Fig. 1- MarcAMathieu-HQ

Figura 1

A múltipla realidade paralela da existência (in)consciente de Julius Corentin – Parte 1

Neste último 6º. FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, que aconteceu em Belo Horizonte no mês de outubro de 2009, havia um autor francês que acabou não vindo ao evento. O que foi uma pena, pois o trabalho de Marc-Antoiune Mathieu, cujo nome apareceu na primeira lista desse último FIQ, é um dos melhores que já vi no cenário da BD (HQ, como são conhecidas na França) contemporânea, em matéria de criatividade, em meio a tanta falta de originalidade generalizada pelo mundo.

Além disso, seus trabalhos trazem em pauta uma crítica à burocratização, em específico na obra “Le Processus” (com o personagem principal Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos).

Pois senão, vejamos o que este, um de seus vários álbuns, tem a nos dizer.

“Le Processus [1] ”  (fig. 1) é uma obra em narrativa seqüencial dividida em 5 partes, mais um prólogo, dividido da seguinte maneira:

0) Prólogo;
1) A intrusão fatal;
2) A usina dos sonhos;
3) O pesadelo do teto;
4) Em busca do sonho perdido;
5) O infra-sonho ou a ultra-realidade [2];

Fig. 2-Magritte-Issonaoeumcachimbo

Figura 2

O autor Mathieu tem uma série de vários álbuns, sendo que este é o quinto deles. Ele tece, em cada uma de suas obras uma história fechada, utilizando-se muito de metalinguagem e sobreposições dos tempos presente-passado e futuro (relatividades). Num dos outros álbuns da série (L´Origin), o personagem em foco, Julius Acquefacques, se depara com uma biblioteca que possui livros contendo episódios na forma de HQs das vidas de todas as pessoas.

Na pesquisa ele se depara com o livro que descreve sua vida, e a metalinguagem vem à tona enquanto ele dialoga com o bibliotecário, ao segurar e ler o livro que traz impresso em suas páginas a reprodução da mesma página em que o leitor está lendo. A certa altura, a cena se reproduz em outra página do álbum, como em um dèja-vu. O autor ousa também na concepção gráfica da HQ, “vazando” um quadrinho aberto, que sugere a metalinguagem, no momento em que o personagem aponta para a página anterior, dizendo que o fato já ocorreu.

Fig. 3-LeProcessus-Mathieu-p12

Figura 3

É um trabalho que conceitualiza as questões do livre-arbítrio e o “maktub”  (está escrito) justamente numa obra “escrita” com textos e imagens na forma de história em quadrinhos. A liberdade de criação do autor faz com que a HQ seja o único veículo que pode permitir [3] tal jogo metalinguístico – quase como a pintura “Isto não é um cachimbo” de Magritte  (fig. 2), e as incursões filosóficas propostas por Foucault.

Neste álbum “Le Processus”, não ocorre diferente: no primeiro capítulo, Julius Acquefacques, convivendo num mundo apinhado de gente, “trabalhadores-padrão”, como saídos do livro “O Processo”  de Franz Kafka, e num sistema altamente racionalizado, como as engrenagens de um relógio, vê seu mundo se transformar quando acorda no chão de seu quarto, e, antes de sair pela manhã de seu apartamento-padrão, se depara consigo mesmo novamente de pijama deitado em sua cama.

Fig. 3a-LeProcessus-Mathieu-p16

Figura 3a

Ambos Julius “paralelos” dialogam, mas logo um deles (o que ia sair) toma o veículo de condução: uma bicicleta com um motorista, que é conduzida entre os prédios por um sistema de cabos nos quais passeiam as bicicletas! (fig. 3 e 3a)

Continua no proximo post…

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Notas de Rodapé:

1 – Julius Corentin Acquefacques, prisonnier des rêves- Le Processus de Marc-Antoine Mathieu. Tournai, Belgique: Guy Delcourt Productions, 1993.
2 – E ainda mais uma surpresa.
3 – Veja nos comentários finais deste artigo.

Além disso, seus trabalhos trazem em pauta uma crítica à burocratização, em específico na obra “Le Processus” (com o personagem principal Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos).
Pois senão, vejamos o que este, um de seus vários álbuns, tem a nos dizer.

“Le Processus ”  (fig. 1) é uma obra em narrativa seqüencial dividida em 5 partes, mais um prólogo, dividido da seguinte maneira:

0) Prólogo;
1) A intrusão fatal;
2) A usina dos sonhos;
3) O pesadelo do teto;
4) Em busca do sonho perdido;
5) O infra-sonho ou a ultra-realidade

O autor Mathieu tem uma série de vários álbuns, sendo que este é o quinto deles. Ele tece, em cada uma de suas obras uma história fechada, utilizando-se muito de metalinguagem e sobreposições dos tempos presente-passado e futuro (relatividades). Num dos outros álbuns da série (L´Origin), o personagem em foco, Julius Acquefacques, se depara com uma biblioteca que possui livros contendo episódios na forma de HQs das vidas de todas as pessoas.

Na pesquisa ele se depara com o livro que descreve sua vida, e a metalinguagem vem à tona enquanto ele dialoga com o bibliotecário, ao segurar e ler o livro que traz impresso em suas páginas a reprodução da mesma página em que o leitor está lendo. A certa altura, a cena se reproduz em outra página do álbum, como em um dèja-vu. O autor ousa também na concepção gráfica da HQ, “vazando” um quadrinho aberto, que sugere a metalinguagem, no momento em que o personagem aponta para a página anterior, dizendo que o fato já ocorreu.

É um trabalho que conceitualiza as questões do livre-arbítrio e o “maktub”  (está escrito) justamente numa obra “escrita” com textos e imagens na forma de história em quadrinhos. A liberdade de criação do autor faz com que a HQ seja o único veículo que pode permitir  tal jogo metalinguístico – quase como a pintura “Isto não é um cachimbo” de Magritte  (fig. 2), e as incursões filosóficas propostas por Foucault.

Neste álbum “Le Processus”, não ocorre diferente: no primeiro capítulo, Julius Acquefacques, convivendo num mundo apinhado de gente, “trabalhadores-padrão”, como saídos do livro “O Processo”  de Franz Kafka, e num sistema altamente racionalizado, como as engrenagens de um relógio, vê seu mundo se transformar quando acorda no chão de seu quarto, e, antes de sair pela manhã de seu apartamento-padrão, se depara consigo mesmo novamente de pijama deitado em sua cama.

Ambos Julius “paralelos” dialogam, mas logo um deles (o que ia sair) toma o veículo de condução: uma bicicleta com um motorista, que é conduzida entre os prédios por um sistema de cabos nos quais passeiam as bicicletas! (fig. 3 e 3a)

Gazy Andrausconsciência e quadrinhosFoucault,Franz Kafka,Julius Acquefacques,L´Origin,Le Processus,Magritte,Marc-Antoiune Mathieu,O ProcessoFigura 1 A múltipla realidade paralela da existência (in)consciente de Julius Corentin – Parte 1 Neste último 6º. FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, que aconteceu em Belo Horizonte no mês de outubro de 2009, havia um autor francês que acabou não vindo ao evento. O que foi uma pena,...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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