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Era uma vez…

Como invariavelmente acontece com todos aqueles que vão ter uma relação profissional com os quadrinhos meu contato com a nona arte também teve início antes mesmo de eu aprender a ler. Graças à Angelo Agostini, minha mãe introduziu os quadrinhos na minha vida.

No começo ela lia para mim histórias dos personagens Disney, principalmente Mickey, um pouco depois, quando eu já sabia ler, passei para a Turma da Mônica (Maurício de Souza). Logo em seguida vieram, Flash Gordon (Alex Raymond), Mandrake, Fantasma (Lee Falk), The Spirit (Will Eisner) e, é claro os super-heróis, com mais destaque para o Batman. Também descobri que queria ser desenhista bem cedo, aos 7, 8 anos.

Passava meus dias copiando quadrinhos e cheguei até a criar um personagem naqueles primeiros anos. Depois de tudo acabei virando mesmo ilustrador. Minha primeira influência foi o Ziraldo, depois eu passei a admirar o traço do Orlando. Criar um estilo meu demorou um pouco, fui “bebendo” aqui e ali. Hoje as pessoas identificam no meu trabalho atual influências do Gendy Tartakovsky (Laboratório de Dexter, Samurai Jack, Clone Wars), e de Danny Phanton, o que é verdade, eu gosto bastante deste estilo.

Me inspiro e admiro os trabalhos do Darwyn Cooke, do Carlos Meglia, que infelizmente faleceu ano passado, gosto do que o Spacca vem fazendo atualmente nas adaptações e também dos trabalhos do Gabriel Bá e do Fabio Moon. Circular por esse universo me fez conhecer e respeitar muita gente que tem trabalhos fabulosos, tenho a maior sorte do mundo de hoje em dia ser amigo de um monte de caras talentos, vez ou outra me deixo levar e referencio algum autor.

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Então os quadrinhos…

Em 1999, já trabalhando profissionalmente na área há 10 anos, me deparei com um um curso ministrado pelo Álvaro de Moya a Cláudia Levy e o Eloyr Pacheco. Era um curso para aprofundar a linguagem dos quadrinhos com um monte de caras feras vindo pra conversar com a gente, tinha o Laerte, o Fernando Gonzales, Jal, Gual, Luís Gê, Líbero, até o Jerry Robinson apareceu num dia.

Enxerguei a oportunidade de inserir as hq’s no meu trabalho de ilustração mas também de sair da condição de mero leitor. Neste momento aconteceu algo que eu não esperava, ali eu conheci muitas pessoas que, como eu, queriam fazer quadrinhos, foi neste curso que eu conheci dois caras que viriam a fazer parte do Subterrâneo lá na frente, o Samuel Bono e o Paulo Mansur. Foi onde eu “botei” realmente meu “pé na estrada”. A partir daí comecei a frequentar o ambiente, conhecer as pessoas e a entender como funcionava esse universo.

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Subterrâneo

Minha trajetória passa obrigatoriamente pelo Subterrâneo. Em 2004 eu fazia parte de um grupo que se reunia na Oficina Cultural Oswald de Andrade aqui em Sampa. No começo a gente tentou algo na internet era o site ZineVirtual, que até ganhou alguma notoriedade no meio, porém, chegou o momento em que alguns de nós queriam ver e ter algo impresso.

Como a grana sempre é um problema a ideia básica era produzir alguma coisa com baixo custo. Foi assim que, numa folha de A4 com umas dobras diferentes nasceu o Subterrâneo. O fanzine sempre funcionou como uma ferramenta para divulgação do nosso trabalho, é leitura rápida, é pra conhecer mesmo o que cada um faz. Depois de um tempo lançamos umas edições especiais, já foram 5 ao todo, com histórias mais longas explorando mais os personagens.

Vale lembrar que, em 2007 ganhamos o HQMIX de Melhor Fanzine e agora fomos indicados novamente na categoria Publicação Independente Especial. O Subterrâneo ajudou a tornar conhecido o meu personagem, o Sideralman. Ele surgiu em 2001, antes do fanzine, foi no meio de uma conversa com o Paulo Mansur e o Klebs da Impacto Quadrinhos.

Foi uma dessas conversas que todos nós sempre temos quando nos encontramos por aí. Basicamente suas histórias são feitas esteriotipando o conceito do super-heroi, é clichê pra divertir. Comecei a publicá-lo no Subterrâneo nº 0 e foi até o nº 19. Em 2007 lancei uma revista com três histórias do personagem, incluindo a origem com participação do Bucha do Samuel Bono.

