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Saudações a todos…

Perdoem-me os leitores de IMPULSO HQ se vou gastar muito tempo falando da infância.

Mas é ela que realmente importa na minha formação, e até hoje volto a ela para verificar se estou no caminho certo.

Os primeiros desenhos “bons”, eu me lembro bem, foram aos 4 anos.
Antes disso eram só garatujas. E eu tinha um talento com construção de castelos com blocos que se perdeu.

Mas foi num dia, havia uma obra em andamento na escola infantil (EMEI) onde minha mãe era diretora, e eu desenhei com habilidade os objetos da construção, tijolos, pá de pedreiro e coisas assim. Em pouco tempo eu já tentava desenhar personagens de desenho animado, dinossauros e monstros da TV.

Claro que eram toscos, mas eram melhores do que os meus colegas desenhavam. Se a professora pedia para a turma desenhar um cachorro, eu fazia um buldogue parecido com o desenho do Tom e Jerry, babando e com sinais de movimento nas patas.

Eu desenhava rápido e sempre fui vaidoso por isso. Minha facilidade natural era com expressões fisionômicas e desenho de animais.

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Amostra de desenho de criança


Também me identificava muito com HQ e desenho de humor.
Não gostava dos desenhos “sérios” de heróis como o Fantasma ou cowboys.
Eu não sabia escrever ainda, e pedia para minha mãe escrever alguma coisa com a “minha letra” (a caixa alta de cartum) para eu copiar.
Meu pai também era desenhista desde criança, mas seguiu o caminho do desenho técnico.

Então eu via ele fazer alguns trabalhos em sua grande prancheta de 1,80 de largura, que possibilitava pontos de fuga bem afastados nos desenhos de perspectiva.

Eu era, como muita criança nos anos 70, bombardeado por desenhos e programas na TV.
Era muita coisa.Se fizesse uma lista hoje do que eu via, só de Hannah-Barbera dava mais de 100 desenhos animados.

Adorava Johnny Quest, Scooby-doo, Corrida Maluca e muitos outros.
Não havia mangá, que só conheci adulto. Mas eu via desenhos animados japoneses como A Princesa e o Cavaleiro.

Programas e séries de humor: Os Três Patetas, Abbott e Costello, os tipos de Chico Anísio e Trapalhões.
Seriados de aventura: Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar etc.

Também gostava muito de folhear enciclopédias e dicionários ilustrados;
colecionei com meu pai os fascículos semanais da Enciclopédia Disney, Os Bichos e outras coleções da editora Abril.

Não posso exagerar a importância da Editora Abril na minha formação: até a revista Cláudia que minha mãe comprava tinha interesse, uma vez que na última página tinha a Supermãe do Ziraldo.

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Das muitas influências nessa fase, três grandes autores se destacavam:
Disney, Maurício e Monteiro Lobato.
Essas três obras tiveram para mim o peso de mitologias.
Hannah-Barbera também, mas os desenhos deste estúdio eram tão diferentes entre si, que não me davam a idéia de unidade do império Disney.
Disney, para começar, tinha duas “cidades”: Disneylândia e Disneyworld.

Tinha toda a mitologia das HQs, tinha os clássicos do cinema, bastante valorizados, pois para rever um filme como Branca de Neve, numa época em que não havia VHS nem DVD, era preciso esperar oito anos até passar no cinema novamente.

Alguns filmes eu conheci somente por meio dos quadrinhos, como A Espada era a Lei.
O Zorro de Walt Disney, seriado com o mesmo pai de Perdidos no Espaço mais jovem (Guy William), era um dos seriados preferidos.

Nos programas semanais da Disneylândia, de vez em quando mostravam
“making-ofs” com os animadores transformando uma bailarina num hipopótamo ou avestruz para o filme “Fantasia”.
A idéia de trabalhar com desenho foi nascendo vendo esses programas.

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Maurício de Sousa

O mundo de Maurício de Sousa possuía qualidades semelhantes às do Mundo Disney.
Uma grande galeria de personagens e pequenos mundos, como a Turma da Rua, a Mata, a Pré-História.

E histórias que também apareciam em vários veículos, gibis mensais, jornal e anúncios de TV, além de bonecos e merchandising, capas de caderno etc.
As histórias seriadas do Horácio na Folhinha eram grandes aventuras, meio soturnas e dramáticas comparadas ao padrão mais light que se adotou depois.

