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Camiño di Rato 3: a complexidade pela dualidade dos sentimentos (Fig.2)

A proliferação de publicações autorais com quadrinhistas nacionais têm aumentado numa escala vertiginosa de alguns anos para cá. Até a década de 1990, havia bastante instabilidade no mercado (por isso muitos fanzines), e os quadrinhos ainda eram pouco valorizados e reconhecidos.

Porém, apesar disto, ainda falta um bom percurso para que as HQ finalmente sejam tidas de igual pra igual como o é o cinema, por exemplo. Mas isto, ao que parece, é questão de tempo.

Até que isso ocorra de vez, ainda surgem também, em meio aos álbuns e graphic novels, revistas endereçadas a um público mais maduro, como a pequenina em formato mas grande em qualidade, Zine royale, editada pelo competente Jozz.

Além dessa, entre muitas outras dentro do movimento 4º Mundo, aparecem algumas que têm uma linha específica, como a Camiño di Rato, feita pelos uberlandenses Matheus Moura e Rosemário, com vários colaboradores quadrinhistas que também são pesquisadores da Nona Arte, como Edgar Franco, Alberto Pessoa, Gian Danton e este que voz escreve.

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Fêmea Feroz (Fig.1)

A revista lembra algumas similares da década de 1990, como a efêmera Fêmea Feroz (fig. 1), que prometia publicar HQ criativas, mas só durou o primeiro número. Porém, Matheus Moura tem obtido apoio da Lei Rouanet e não mostra sinais de parar: ao contrário, já recontactou alguns dos colaboradores assíduos para o quarto número da revista, pretendendo algumas mudanças a partir dali, mas não no enfoque escolhido pela Camiño…

Neste meu texto, eu analiso o recente terceiro número, que está oficialmente lançado no dia 27 de fevereiro de 2010 na livraria HQMix, em São Paulo.

Apesar de colaborador, tento manter um olhar crítico de leitor, e no caso, leitor adulto aberto a diferentes possibilidades. Inclusive, a esta minha coluna de Consciência e Quadrinhos costumo relacionar os quadrinhos à questão de mente humana. Pois bem: ouço de alguns autores (bem como de leitores e críticos) que uma boa história em quadrinhos é aquela que “conta uma boa história”.

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Rato “punk”, desenho de autoria de D. Ramirez (Fig.3)

Mas isso é limitação: seria o mesmo que se afirmar que uma boa literatura é aquela que sempre conta uma história em narrativa tradicional ou prosa…e como ficam as poesias, os poemas hai-kais? Contam “história” de outra maneira, elíptica e diferente de um roteiro-padrão. E não deixam de ser literatura por isso. Nos quadrinhos (bem como nos filmes de curta-metragem) também há essa possibilidade. Quadrinho não é sempre uma narrativa tradicional!

A revista Camiño di Rato traz autores que também se servem dessa possibilidade de um quadrinho experimental que grassava nos zines.

Porém, à primeira lida, tive uma impressão ambígua, e tanto negativa: passou-me que muitas das HQ fazem apologia de um destino malfadado e pessimista. Porém, eu não a havia lido inteira. Decidi-me, então, passar à revista a leitura, e constatei algumas conclusões novas.

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Bloco de Pedra(fig. 4)

Primeiro, é mister lembrar que a arte reflete a psique do ser humano, no estado em que se encontra. Assim, o que quer que façamos na vida, especialmente a arte, o conteúdo expõe metaforicamente o andor de nosso ser interno.

Portanto, num mundo cheio de problemas e questões que a humanidade não sabe resolver (ou colabora para criar), é natural a insatisfação e dissabores que grassam nas respostas artísticas. A Camiño, porém, intercala humor e reflexão, que muitas vezes não é fácil a digestão.

A começar pela capa de Shimamoto (fig. 2) mostrando um rato que acabou de vencer a luta contra um gato (que não aparece, exceto por sua cauda metonímica). A última capa (fig. 3) também tem outro desenho de autoria de D. Ramirez (um rato “punk”).

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“Deinomos” (fig 5 e 5a)

As duas HQ coloridas que se estampam nas contra-capas mostram uma arte diferente de Soter Bentes, num belo colorido: um humor ameno e bem interessante.