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Teve também uma hq de duas páginas publicada na revista Mundo dos Super-Heróis nº 8, por ocasião da entrevista que eles fizeram comigo. A última história publicada dele foi na Tempestade Cerebral nº4 e é nessa revista que eu pretendo publicar a próxima que vai ter roteiro do Cadu Simões. O Sideralman continua vivendo no fotolog Gazeta de Nova Luz (http://fotolog.terra.com.br/gazetadenovaluz).

Tem muitos amigos que de vez em quando me presenteam com uma pin-up do personagem, isso gera uma conversa intensa, muita gente comenta o traço, o estilo que este ou aquele desenhista fez, eu coloco o desenho na galeria no site do personagem (http://www.e-ideias.com.br/sideralman.htm)  e assim ele se mantém ativo e na lembrança das pessoas. É muito interessante observar a força que ele ganha cada vez que isso acontece.

Eu editei o Subterrâneo A4 até a edição número 9, passei a bola para o Marcos Venceslau, que é o editor até hoje. Quando foi pra sair o primeiro especial, em 2005, eu meio que já fui editando e organizando, como já trabalho com projetos gráficos, diagramação e edição o processo foi natural e daí pra frente assumi a edição de todos os especiais. Atualmente temos 30 edições do Subterrâneo A4, um poster em A3 e cinco especiais com mais um a caminho.

Agora estou publicando um novo personagem no Subterrâneo é o Demetrius Dante, o detetive do absurdo, ainda está muito no começo mas acho que tem potencial.

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Design gráfico também nos quadrinhos

O segundo passo dentro dos quadrinhos foi quando eu comecei a participar de outras publicações não só como desenhista, mas atuando também nos bastidores, fazendo projetos gráficos, editoração e produção gráfica.

Foi o caso de A Mosca no Copo de Vidro e outras histórias. Idealizada pelo Eloyr teve a história principal desenhada pelo Caio Majado (Conseqüências), na qual eu desenhei duas páginas porque o roteiro pedia uma mudança de estilo, foi bem interessante de fazer. Foi com esta edição que eu misturei meu trabalho de produção visual com quadrinhos e, para grande surpresa nossa a publicação ganhou o HQMIX de Melhor Prozine em 2007.

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Participei na produção gráfica das revistas F.D.P (Leonardo Santana) onde criei também o logo do persongem, Bigorna Quadrinhos (Eloyr Pacheco), Tempestade Cerebral nº4 (Alex Mir) e a menina dos olhos de 2008, a coletânea Prática de Escrita – Histórias em Quadrinhos.

Esse álbum nos foi proposto pelo Silvio Alexandre em nome da Univesidade Cruzeiro do Sul como parte do projeto que eles tem de fomento à leitura utilizando os vários meios possíveis, os quadrinhos são um deles. A edição reuniu 39 autores do Quarto Mundo, entre roteiristas e desenhistas, com 21 hqs fazendo um apanhado da produção nacional desde 2002.

Participei da edição juntamente com o Edu Mendes (Garagem Hermética) e o Daniel Esteves (Nanquin Descartável), eles fizeram a pesquisa das hq’s e eu criei o projeto gráfico e diagramei. Também colaborei na criação do personagem Escorpião de Prata (http://fotolog.terra.com.br/escorpiaodeprata), de novo com o Eloyr Pacheco e participei de duas edições da Front, a de nº 19 foi minha primeira participação, comecei com o pé direito, fiz capa, uma hq, com roteiro do Leonardo Santana, e uma ilustração.

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Na Front Especial – 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil, participei com hq, de novo com roteiro do Leo Santana e uma ilustração. Publiquei uma hq na revista independente Grande Clã nº 2, foi a primeira história em parceria com a Mônica, minha esposa. É uma história que fala da criação do mundo mas partindo da premissa dos índios Tapuias, um quadrinho totalmente diferente daquilo que eu venho fazendo.

Ainda misturando design e quadrinhos fiz a produção visual de uma das edições da revista Prismarte, a edição Conspirações que teve trabalhos do Antonio Eder, Gian Danton, Lorde Lobo entre outros, também publiquei uma hq, de novo com roteiro do Léo Santana. Tem algumas coisas que fiz que ainda não apareceram mas em breve espero poder falar delas.