O fato dele ser brasileiro tornava mais fácil de realizar o sonho de fazer
algo como Walt Disney.
(Tive o prazer de ilustrar por dois anos a mesma “Folhinha”, em 1988-90).

E eu tinha, aos 8 – 10 anos, uma galeria de personagens (obviamente,
parecidos com o que eu lia: uma dupla de amigos, um cientista, alguns
pré-históricos, uma bruxa etc).

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Aventura no museu

Já o Sítio do Picapau Amarelo diferia de Disney e Maurício porque não
possuíam uma versão desenhada padronizada.
Parecia que o importante era o texto, e os desenhistas variavam (apesar do meu favorito ser o André Le Blanc).

Isso me dava a esperança (esta bem mais fácil de realizar) de um dia fazer uma HQ ou desenho animado com a obra do Lobato.
(Hoje esse projeto virou outra coisa: uma biografia do Lobato mostrando a briga dele com o Getúlio Vargas para descobrir petróleo).

Lobato, além de ser um grande humorista e contador de histórias, também passa um espirito cético e científico, questionador que marca muito quem tem a sorte de conhecê-lo na idade certa.

Era comum ver que uma mesma história podia ser contada em filme, livro, quadrinhos ou desenho animado.
Quando um filme me empolgava e eu sabia ser uma adaptação, procurava conhecer o livro ou mesmo desenhar eu mesmo a adaptação para quadrinhos (nunca terminada).

Os clássicos de Júlio Verne eu conheci, ora como livro, ora como HQ (“Vinte mil léguas submarinas”), ora em filme (“A volta ao mundo em 80 dias”), e eu ficava comparando as versões.

Tinha um seriado com Mr.Magoo (muito estranho, nesse seriado ele enxergava bem) em que ele, como se fosse um ator de teatro, encenava clássicos como “Os Três Mosqueteiros”, “Sherlock Holmes” , “Moby Dick”, “Frankestein”etc.

Aqui vai uma amostra de uma HQ começada, em que dois personagens meus “interpretam” os papéis de Phileas Fogg e passepartout, de “A volta ao mundo em 80 dias”.

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A volta ao mundo

No “fim da infância” a obra de Goscinny e Uderzo ampliou meus horizontes.
Na quarta série, uma amiga de classe que era “crente”, Isabel, me emprestou um exemplar de Asterix.

Fiquei fascinado. Ao mesmo tempo, a Folha aos domingos publicava um caderno de quadrinhos (incluindo a HQ nacional “Os Bandeirantes” de Moretti e Nicoletti, bastante responsável por eu estar hoje desenhando quadrinhos históricos) com “Asterix e Cleópatra” e “Asterix entre os Helvéticos”.

Comecei a comprar a cada dois meses um álbum do Asterix nas bancas, editado então pela Cedibra.
Conheci então um novo patamar de qualidade. Em Asterix o desenho de humor encontra o desenho anatômico e real.

Aos 13 anos, comecei um estudo sistemático de desenho de anatomia.
Ganhava no aniversário e natal livros de desenho da coleção “Walter Foster” e os FANTÁSTICOS livros de Jayme Cortez, A Arte do Desenho e A Arte da Ilustração.

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Jayme Cortez

Estes livros eram coletâneas de artistas brasileiros, organizadas de modo didático, mostrando os esboços, a pesquisa, a arte final, as reduções etc.
Se hoje eu faço “making-ofs” nos meus álbuns, a inspiração vem dai. Quero deixar para o eventual leitor iniciante de desenho o que eu ganhei do Jayme Cortez.

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Jayme Cortez

Outro nome brasileiro importante: José Lanzelloti.
Ele ilustrou duas coleções de livros de folclore que eu via no parque infantil da minha mãe; uma era mais infantil, com histórias contadas pelo palhaço Arrelia.

Havia um “mapa das lendas brasileiras” que eu não cansava de olhar, e que inspiraram os mapas que eu costumo colocar nos meus livros (assim com o mapa inicial de Asterix, que eu cito no álbum “Debret”).
Havia outra de Histórias, Costumes e Lendas.

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Lanzelloti

Na pré-adolescência, entrei em contato com a revista MAD, que mexeu muito com a minha cabeça, com os meus valores. Primeiro, pelo tom satírico, já um pouco mais adulto; depois, pelo formidável time de desenhistas, do quase realista Mort Drucker, aos escrachados Aragonés e Don Martin.