Destaque para a última HQ “Bloco de Pedra” e sua diagramação, em especial o “grito” emoldurante da personagem no quadrinho final: esta HQ traz uma mistura entre a arte dos desenhos e o texto, que nesse caso estão muito bem balanceados, trazendo a informação inteligentemente: a imagética completa a fonética e vice-versa (fig. 4).

Outra HQ, “Lenda” (esta de Rosemário) mostra, tal qual a minha HQ “Deinomos” (fig 5 e 5a) , numa interessante coincidência, em que o ser humano é passível de falhas, embora tenhamos sido levados a pensar que fomos feitos à semelhança de um ser superior (que em primeira instância, seria “perfeito”).

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“O Ideal Transumano” de Edgar Franco (fig. 6)

A mais alinear é a HQ “O Ideal Transumano” de Edgar Franco (fig. 6). Mas assim como eu, ele traz um texto como co-leitura da HQ, expondo uma metodologia diferenciada nessa sua HQ, que traz imbricamentos de várias áreas científicas, mas que obviamente também conceitua a preocupação no complexo humano, levando-nos à reflexão.

Depois vem a “pesada” “Navalha” de Al Greco (fig. 7), com influências do pintor expressionista Edvard Munch (fig. 8), e sua tela “Puberdade” (de 1894). É uma HQ muda lúgubre, que remete aos pintores não só expressionistas, como simbolistas. Remeteu-me a Henry Fuseli e sua pintura The Nightmare, 1781 (fig. 9), em que um íncubo aparece deitado sobre uma donzela adormecida (esta pintura já foi mencionada por Alan Moore numa das seqüências da série Monstro do Pântano).

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“Navalha” de Al Greco (fig. 7)

A HQ “Shii (morte)” de Matheus e Shima trazem a apoteose de o que é a arte de viver – mesmo na morte! Gonçalo Jr. e Bira Dantas trazem a mais tragicômica das HQ (fig. 10), em 12 páginas revelando no último quadrinho uma imagem que sintetiza o ser-estar dos cidadãos na sociedade, e como cada qual leva a vida pela ótica de seu próprio umbigo (a história nos faz perceber, em meio a uma arte caricatural e hilária a razão trágica de o porque o ser humano é o que é…).

Na revista ainda aporta um interessante texto do cientista social (e poeta) Gustavo H. Ferreira…é um artigo profuso e um pouco prolixo no começo, mas necessário para que ele pudesse traduzir o que costuma estar hermético em nossos íntimos. É um texto filosófico, rico, esclarecedor, dos paradoxos a que nos submetemos na vida, e quase nunca paramos para refletir sobre questões como vida, cultura e o que se entende por “alternativo”.

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“Puberdade” (1894), de Edvard Munch (fig. 8 )

Ele cita até dois exemplos, o Radiohead, banda que disponibiliza suas faixas gratuitamente na Internet e um local alternativo em Uberlândia, o “Goma”. Tudo isso, para concluir que o tal alternativo está como que engessado no mercantilismo social do qual tenta se “alternativar”, não tendo como escapar. Um texto pródigo em reflexão!

G. Danton e G. Silveira trazem a ficcional (mas metafórica) “Caninos brancos”, criando seres que são mesclas entre o “bicho-papão” e um bicho de pelúcia, que são sempre caçados, até que um dia, um de seus algozes modifica seu olhar sobre os bichos.

“Erros” de Vinicius Posteraro parece confirmar a mensagem da HQ “Lenda” de Rosemário, em que o ser humano tem mais semelhança com um arremedo defeituoso do que com uma criação correta da natureza; e “Frígida” De M. Moura e Rosemário imbrica em mais uma das situações desprezíveis quando o ser humano não exerce de forma construtiva suas qualidades.

Além dessas, há mais um pouco de humor, para mudar o aspecto, com HQ de Beto Martins e tiras de Henrique Magalhães (sendo agraciado agora no mesmo dia 27 de fevereiro de 2010, com o prêmio Angelo Agostini “Mestres do Quadrinho Nacional”, junto a Franco de Rosa e Rodval Mathias), Jimmy Ruis, Edgard Guimarães e os editores-autores da revista.

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The Nightmare (1781) de Henry Fuseli (fig. 9)

Finalizam a Camiño uma HQ de Alberto Pessoa pondo em pauta a questão do fascínio pela violência em filmes, e “Zíper” (de Rosemário) numa brincadeira “inocente”, possível graças à linguagem cinematográfica e quântica dos quadrinhos.

