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Figura 01

“Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius!
Não! Não enquanto eu estiver batendo pela Vida, pois assim me disse a Sra. Esperança!”

O fato que aconteceu anteriormente (dia 02 de maio de 2003), em Salvador na Bahia, quando um trabalhador se recusou a derrubar uma casa para reintegração de posse, teve um desfecho inusitado!

Eu, sensibilizado que estava, havia escrito um texto a respeito, apropriando-me do trecho do livro “Desobediência Civil” de Henry David Thoreau, que havia servido de abertura para uma HQ (história em quadrinhos) de cunho instigador, publicada na década de oitenta no Brasil (a HQ “Arrependa-se, Arlequim!” Disse o Sr. Tiquetaque”).

Parecia que Amilton, o funcionário “desobediente” apenas protelou o inevitável. Mas eis que novo informe me chegou em 15 de maio, pelo noticiário televisivo, trazendo ainda algumas informações que não haviam sido divulgadas antes, e que delineiam novo rumo aos acontecimentos.

Então, vejamos: a casa que seria derrubada, estaria acompanhada de mais outras 9 famílias (o noticiário não deixou claro se equivale ao número de casas), pois todas estavam numa área possuída por outro(s) dono(s).

Informaram ainda que um engenheiro, o dono do terreno, no qual estava construída a casa em enfoque (que pertencia à família da merendeira Telma Santos) ganhara uma ação iniciada há 24 anos, que consistia na reintegração de posse.

Esta era a razão da demolição da casa, no dia 02 de maio de 2003, por ordem judicial. Foi dito ainda que o tratorista contratado para fazer o serviço, “Amilton dos Santos não teve coragem de avançar nem sob ameaça de prisão”.

Desta forma, porque “ele está obstruindo a ação da justiça e em face disso”, estava sendo “preso em flagrante delito”, como esbravejou um dos “burocratas” para a câmera. No primeiro noticiário, termina aí o relato, deixando em aberto que brevemente outro tratorista substituiria o desobediente funcionário…ou seja, ele havia dado uma esperança temporária à família desesperada.

No dia 15 de maio de 2003 o noticiário trouxe a informação de que a prefeitura de Salvador se sensibilizara com o ocorrido, tendo o Prefeito decidido desapropriar a área onde fica a casa de dona Telma, e das outras nove famílias, mantendo-as de pé, e indenizando os verdadeiros donos dos terrenos (o engenheiro, segundo a informação, iria receber da prefeitura de Salvador, R$ 20.000,00 de indenização. E em declaração para os repórteres da emissora, alegou estar satisfeito com a solução).

O “insubordinado” Amilton, por sua vez, recebeu vários telefonemas de apoio com sua atitude (não se explicou se ele havia sido preso, mas ele foi mostrado em sua casa), e recebera na próxima segunda-feira ao ocorrido, dia 19 de maio, em Vitória no Espírito Santo, uma homenagem especial do Conselho Federal da Ordem dos advogados do Brasil.

Na entrevista, o humilde trabalhador, emocionado, reafirmou que estava alegre com isso, mas mais alegre ainda pela felicidade que pôde proporcionar à dona da casa que ele teria derrubado, não fosse seu ato, que, enquanto fraternal, ilegal perante a lei dos homens.

E assim, eu mesmo que havia quase perdido as esperanças com as leis dos homens, que costumam substituir a fraternidade pelas regras duras (sed lex, dura lex: lei dura, porém lei), e também quase perdido a confiança em resultados animadores, apesar de atitudes simples e isoladas como a do humanitário Amilton, acabei por ser obrigado a reavaliar meus conceitos.

Lembrei-me de Gandhi que, com fervor e amor à sua causa de libertação espalhou o sentimento, como um meme, aos seus congêneres, espraiando a energia da ação pela não violência, mas com tamanho ímpeto, que espargiu e criou força inundando de coragem a todos de seu país (o meme é uma teoria de Richard Dawkins que se assemelha ao gene, porém se espalha e faz com que as pessoas acabem por “imitar” pensamentos e ações correspondentes na sociedade. Ou seja, o memetismo é uma propagação de ordem mental e não física como o gene).