Foi na MAD que notei os cartunistas brasileiros, como a ilustradora Mariza, Luscar e Nani, e soube da existência do Salão de Humor de Piracicaba.

E ao mesmo tempo – meados dos anos 70 – a Folha começa a publicar o tablóide Folhetim, e na página final, Angeli, Laerte, Glauco e Nilson.
Começa aí a vertente do humor político, que acabou dando na minha carreira de chargista na Folha de S.Paulo, de 1985 a 1995.

Carreira boa, bastante visibilidade, fiz bons amigos… mas hoje duvido da importância que aquilo tinha como “conscientização política”, como eu imaginava.

Num certo momento, tudo me cansou: me senti desenhando pouco, apressado e mal-feito, e o assunto política se tornando cada vez mais sem graça. Caí fora.

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Charge FSP

No dia em que comecei na Folha, conheci Fernando Gonsales.
E quando ele resolveu fazer o gibi “Niquel Náusea”, na época do boom dos quadrinhos na Chiclete e Circo, eu fui convidado desde o primeiro número, assim como Newton Foot.

A revista reunia tiras publicadas na Folha e HQs mais longas do Fernando, como as do profeta Vostradeis.

Nós, os convidados, fazíamos… o que desse na telha.
Liberdade total. e havia uma grande sintonia entre a gente, creio que pelas influências comuns, como Barks e Canini.

Outros colaboradores da Níquel eram Duval e Negreiros.
Eu colaborei em todos os números, com HQs e cartuns, nos 7 anos que durou a revista.
Minhas HQs não tinham personagem fixo, e eu experimentava estilos diferentes, mas tudo feito com a mão às vezes pesada do cartunista. Teve momentos interessantes, mas era uma produção irregular, com altos e baixos.

A cabeça e o traço de cartunista, e o desenho ainda muito impaciente,  às vezes estragavam uma boa idéia com piadas deslocadas.
Tive em algumas HQs o prazer da parceria com o jornalista Heinar Maracy.

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Historia da Níquel Náusea

Voltando no tempo novamente, um programa de TV aos domingos – História do Desenho Animado – me colocou, ainad criança, em contato com o professor de desenho Ismael dos Santos, referência famosa no ensino de desenho na Lapa em São Paulo. Foi no seu “Núcleo de Arte” que eu, aos 15 anos, entrei em contato com profissionais da área de publicidade.

Eu cursava uma escola técnica de desenho no Brás, o Carlos de Campos. E o ilustrador Brasílio me indicou para ocupar a vaga de ilustrador na agência de publicidade Young e Rubicam (1979).

Apesar do meu desejo de trabalhar em animação e HQ, peguei o trabalho, mais para pegar experiência técnica para depois fazer o que eu queria.

Como fui perceber muito tempo depois, ganhei muito mais do que isso: a experiência de fazer storyboard (durante 04 anos na Young e por muitos anos depois, como freelance) me adestrou na linguagem do cinema e na arte narrativa, o queseria muito importante para os quadrinhos; além disso, tinha o treino diário de receber pedidos das duplas de criação, o que te dá tarimba de negociar e conversar com clientes, para saber o que eles querem e resolver problemas.

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Storyboard

Saí da publicidade e fui para a produtora de desenho Briquet Filmes, em
1983-84.
Num vácuo de profissionais na Briquet, mesmo estagiando desempenhei função de animador e intervalador (aliás uma lacuna na minha carreira; nunca fui assistente de ninguém).

Animei o personagem Bond Boca de uma propaganda de antisséptico bucal, e mais algumas coisas.
Senti falta, para o meu desenvolvimento, de recursos para testar a animação a lápis antes de ir para o ar – não tínhamos nem um VHS para fazer o “pencil-test”.

Apesar de terem reconhecido o meu trabalho e de ocupar (talvez indevidamente) uma posição “senior” aos 20 anos, eu sentia muita frustração com o resultado, e com a falta de estrutura para testar as animações, corrigir os erros e progredir.

E des-animei. Parti para o free-lance e abri uma empresa.

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Bond Boca

Durante muitos anos me dediquei a clientes diversos, tanto na área editorial – jornais, livros e revistas – com institucional: comunicação com funcionários, cartilhas, campanhas etc.

Um projeto se arrastava de longa data. Era um filme animado, ou HQ, sobre Santos-Dumont.
Passei décadas tentando elaborar o roteiro, juntando referências, comprando livros e estudando a cidade de Paris à distância.