No todo, os aspectos “pesados” que detectei na revista (tragédias, tendências suicidas, necrofilia e violência) são aspectos que realmente chamam a atenção. Porém, ao mesmo tempo, podem levar a reflexões: por que estas criações? Por que singrar por estes caminhos? É devido a gostos dos artistas? Ou talvez preocupações que os afligem, que os acometem, como acometiam Van Gogh e Edvard Munch, tal qual como aparecem em algumas das HQ retratadas?

Eu mesmo, com a HQ poético-filosófica “Deinomos” coloco em pauta a que tipo de evolução aludimos: se o homem descende dos dinossauros, não podemos exterminar o instinto animal (pois genético)?

Somos dinossauros em potencial nesse salto de tempo da natureza? Ou aquilo a que aludiu o biólogo Maturana, como sendo o “amor”, seria uma natural conseqüência da própria evolução da vida…a qual ainda não alcançamos? Pois sabe-se que o número de genes entre homens e ratos é igual (cerca de 30 mil), embora a ciência pensasse antes haver uma enorme diferença.

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HQ tragicômica de Gonçalo Jr. e Bira Dantas (fig. 10)

Mas sabe-se também agora, que não é a quantidade, mas sim, os genes responsáveis pela diferença e a expressão deles em proteínas (especialmente no cérebro) que nos diferencia dos ratos, embora sejamos todos mamíferos…eis talvez porque os idealizadores da revista tiveram a ideia “inconscientemente” do título dela, apesar de parecer um tanto quanto agressivo, e que tem singrado por uma linha próxima (mas com diferenças) da extinta “Mandala’ (antes Tyli-Tyli) publicada pela fantástica editora “Marca de Fantasia” de Henrique Magalhães.

Nela, Henrique publicava HQ e textos com os principais autores da linha Fantasia-Filosófica (como Edgar Franco, Calazans, e mesmo Rosemário e  Al Greco), tendo sido pioneiro em editar uma revista de quadrinhos exclusivamente a essa temática.

De toda maneira, antes de finalizar este estudo exploratório (e sobre a consciência) sobre o número 3 da “Camiño di Rato”, ainda é possível se apontar duas questões, que refleti:
O conjunto das HQ (mais textos) que fazem a revista demonstra, apesar da dureza de algumas, um empenho em cada autor, e nos editores, de montar um conjunto coeso e pungente, e não algo aleatório e impensado.

Não são trabalhos fáceis de se fazer, tanto dos autores como editores, e todos merecem atenção por parte da leitura, para que se perceba a complexidade envolvida, tal como eu percebi numa leitura atenta.

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extinto fanzine Barata (fig. 11)

A segunda questão seria uma possibilidade por mim aventada agora: talvez essa revista pudesse sofrer uma “mutação”, causando reflexos no seu nome, como aconteceu com a Tyli-Tyli, para outro título (ou subtítulo) que trouxesse mais foco ao entendimento de seu conteúdo…algo como “O gene da ratiferença”, ou similar.

Mas essa idéia foi mais uma ponderação pessoal, e talvez não tenha a ver com a proposta corrente da revista, que pode ter esse tom dual de entendimento: um conteúdo forte e arrebatador, lembrando inclusive a força que havia no fanzine extinto “Barata” (fig. 11), editado por Calazans, e que estreou muitos dos quadrinhistas que são reconhecidos na atualidade.

Aliás, a revista “Camiño di Rato” também tem uma “toca” para se esconder/aparecer na Internet. Basta acessar o blog ToKa di Rato, clicando aqui.

Gazy Andraus; São Vicente, fevereiro de 2010.

Gazy Andrausconsciência e quadrinhosAl Greco,Alberto Pessoa,Beto Martins,Bira Dantas,D. Ramírez,Edgar Franco,Edgar Guimarães,gazy andraus,Gian Danton,Gonçalo Jr.,Guilherme Silveira,Henrique Magalhães,Júlio Shimamoto,Jimmy Rus,Matheus Moura,Rosemário Souza.,Vinicius PosteraroCamiño di Rato 3: a complexidade pela dualidade dos sentimentos (Fig.2) A proliferação de publicações autorais com quadrinhistas nacionais têm aumentado numa escala vertiginosa de alguns anos para cá. Até a década de 1990, havia bastante instabilidade no mercado (por isso muitos fanzines), e os quadrinhos ainda eram pouco valorizados...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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