Fig. 01

Este texto foi originariamente publicado no site Internwwws em 2003, mas como o referido site não parece se encontrar mais no ar, tomo a liberdade, como autor do texto, de republicá-lo nesta seção “Consciência e Quadrinhos”, já que ele faz parte de uma trilogia de textos que irei disponibilizando aqui ao leitor (e agora com imagens).

Além do mais, é pertinente ao tema da seção, e o assunto não se esgotou e nem envelheceu, como vocês poderão ver a seguir.

Assim, utilizar-me-ei de ficcionalidade para começar uma história, cujo cerne não é ficcional.

[Prólogo:

Há sempre aqueles que perguntam “o que está acontecendo?”.

Para aqueles que precisam perguntar, para aqueles que precisam de muita explicação, para aqueles que precisam que se lhes indique o caminho, aqui vai:

“A massa humana serve ao Estado não como homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército, a milícia, carcereiros, policiais, a força civil etc. Na maioria dos casos, não há exercício livre nem de julgamento ou no sentido moral; eles se nivelam com a madeira, a terra e as pedras; e homens de pau talvez possam ser manufaturados para servir o mesmo propósito.

Esses homens merecem tanto respeito quanto um homem de palha ou um monte de lixo. Têm o mesmo valor que cavalos e cães. No entanto, mesmo eles podem ser, comumente, considerados bons cidadãos.

Outros, como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários, servem ao Estado basicamente com suas cabeças; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, servem tão bem ao Diabo, sem o querer, quanto a Deus.

Uns poucos, os heróis, patriotas, mártires, reformadores no sentido mais amplo, e homens, servem ao Estado com sua consciência também, e lhe impõem resistência, necessariamente, a maior parte do tempo; e são tratados como inimigos por ele.”

Henry David Thoreau – Desobediência Civil

Este é o cerne da questão. Começaremos pelo meio e, depois, saberemos o princípio; o fim surgirá por si próprio.]

Todo o texto acima que está dentro dos colchetes é tirado da primeira página de uma história em quadrinhos (HQ) chamada “Arrependa-se, Arlequim!” Disse o Sr. Tiquetaque” (Fig. 1), e foi publicada na revista 3a. Geração (Ed. RGE, n. 4, outubro de 1981), que viria a substituir com uma curta vida, a revista de HQs que marcou época, Kripta.

Fig. 02

A HQ em foco foi roteirizada por Roy Thomas e desenhada por Alex Nino (mas é uma adaptação de uma história originalmente concebida pelo escritor Harlan Ellison).

É mais um daqueles contos de ficção científica que confronta o poder instituído como punho de ferro ditatorial, não permitindo ninguém livre de seu totalitarismo, subjugando todos a uma vida inócua e incriativa.

O fragmento de texto de Thoreau, que foi preso pelo governo norte-americano por se recusar a pagar impostos, caso continuassem sendo usados contra a guerra ao México, é de extrema importância e ecoa sua força contida, sempre (o texto data por volta de 1850)! Não à toa foi apropriada sua inserção na abertura da HQ mencionada!

Mas o cerne da questão também condiz com um fato ocorrido nesta sexta-feira, dia 2 de maio de 2003, em Salvador, na Bahia.

A televisão mostrou o assalariado tratorista Amilton dos Santos pronto para realizar sua tarefa, já que, como funcionário do “Estado”, estava incumbido de pôr abaixo uma residência que, sob ordem judicial tinha que desaparecer do terreno, por causa de reintegração de posse.

Decerto aquela era uma área com donos, e os moradores foram construindo moradias sem que nada fosse feito ou talvez pré-conhecido. Como vivemos num mundo capitalista, a propriedade privada adquirida tem que continuar com o respectivo dono, e isto é um fato.

Desenvolvemos uma vida social dessa forma, e não podemos mais nos modificar, já que estratificamos este sistema.

Assim, a ordem estava dada, o funcionário chegara com o trator, e quando estava para iniciar a primeira investida do veículo contra as paredes da residência, algo gritou mais alto, no fundo do honesto funcionário.

Atrás de seu trator, a família composta de nove filhos se desarranjava em prantos, enquanto os homens do Estado (burocratas, advogados e policiais) tratavam de manter o público à distância.

Fig. 03

Mas as câmeras de alguma TV local estavam ansiosas pelo desfecho do drama: mais uma casa destruída e uma família pronta a morar nas ruas…faltava pouco para completarem a entrevista com os moradores, bastando aguardar resignadamente a ação de Amilton.

Mas eis que ele não movia o trator, que estava já encostado à parede que iria sucumbir. Com um ar cansado e as mãos suando e deslizando pelo rosto já marcado de dobras devido a uma vida inteira dedicada ao trabalho, Amilton não conseguia concretizar seu “fácil” trabalho de carrasco: ele mesmo, possuidor de sete filhos, colocou-se (que absurdo!) no lugar do pai da outra família…e chorou!