Foi nos anos 90 que me dei conta de que meu traço, excessivamente simplificado pelo desenho de cartum, não daria conta de uma HQ mais elaborada.

Além das HQs que fiz na revista “Niquel Náusea”,  fiz outras na revista Front, com roteiro de Marcelo de Andrade (“Página 2”, Front #7) e Orlandeli (“Justa causa”, Front #8). Gostei das experiências, mas por serem muito esporádicas, não me conduziam à maturidade que só a constância e a disciplina podem alcançar.

Foi uma boa crise. Me dei conta de que fazia falta não ter sido assistente de um outro ilustrador ou cartunista.
E já perto dos 40 anos, fiz de conta que era um arte-finalista dos meus mestres, e copiei desenhistas que possuíam aquiloque me faltava.

Alguns mestres são muito difíceis e ainda me inspiram como alvo, não sei se alcançável: Alex Toth, por exemplo.

Entre nós, Colin e Laerte eram boas fontes de estudo. Mas Laerte eu evitei; ali já tinah uma síntese resolvida de cartum e quadrinho clássico, e eu queria fazera minha síntese pessoal.

Fui buscar “preparo físico” nos quadrinhos de “bang-bang”, pois numa HQ de Velho Oeste o desenhista encontra desafios parecidos com os que eu enfrentaria em Santô, como arquitetura, cavalos, paisagem, roupas de época e tratamento em branco e preto da luz.

As paisagens de Carl Barks também serviram de referência para várias cenas de Santô.

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Cena de Santô

Para a parte do roteiro (abrindo um parênteses: nasci desenhista, mas precisei aprender de modo consciente a criar piadas e roteiros; demorou para aprender a linguagem dos cartuns, não fui como o João Monatanaro que aos 12 anos tem uma visão adulta de cartum. Eu só consegui criar cartuns e charges já perto dos 20 anos)…

Voltando. Para desenvolver o roteiro de Santô, eu me inspirei em Barks, em Gino d’Antonio (A História do Oeste – série monumental de 70 episódios de 94 páginas), Tardi (desenho também).

E principalmente cineastas. Aprendi muito vendo making-ofs de filmes
preferidos como De Volta para o Futuro, Indiana Jones e outros.

Vou concluir a narrativa desta trajetória por aqui. Digo apenas que desde 2004 os quadrinhos são a coisa principal que faço; que ainda estou aprendendo, pois a tarefa é árdua e é preciso resgatar e estudar muita coisa boa que foi feita no século XX, e ainda me espanto por estar tendo a chance de juntar numa mesma atividade tanta coisa que gostei ao longo do tempo: as enciclopédias da infância, os álbuns de Asterix, o interesse por história e cultura brasileira…

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Capa de Santô

Estou muito curioso para ver no que isto tudo vai dar.

Depois de Santô, Debret, D.João e Jubiabá, vou adaptar agora As Barbas do Imperador de Lília M.Schwarz, que trata do D.Pedro II.

Meu interesse é aprender, fazer, melhorar e passar a bola pra frente, vamos ver se alguns leitores se estimulam a fazer HQs e animações, como eu fui motivado pelos artistas que me mostraram o caminho.

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sp

Renato Lebeaucaminho do artistaAlex Toth,Aragonés,Asterix,Barks,Bond Boca,Briquet,caminho do artista,Canini,Carl Barks,Colin,D.João,Debret,Disney,Don Martin,Duval,Editora Abril,Fernando Gonsales,Folhinha,Gino d'Antonio,Goscinny,Guy William,Hannah-Barbera,Heinar Maracy,Ismael dos Santos,Jayme Cortez,João Monatanaro,José Lanzelloti,Jubiabá,Laerte,Lília M.Schwarz,Luscar,Mad,Marcelo de Andrade,Mariza,Mauricio de Sousa,Monteiro Lobato,Moretti,Mort Drucker,Nani,Níquel Náusea,Negreiros,Newton Foot,Nicoletti,Orlandeli,Santô,Santos-Dumont,Spacca,Uderzo,Walt Disney,Walter Foster,ZiraldoSaudações a todos... Perdoem-me os leitores de IMPULSO HQ se vou gastar muito tempo falando da infância. Mas é ela que realmente importa na minha formação, e até hoje volto a ela para verificar se estou no caminho certo. Os primeiros desenhos 'bons', eu me lembro bem, foram aos 4 anos. Antes disso...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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