Vingança, Watchmen, a saga ecológica do Monstro do Pântano, e o álbum freudiano incrivelmente ainda inédito no Brasil A Small Killing, um dos melhores trabalhos de Moore, com desenhos de Oscar Zarate (fig. 2 e 2a).

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Capa de Brought to Light

O roteirista britânico também se envolveu com outro trabalho Brought to Light (fig. 3 e 3a) já recolhido pelo governo norte-americano, e que denunciava atividades escusas da CIA pelo orbe inteiro, promovendo guerras internas e externas, tráfico de armas e drogas, corrupção etc…tudo o que faria Tio Sam corar até sua alma de vergonha (e ter câncer, segundo uma HQ do álbum)!

O mesmo autor que, por motivos óbvios tem seu visto negado nos Estados Unidos, e um estado de perene desafeto com a rainha e seus súditos…um autor, que acima de tudo faz valer o significado real da palavra arte, que do latim (ars) significa modo autêntico de ser e agir, e consequentemente revalida sua consciência autoral.

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Página de Brought to Light

Enfim, àqueles que não conhecem nada sobre a histórica época vitoriana, eu sugiro que leiam a obra. Àqueles que nada sabem sobre Jack o estripador, eu sugiro que folheiem os quadrinhos de Alan Moore, que ao final de cada tomo desfila suas pesquisas meticulosas e licenças poéticas para a criação da obra-prima. Àqueles que pouco sabem que as HQ servem como veículo informacional que alia o conhecer ao prazer, eu sugiro que leiam estes tomos.

Enfim, a todos que desconhecem que uma história em quadrinhos pode ser algo mais adulto ainda que um livro, e mais científico que uma monografia (de uma maneira quântica, e que afeta diferentemente a mente humana), sugiro que corram seus olhos nestas pérolas desenhadas…e é bem provável que suas mentes jamais serão as mesmas novamente.

Moore não é apenas um autor, um roteirista: mas tem uma mente inquieta, pesquisadora, inquiridora, que trabalha fundamentalmente os dois hemisférios cerebrais conforme ele mesmo metaforizou na sua obra Do inferno, num diálogo entre o cocheiro e o médico (vulgo Jack), em que este lhe explica que o cérebro humano tem dupla função hemisferial (fig. 4).

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Página de Do inferno

Tal fato não é invenção de Moore, mas encontra respaldo nas mais atuais pesquisas do cérebro, com vários pesquisadores confirmando, dentre os quais destaco os que usei em minha tese, como Waldemar De Gregori, Nubor Facure, Raul Marino (deste último pode-se ouvir entrevista em rádio recente: http://cbn.globoradio.globo.com/programas/caminhos-alternativos/2009/06/27/FE-E-CRENCA-TEM-RESPOSTAS-NO-CEREBRO-RECEITA-DE-SOPAO-LIGHT-O-SEGREDO-DA-LONGEVIDAD.htm ).

Como se vê: para alguns artistas das HQ, esta arte serve como metáfora da busca do saber real, da manutenção e ampliação da consciência, como demonstra ser o caso de Alan Moore.

Gazy Andraus  – atualizado em julho de 2009.

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