Dessa forma, não conseguindo realizar sua tarefa, o funcionário Amilton desceu do veículo titânico e teve ordem de prisão por desacato à justiça e ao cumprimento de seu dever, sendo gentilmente conduzido pelos policiais, e foi embora dentro de um carro da polícia.

A família foi salva por mais alguns dias, para que aguardasse um novo milagre, mais algum gesto igual ao de Amilton (chamado pela TV de “Amilton de todos os Santos” como alusão à Bahia e a sua atitude).

Mas outro virá…e não será Amilton!. A casa será derrubada, e tudo não terá passado de um mísero momento de fraqueza, de falha na programação social, falha que pode ocorrer de quando em vez, devendo logo ser sanada, pois o sistema é “perfeito” com suas leis e padrões, e não pode haver discussão.

De qualquer modo, a história se repete: Amilton foi o Arlequim, o mesmo que figurava na HQ mencionada no início destes escritos. O Arlequim, na história imagética seqüenciada era um “maluco” fantasiado de palhaço (arlequim) que não respeitava os padrões de funcionamento de horários rígidos e “perfeitos” que regravam o mundo no qual ele vivia: assim, o sumo todo poderoso Sr. Tiquetaque, como autoridade que era, conseguiu capturar e “doutrinar” esta “falha” humana, re-instaurando novamente o jovem Arlequim ao sistema normatizado (Figs 2, 3 e 4)…

Henry David Thoreau falava de todos esses personagens: os policias, os advogados, os burocratas: eles eram os que serviam bem ao estado. Mas falava também de Arlequim e do sr. Amilton: os heróis, os mártires (mesmo que não o quisessem ser), como inimigos do funcionamento estatal, e por isso o funcionário tratorista foi preso.

Não importa se seu coração falou mais alto e se ele chorou…não importa se ele se entristeceu e sentiu o horror do próximo, como se fosse um horror sentido por ele mesmo…não importa se naquele eterno momento de dúvida seu cérebro racional gritava para ele realizar sua tarefa, enquanto um outro órgão, há muito esquecido por nossas vidas regradas, se reerguia altivo e sem medo, sufocando a massa encefálica raciocinante: o coração deu sua voz, afinal!

Fig. 04

Foi pouco, talvez uma única vez com tamanha força, numa vida de uns 50 anos…uma única vez, talvez, em que ele, este órgão vital, além de só bater e irrigar o sangue pelo corpo, conseguiu transmitir sua lamúria e sua angústia para com a autoridade extremista do cérebro…uma única e fatídica vez com tamanho ímpeto, possivelmente…mas que logo seria calado por outros cérebros comandantes que vieram ao auxílio do cérebro de Amilton, “traiçoeiramente” amuado pelo gigante cardíaco…uma só vez, calado, e quiçá…nunca mais?
É: Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius!

Escrevi esse texto com certa poesia (queria pôr mais, mas acho que estou desaprendendo), pois foi o que senti quando vi o fato pela televisão no domingo, dia 4 de maio de 2003, e também vi minhas lágrimas saírem (com certa sutileza controlada, pois meu cérebro estava de prontidão) de meus olhos, quando observei a figura do desestabilizado Amilton ser conduzido com policiais que, em verdade, também estavam sensibilizados com o funcionário fraternal e corajoso.

Enfim, retratei dessa forma o que vi, tentando me lembrar (e a nós) o que somos realmente, e o que temos estado fazendo de nossas vidas.

Releiam novamente o fragmento de Henry David Thoreau…vejam a força e atualidade com que suas palavras sábias foram registradas!

É bom pensarmos e comungarmos juntos, pois não tenho mais certeza se tais surtos do coração, como este que vi, continuarão acontecendo nessa humanidade…sinceramente, eu sei que não vai terminar totalmente, mas quanto tempo ainda vamos aguardar para sabermos agir? E ainda, saberemos agir? Agiremos? Não pergunto a respeito da ação física (Amilton agiu pela não-ação), mas sim, pergunto acerca de outra ação: dos nossos corações!

(em breve, a segunda parte desta trilogia)

Gazy Andraus, 6 de maio de 2003 (atualizado em out de 2008).

Gazy Andrausconsciência e quadrinhosDesobediência Civil,gazy andraus,Henry David ThoreauFig. 01 Este texto foi originariamente publicado no site Internwwws em 2003, mas como o referido site não parece se encontrar mais no ar, tomo a liberdade, como autor do texto, de republicá-lo nesta seção “Consciência e Quadrinhos”, já que ele faz parte de uma trilogia de textos que irei...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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