Sim, eu me enganara: uma atitude como a do tratorista que, em face de sua consciência, pôde, num embate entre o coração e a razão pura, destronar esta, fazendo seu cérebro agir como servidor ao coração, e não ao contrário, como sói ser na nossa civilização, encheu-me de esperança (a questão do “duelo” entre razão e a consciência também está metaforizada na “bíblia” hindu, o Baghavad Ghita, no ato do heróico Arjuna face à batalha que ele iria travar com seus congêneres,).

gazy_02Figura 02

Este ato de rebeldia renova meus anseios e me diz que ainda podemos ter esperança, se agirmos como naquela fábula da mata que arde em chamas, na qual o pequeno pássaro levava em seu bico a quantidade máxima que podia para apagar o fogo, enquanto que era inquirido ceticamente por outro animal, que afirmava ser este um ato inútil.

E mesmo assim a pequena ave emplumada retrucou que, de qualquer modo, estava fazendo a sua parte, por mais insignificante que aparentasse ser.

Bem, o Sr. Tiquetaque (fig. 1) nesta história da vida tridimensional, perdeu para o Arlequim (o vilão Tiquetaque da HQ mencionada no texto anterior, comandante de um sistema que era cego para o coração, porém fiel à engrenagem fria e racional, havia recondicionado o “herói” Arlequim, que ousou desafiar os padrões estabelecidos, desrespeitando os horários regrados para tudo na vida, tendo se insurgido contra isso e sido considerado um fora-da-lei pela justiça daquele mundo).

Note que a atitude do tratorista faz mesmo nossa reflexão funcionar: nas teorias atuais (física quântica, ciência fractal), nada é o que aparenta ser, mas sempre algo mais, paradoxal e aparentemente “ilógico”. Uma das metáforas usadas é o efeito-borboleta (embora controverso) que estipula que todas as coisas são concatenadas: se uma borboleta bate as asinhas aqui no Brasil, dependendo de outras instâncias, a pequena lufada de ar dela poderá (ou não), refletir num furacão que aparecerá no Japão.

Ou seja, se o furacão tem uma causa determinada (não facilmente e indiretamente) pelo vento que o lepidóptero criou apenas em estar vivendo, sem consciência destacada, que se pode dizer do homem? Numa história em quadrinhos autoral “muda”, chamada “O Sistema” de Peter Kuper (fig. 2), apresenta-se de forma alegórica como funciona essa teoria: os cidadãos de uma cidade se influenciam mutuamente, ainda que nem se conheçam e saibam que isso ocorre, num entrecruzamento de acontecimentos extremamente complexo, em que cada “movimento” de cada um (desde o mendigo, passando pelos jovens aos policiais e políticos) entretecem um teia que se configura sistêmica, afetando a todos, de forma caótica (como na teoria da borboleta).

É realmente difícil de se crer, assim como é difícil visualizar como, ambiguamente, uma micropartícula atômica é um corpúsculo presente em determinado tempo-espaço, e de repente ela já é uma energia ondulatória que não pode ser vista naquele mesmo ponto em que foi observada (segundo o filósofo Heráclito, apelidado de “o Obscuro” por Aristóteles, um homem nunca pode pisar no mesmo rio duas vezes…o rio nunca é o mesmo, e podemos dizer que o homem também não o é).

Outra metáfora é a árvore que cai na floresta, sendo que não haveria nenhum ser humano para ouvir sua queda. O som dela colidindo ao chão existe? Se o homem não o ouve, pode-se dizer que não?
Mas os animais, poder-se-ía retrucar, ouvem o som, e as ondas sonoras se propagam pelo ar à revelia da existência ou não do homem. Pois bem, mas os animais não têm a consciência destacada da natureza, e não criam conceitos: “som” é uma designação humana.

Uma testemunha que se afastou e pôde deliberar acerca do fato. Coisa que nenhum outro ser vivo (ou inanimado) pode estabelecer na Terra. Nenhum animal, ao que parece, pensa: minha mente sou ou não sou eu? Então, o que sou eu, se minha mente pensa em separado de mim.

