fig_01

Fig 1: Trecho da HQ “Terminal” de Flávio Calazans, contendo as leis da robótica de Isaac Asimov. Esta HQ faz parte do álbum “Guerra das Idéias”, de Calazans, lançado pela Editora Marca de Fantasia (http://www.marcadefantasia.com.br/albuns.htm), em 2001.

Conforme relatei anteriormente, em maio de 2003, um fato me chamou a atenção no noticiário da TV: um trabalhador da Bahia se recusou a cumprir sua função, ao não derrubar uma casa que fora construída em terreno particular, mantendo esperançosa a família que ali residia e chorava do lado de fora, aguardando o desfecho da situação.

Pois bem, em face ao ocorrido, havia escrito um texto (“Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius!”), colocando em paralelo uma frase de Henry David Thoreau, retirada de seu livro Desobediência Civil (mas citada em uma história em quadrinhos adulta, na extinta revista Krypta).

Tracei o acontecido, e a noticiada prisão do trabalhador, que atendia pelo nome de Amilton dos Santos, quando, uns 10 dias depois, uma segunda notícia me reverberou nos ouvidos: a de que ele foi elevado à categoria de “herói”, pois a prefeitura de Salvador, sensibilizada (e pressionada pela população), evitou a demolição das casas, adquirindo o terreno, e por fim, prometendo entregar aos moradores as escrituras.

Escrevi, na época, um segundo texto (“Arrependa-se Sr. Coração, disse o poderoso Cérebro Raciocinius! Não! Não enquanto eu estiver batendo pela Vida, pois assim me disse a Sra. Esperança!”), renovando as esperanças na humanidade, face ao ocorrido, e alertando que ações isoladas muitas vezes trazem conseqüências enormes (como se respalda na física fractal e a teoria do efeito borboleta).

Ambos os textos foram publicados inicialmente no site aparentemente inativo atualmente http://www.internewwws.eti.br/ (agora no Impulso HQ), e me vi envolto a uma nova etapa de minha vida, pois além de textos acerca de histórias em quadrinhos, eu escrevia outros, como os referidos agora, e que também serviam para reflexão,  baseados em casos reais.

Depois do ocorrido, novo fato surgiu em 19 de março de 2005, quase dois anos depois, quando me deparo com um novo noticiário no mesmo canal (Rede Globo), à tarde, associando o caso de Amilton com a então novela chamada “América”, que teve como uma de suas cenas, a reprodução do ocorrido na Bahia, e influenciada pelo gesto do trabalhador.

A matéria do jornal, que se intitulou: “A arte que imita a vida”, anunciada pela jornalista, expõe claramente que a cena da novela se baseia no evento que teve repercussão nacional naquele ano de 2003, e ainda revisita Amilton e os moradores, mostrando o encontro dele com a dona da casa que foi “salva” por sua atitude (porém, até aquela data, a prefeitura ainda não havia fornecido aos moradores a escritura…mas isto poderá ser outra história).

O “herói” Amilton foi agraciado com um troféu e um prêmio, fornecido, se não me engano, pela ordem dos advogados. Porém, naquela última matéria, expõe-se mais um fato que foi manipulado pelo jornal naquela época. Da primeira vez, noticiou-se que a Amilton havia sido dada voz de prisão por desacato à função. Na segunda reportagem, mostrou-se a cena da voz de prisão, anunciada por um funcionário que estava no local, de forma mais contundente, e agora, na terceira reportagem, afirma-se que, apesar da ordem de prisão, em vez de ter ido à delegacia, Amilton, que passava mal, foi escoltado até um hospital.

Enfim, estas omissões e manipulações são o que menos importam em toda a trajetória deflagrada pela nobre atitude de um ser humano que compreendeu, naquele instante, que estava privando outros do mesmo direito que ele tem: o da moradia.

Outra coisa que interessa frisar é a repercussão que o caso deu: até mesmo tornou-se fato de uma novela da mais importante e influente rede de televisão nacional, veiculada em horário nobre (embora a temática da novela envolva rodeios, que não são muito bem vistos por defensores ativistas da vida animal).

Mas realmente, talvez o homem ainda necessite de heróis. E os atos heróicos nada mais são, do que se insurgir contra os padrões estabelecidos pelo sistema, que contemplam em primeira instância, não o ser humano, mas sim o ser “privado”, ou seja, a matéria que pertence sempre a alguém mais: o sistema excludente capitalista. Isto faz lembrar as três leis da robótica, criadas por Isaac Asimov (Fig. 1*), no clássico livro, “Eu, robô”, em que as máquinas de inteligência artificial (IA), conviveriam num futuro mundo fictício com os humanos, servindo-os.

fig_02

Fig. 2: “The influence of Ganhi” faz parte do livro “Cultural Studies for Beginners”, de Ziauddin Sardar e Borin Van Loon, publicado por Icon Books em1998 (inédito no Brasil).

Porém, as tais leis previam que os IAs nunca poderiam cometer males ou assassinatos à raça humana, e para tal, Asimov cuidou que nas leis estivessem previstas formalizações lógicas cuidadosas, que impediriam até princípios de contrariedade: um IA poderia realizar um desígnio de um ser humano, desde que tal desígnio não ferisse o estatuto da proteção humana: ou seja, um robô não executaria uma ordem em que a vida de outro ser humano fosse posta em perigo.