Quando eu olho pra isso, que não é muita coisa se a gente for pensar bem, percebo que à minha atuação com quadrinhos acabou se incorporando também o meu lado designer gráfico, não dá pra escapar afinal eu continuo trabalhando com isso… todo mundo está careca de saber que viver só de quadrinhos no Brasil é complicado. Acho que quando se fala em carreira e trajetória uma coisa que a gente não pode esquecer é… e aí eu quero citar uma frase do meu amigo Laudo… “não podemos tropeçar no ego”… é fácil e quando acontece alguma coisa se perde.

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Quarto Mundo

Uma coisa que me deixa muito contente com tudo isso é que eu estou podendo vivenciar e participar de um momento em que acontece um fato relevante para os quadrinhos nacionais que é Quarto Mundo. Oficialmente o coletivo apareceu em 2007, no 5º FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte/MG, no entanto essa ideia de união e ajuda começou mais ou menos um ano antes quando o Cadu Simões (Homem-Grilo), Leonardo Melo (Quadrinhópole) e o André Caliman (Avenida) se conheceram na frente de uma das Fest Comix e montaram uma banquinha para vender suas revistas.

Depois houve uma nova banca durante a entrega do 23º Prêmio Angelo Agostini, em fevereiro de 2007, aí com mais autores participando. Uma coisa levou a outra e quando vimos, onde houvesse um evento de quadrinhos lá estavam os independentes. Outro fator importante para a consolidação do coletivo foi, primeiro, A Menor Livraria do Mundo e depois a HQMIX Livraria, ambas empreendimentos comandados pelo Gual e pela Dani.

Sempre perguntam se o Quarto Mundo é uma editora… não!! Não somos uma editora.

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Não publicamos ninguém, cada autor é responsável pelo seu próprio trabalho, desde a concepção até a impressão, não existe nenhum tipo de interferência editorial no trabalho de ninguém. Outra coisa importante de se dizer é, mesmo com a nossa organização é preciso que o autor se mexa, ele precisa se inserir nas atividades do Quarto Mundo.

Existem vários núcleos de trabalho dentro do movimento aos quais o membro pode e deve aderir. Pra quem ainda não conhece pode acessar o blog (http://4mundo.com) lá tem bastante informação sobre as publicações, os autores, uma agenda de eventos além de quadrinhos online para leitura.

Temos também um fórum, o Quinto Mundo, que é aberto ao público. É bom lembrar que ganhamos coletivamente os prêmios HQMIX de Contribuição do Ano e o Troféu Jayme Cortez pelo mesmo motivo, além do que, alguns membros individualmente também ganharam prêmios e reconhecimento.

O Quarto Mundo não é o único movimento de quadrinhos independente no Brasil mas nós estamos tentando fazer uma parte do todo que precisa ser feito. Para resumir, as intenções e objetivos do coletivo são: ampliar e consolidar um mercado interno de quadrinhos, por meio do aumento da produção, ações mais efetivas e diretas na divulgação, uma distribuição dirigida e aprofundar o debate sobre as próprias bases nas quais o movimento está sendo erguido.

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Para finalizar quero agradecer ao Renato Lebeau pela oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho e também sobre outras coisas em que estou envolvido. Acredito firmemente que iniciativas como esta do Impulso HQ sempre vão ajudar na prosperidade dos quadrinhos nacionais e propiciar às pessoas o conhecimento do fato de que existe uma grande produção de quadrinhos feita de forma independente e de qualidade sendo feita dentro do país.

Sua divulgação presta um grande serviço a todos os autores que querem ver seu trabalho reconhecido e apreciado e ajuda muito a furar a bolha para a consolidação de um mercado verdadeiro para as histórias em quadrinhos nacionais.

Renato Lebeaucaminho do artistaA Mosca no Copo de Vidro,Antônio Éder,Álvaro de Moya,Cadu Simões,Caio Majado,caminho do artista,Cláudia Levy,Daniel Esteves,Demetrius Dante,Disney,Edu Mendes,Eloyr Pacheco,Escorpião de Prata,F.D.P,fanzine,Fernando Gonzales,FIQ,Front,Gian Danton,Gual,hqmix,JAL,Jerry Robinson,Klebs,Laerte,Líbero,Lee Falk,Lorde Lobo,Luís Gê,Maurício de Souza,Paulo Mansur,Quarto Mundo,Samuel Bono,Sideralman,Silvio Alexandre,Subterrâneo,Will,Will Eisner,ZineVirtualEra uma vez... Como invariavelmente acontece com todos aqueles que vão ter uma relação profissional com os quadrinhos meu contato com a nona arte também teve início antes mesmo de eu aprender a ler. Graças à Angelo Agostini, minha mãe introduziu os quadrinhos na minha vida. No começo ela lia para...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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