O que é esse “mim”? Alan Moore, na obra em quadrinhos Watchmen, colocou-nos muito dessa posição que, antes de filosófica é ontológica ao ser humano (fig. 3). Moore nos faz pensar quem cria o quê neste planeta, e se as causas são ou não determinadas (dúvidas iguais aos cientistas e filósofos).

Para finalizar: qual a seqüência de acontecimentos que teríamos, caso o tratorista Amilton não tivesse tido aquele “surto” de consciência (e/ou de insubordinação à ordem social), e tivesse prosseguido em sua tarefa? Ele teria derrubado a casa, teria completado mais um dia normal em seu emprego, contando regressivamente os anos que faltavam para sua aposentadoria, na maior tranqüilidade conscienciosa, visto que cumprira seu papel no sistema social.

Mas eis que de repente Amilton resolveu seguir seu sentimento de comiseração, e naquele dia desistiu de ser o carrasco daquela família, sendo “preso” em seguida. Só que, graças à propagação da informação, principalmente via ondas elétricas, devido à tecnologia, aquele fato chegou a milhões de pessoas.

Algumas não se importaram, outras se sensibilizaram, e mais outras agiram. Escreveram, telefonaram, fizeram pequena pressão (voluntária ou invonluntária), e o próprio Prefeito de Salvador interviu.

gazy_03Figura 03

Assim, os fatos foram diferentes. De um modo ou outro, para o melhor ou para o pior.
Quem pagará as indenizações? O dinheiro não é do contribuinte? Todos, indiretamente, ajudaram…querendo, ou não.

E mais: este episódio fez-me ficar ainda mais atento ao que ocorre nos noticiários da televisão: nas duas reportagens, fatos que haviam ocorrido na primeira não haviam sido mostrados naquela vez, sendo divulgados só agora. O funcionário burocrata que esbravejava a ordem de prisão não havia aparecido antes.

Mas agora a TV o mostrava. Assim, eu ficava mais revoltado ainda com o sistema. Por outro lado, se ele tivesse sido mostrado da primeira vez, eu teria ficado ainda mais insurreto?
Não se esqueça: eu ou você não somos um objeto.

Nossa estrutura atômica é menos rígida, ou seja, nossas moléculas, nossos átomos, “dançam” mais que os de uma pedra. Somos quânticos, e nossa consciência também: um computador processa binariamente: Sim, Não. Eu ou você processamos distintamente: Sim…Talvez…Não…Por quê? etc. As manipulações de informações também podem nos iludir e fazer-nos “querer” agir em prol a algo…que não sabemos com certeza se idôneo ou não.

Só o cérebro funcionando, e comandado por nosso coração, pode nos levar (e a humanidade junto) por um caminho talvez mais sábio…talvez seja este ponto importante e nevrálgico que os cientistas ainda não alcançaram, e que os “místicos” intuem, mas não sabem explicar, sendo por isso, desacreditados pelos homens da ciência.
É possível que se o coração se sobrepujar à racionalidade fria do cérebro (que deveria, talvez, servir ao pulsante órgão, e não ser servido) pode, como foi visto, traçar novos rumos, talvez jamais dantes navegados ou sequer imaginados!

Completo aqui a paráfrase que fiz da HQ, tendo sido utilizada como título no texto anterior:

“Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius!
Não! Não enquanto eu estiver batendo pela Vida, pois assim me disse a Sra. Esperança!”

Gazy Andraus, escreveu isto no dia 15 de maio de 2003 (e atualizou em dezembro de 2008!).

Gazy Andrausconsciência e quadrinhoscérebro,gazy andraus,RaciociniusFigura 01 “Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius! Não! Não enquanto eu estiver batendo pela Vida, pois assim me disse a Sra. Esperança!” O fato que aconteceu anteriormente (dia 02 de maio de 2003), em Salvador na Bahia, quando um trabalhador se recusou a derrubar uma casa para reintegração de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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