Mas em nosso mundo real e atual, tais premissas não foram previstas: se o terreno pertence a outro, a família que o “invadiu” há anos e lá construiu sua moradia, poderia morrer à mingua, já que a lei humana não contempla o fato de manutenção da vida daquela família (não os estão matando, apenas demovendo-os de um local que não lhes era seu por direito financeiro!).

Ou seja: o dono do imóvel (que tem seu direito assegurado, já que o comprou com seu dinheiro), poderia reavê-lo (mesmo que ali ele nada quisesse construir ou plantar), enquanto que a família poderia vagar a esmo e sem abrigo. Amilton, de certa forma, agiu como um IA: mas, paradoxalmente, se tornou mais “humano” do que nós (faz-se necessidade de se lembrar que um IA, teoricamente, é um computador cujo cérebro alcançaria modalidades de pensamento similares à humana: ou seja, não usaria só o código binário, mas também as lógicas paraconsistentes, o “talvez”, típico do pensar humano).

Isto faz lembrar também, a famosa carta endereçada a um chefe indígena, quando, na época da invasão do homem branco norte-americano, um presidente em exercício, tentando evitar mais problemas com os índios, pediu-lhes a compra de suas terras. Naquele solo em que estava se assentando a nação mais “poderosa” do mundo, o sábio chefe indígena retrucou numa carta ao presidente, a qual se tornou famosa e que circula até hoje, de forma incisiva e filosófica, como os homens brancos quereriam comprar terras, já que, aos índios, tal idéia seria absurda.

Os índios viam todas as coisas como dádivas, e que, assim como os animais e as águas, as terras não poderiam pertencer a alguém, embora todos tivessem o direito de viverem comedidamente nelas. Na reflexão, o chefe ponderou que ele refletiria sobre o caso, mesmo assim, pois do contrário os homens brancos viriam com armas de fogo e as tomariam à força. Mas aconselhou aos brancos que, caso se tornassem os donos, que cuidassem delas, como também dos animais. Incrivelmente atual, como faz ver a física moderna, o chefe explicou que todas as coisas eram interligadas, e que se o homem branco dizimasse tudo, seria o fim também deles e dês seus filhos que também estariam por vir.

Aqui, em face do acontecido na Bahia em 2003, e da repercussão que até hoje continua, tenho por obrigação ponderar sobre isto, e divulgar a vocês.
Pois eu mesmo, muitas vezes, abandono vontades de agir, de tentar melhorar, de colocar minha alma e idéias com propósitos que muitas vezes clamam em mim, seja por fraqueza, temor, preguiça etc.

Mas que esta atitude do pequeno-grande homem Amilton, fique a todos nós, e nos sirva de lição: Gandhi (fig. 2**) foi, em sua juventude, um garboso advogado recém-formado na Inglaterra. Mas quando se deparou com a realidade de seus conterrâneos na índia, vagarosa, e soberanamente, foi abandonando a arrogância e as roupas ocidentais (e seus conhecimentos adquiridos), para adentrar num caminho da sabedoria e do conhecimento interno, como o do chefe indígena norte-americano e da atitude de Amilton: estes sim, muito mais fortes, embora não transpareçam em um primeiro momento.

Que isto tudo nos sirva de lição.

Humildemente, curvo-me também, à atitude nobre do homem-Amilton, que revi novamente na televisão, e que compartilhei com ele, em seu instante de extremada angústia, vertendo com ele, lágrimas misturadas com fé…uma fé estranha, que não sei como, me diz que o caminho dos homens não é nada do que foi feito, mas sim aquele que vive nas elipses, nos espaços da vida “real”, e que nos assombra e nos chacoalha, enquanto fingimos não ver ou sentir.

*Fig 1: Trecho da HQ “Terminal” de Flávio Calazans, contendo as leis da robótica de Isaac Asimov. Esta HQ faz parte do álbum “Guerra das Idéias”, de Calazans, lançado pela Editora Marca de Fantasia (http://www.marcadefantasia.com.br/albuns.htm), em 2001.

**Fig. 2: “The influence of Ganhi” faz parte do livro “Cultural Studies for Beginners”, de Ziauddin Sardar e Borin Van Loon, publicado por Icon Books em1998 (inédito no Brasil).

Gazy Andraus, esperando ainda retornar a um estado que já foi, não o mesmo, mas atualizado e, embora igual, diferente!

Terça, 22 de março de 2005, 3 da manhã (atualizado em 2 e 3 de fevereiro de 2009).

Gazy Andrausconsciência e quadrinhosAmilton,Borin Van Loon,cérebro,Flávio Calazans,Gandhi,Guerra das Idéias,Henry David Thoreau,Isaac Asimov,Krypta,Raciocinius,Terminal,Ziauddin SardarFig 1: Trecho da HQ “Terminal” de Flávio Calazans, contendo as leis da robótica de Isaac Asimov. Esta HQ faz parte do álbum “Guerra das Idéias”, de Calazans, lançado pela Editora Marca de Fantasia (http://www.marcadefantasia.com.br/albuns.htm), em 2001. Conforme relatei anteriormente, em maio de 2003, um fato me chamou a atenção...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe