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Auto retrato de Mozart Couto, feito especiamente para o Impulso HQ

Desde criança eu gostava de desenhar imagens em sequência formando uma história. Como ainda não sabia escrever, fazia os balões e pedia ao meu pai que escrevesse a história que eu ia ditando. Uma coisa curiosa: eu nunca desenhava os requadros. Acho que já vem daí uma amostra de que nunca suportei me enquadrar em nada, apesar de ter tentado várias vezes.

Bom, eu sempre fui um “desenhador”, literalmente. Até jaleco de professor não escapava de minhas figuras. Foi muito engraçado esse fato. Uma vez eu desenhei no jaleco de um professor muito rígido que eu tinha, em plena aula. Ele estava virado de costas, passando a matéria, e eu peguei a barra do jaleco dele e fiz lá umas figuras enquanto os colegas “agavam” de rir.

Eu sempre achei que ele devia me detestar por isso e por outras coisas que eu aprontava nas aulas dele, mas me surpreendi quando um dia meu pai me contou que o encontrou na rua e ele falou muito bem de mim e disse que torcia muito para que eu me tornasse um artista, pois era natural aquilo em mim. Nessa época eu já produzia quadrinhos e ele ficou muito feliz ao saber disso.

Aos dezesseis anos, eu já tinha lido muitos quadrinhos. Quadrinhos infantis, Disney; Turma da Mônica: Muitos suplementos de jornais, com tiras diversas; Quadrinhos de Terror Nacionais, os “Heróis Marvel” e até alguns álbuns europeus que encontrava por acaso numa grande banca onde ia esporadicamente, por ser longe de minha casa. Até alguma coisa de mangá eu já tinha visto!

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Isso no decorrer dos anos 60 e início dos 70! Mas meu quadrinho preferido era O Príncipe Valente! Meu pai era fã de Alex Raymond e sempre tentava me convencer de que o Flash Gordon era muito mais interessante que o cavaleiro da távola redonda, mas nesse ponto eu não me dobrava. A magia dos cavaleiros, aquela saga extraordinária, aquela busca pelo Graal, nunca deixaria de “brilhar” com muita magia  para mim. Inconscientemente eu me identificava com elementos que eram apresentados naquela saga e que me motivariam a criar minhas histórias por toda minha carreira.

Meu pai, que também desenhava, e era um grande músico, foi meu professor de desenho. E ele era “linha dura”. Perfeccionista, mas tranquilo e constante nas cobranças. Sabia quando elogiar e quando cobrar melhoras. E me ensinou a ter disciplina pra desenhar. Com dezessete anos eu já tinha um monte de quadrinhos na gaveta. E, mais ou menos nessa época, enviei uma HQ para a Editora Brasil América, a EBAL,achando que seria possível uma publicação. Claro que não deu em nada a não ser uma educada carta de resposta e cheia de estímulo para que eu continuasse.

O tempo foi passando e eu já estava com 19/20 anos até que, numa de minhas idas a uma banca de jornal, próxima de minha casa, notei duas revistas com capas diferentes meio que escondidas num canto da banca, Pedi ao jornaleiro para olhá-las e eram as duas primeiras edições de “Quadrinhos Eróticos” publicadas pela GRAFIPAR (Gráfica e Editora do Paraná).

Me surpreendi porque ali estavam publicados  desenhos de Claudio Seto, que eu já admirava há tempos, quando consegui alguns exemplares das revistas da “Maria Erótica”, do “Samurai” e de um outro personagem que eu mais gostava que era um pequeno garoto que dava aqueles saltos incríveis que eu via em alguns seriados japoneses na TV.

Conheci ali também novos autores, todos brasileiros, e fiquei muito empolgado ao ler nos rodapés de várias  páginas convites para que quadrinhistas amadores ou profissionais enviassem seus trabalhos para publicação! Fiz uma HQ nova e enviei.

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Foi recusada. Mas, a partir desse primeiro contato passei a receber cartas do Seto me orientando sobre várias coisas e poucos meses depois eu tinha minha grande chance de atuar como profissional. E “mandei ver”.

Produzi regularmente e as Hqs foram publicadas tendo boa aceitação desde o início, eu recebia muitas cartas de leitores comentando e elogiando meu trabalho e muitos desses leitores tornaram-se grandes amigos Foi um estímulo e tanto! Com o dinheiro que recebia montei um pequeno estúdio, com  todo o material necessário para desenho, e comprei um telefone (na época era bem caro pagar por uma linha telefônica!) para contatos mais diretos com meu editor. E assim foi minha caminhada pela GRAFIPAR.

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Isso foi entre o final de 1979 até 1982/83. Nessa fase, eu produzi Hqs com personagens meus (todos nós tínhamos inteira liberdade para criar) como  “Jackal” (faroeste), que se tornou um companheiro de “Katy Apache”, uma das principais personagens do Seto.

Fiz uma HQ de ficção e fantasia com uma personagem feminina chamada “Hyania”; e uma coisa muito interessante aconteceu: como éramos estimulados a produzir HQ com “cara de Brasil”, me aventurei em fazer um personagem que fosse uma espécie de Conan brasileiro. Era um índio que dei o nome de UBAJARA (o senhor do arco).

E foi desenhando esse personagem que, pela primeira vez na vida, passei a  pesquisar não só os índios brasileiros, como a flora e os animais da nossa terra. Estava desenhando uma arara, quando parei, olhei e alguma coisa aconteceu ali, naquele olhar! Fui tomado por um encantamento por aquelas figuras, formas e cores tão características do Brasil, então  – ainda bem – começou a  “quebrar” em mim aquele estado de hipnose causado pela aceitação inquestionável de que só o que vem de fora é “bom e  bonito”.

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Em 1982 ou 83- não me recordo muito bem- a editora fechava as portas para os quadrinhos devido a problemas internos e uma época importantíssima de produção de vários quadrinhistas, todos jovens, talentosos ,cheios de garra e esperanças quase parou por completo.

Mas outras editoras e iniciativas foram aparecendo, tentando dar continuidade  à estruturação de um mercado de HQ no Brasil. E isso, graças a muitos quadrinistas que levavam projetos próprios e dos colegas até essas editoras e as convenciam a investir no que chamávamos HQB.

Cada vez mais apareciam novos autores, que encarnavam a figura destemida de um Dom Quixote verde e amarelo se batendo contra a força dos quadrinhos vindos dos EUA, mais baratos, de boa qualidade (nem sempre, né?) e, consequentemente, preferido pelas republicadoras tradicionais de quadrinhos no Brasil e por grande parte do público leitor. O tempo passou e essa luta não foi ganha por nós, já que, no mundo real as coisas são bem diferentes que no mundo dos quadrinhos.

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Eu continuei enquanto foi possível. Depois da Grafipar, veio a D’Arte, do Rodolfo Zalla, (grande cara, que me deu muita força!)onde publiquei muitos trabalhos que agradaram bastante na época, entre eles, a série “A Casa dos Horrores”, e “Histórias de Bárbaros e Magos”.

Um pouco antes eu já havia publicado algo na Editora Vecchi, convidado a colaborar pelo Otacílio Barros, o OTA, conhecido cartunista e editor da revista MAD. Lembro-me que fiz uma HQ chamada “O Oculto”, e outra publicada, numa revista de Faroeste, onde um dos personagens principais tinha minha aparência física na época.

Depois, junto com o Franco de Rosa, que foi meu editor em algumas outras editoras que publicaram HQ nacional em São Paulo, pude colocar muitos projetos meus, alguns bem autorais, nas bancas e me tornar definitivamente um autor bem conhecido. Passada essa fase, veio uma bem irregular mas bem interessante onde cheguei a publicar quadrinhos em outra revistas, geralmente ligadas a esportes. Cheguei a fazer pequenas Hqs em cores que saiam numa revista sobre vôlei chamada SAQUE.

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Alguma ilustração para uma ou outra publicação fora do universo dos quadrinhos e até uma fase onde produzi várias hqs de dois quadrinhos por páginas, totalizando mais de 100 páginas por episódio, na editora NOBLET, onde consegui ter aprovado um projeto meu e publicar um “herói” que foi muito apreciado na época: HAKAN. Continuei também fazendo algumas ilustrações para revistas diversas fora da área de HQ até que veio a fase Européia.

Através do Júlio Emílio Braz, que foi meu parceiro em muitas Hqs de aventuras, inclusive HAKAN, fui apresentado a uma pessoa que começava um trabalho de agenciamento de quadrinistas para o mercado europeu. Eu já vinha estudando muito sobre quadrinhos europeus e era fascinado por eles!

A maioria dos meus estudos na época eram sobre  técnicas e estilos de autores europeus como se pode ver nesse post do meu blog algumas cópias de desenhos de Moebius e Serpieri. Tanto desse tipo de quadrinhos, mais de vanguarda na Europa, como os do estilo Franco-Belga (Tintin; Gaston Lagaffe; Asterix, Spirou) eu gostava muito.

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Então, não foi muito complicado me adaptar à produção para o mercado Europeu. Devido ao alto nível de exigência, entrei numa nova fase da minha trajetória de quadrinista e, e penso que foi um processo de amadurecimento profissional e pessoal muito válido. Na Europa Foram publicados vários álbuns meus em parceria com o Júlio Braz que mostravam as aventuras de um grupo de índios brasileiros e tinha na simpática figura de Tambatajá (o nome foi simplificado para Tamba), criado pelo Júlio e desenhado por mim, o protagonista principal.

Vários outros trabalhos meus, individuais, alguns inéditos outros não, como “O Viajante”; “O Olho do Diabo”; “SexDroid” ( todos produzidos no Brasil depois, tendo o Franco como editor), foram publicados no estilo álbum de luxo europeu com direito a capa dura, cores e tudo o mais.

Uma grande parte de minha fase da produção de quadrinhos eróticos foi publicada na Alemanha como uma coleção erótica. Muita coisa saiu em Jornais e depois em álbuns. Foi uma fase muito interessante. Mas por vários motivos, inclusive pela entrada do entretenimento  eletrônico (games) em cena, o mercado de quadrinhos em vários países foi se tornando decadente, encolhendo, exceto no Japão onde o oposto ocorreu.

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Nessa hora a coisa fica sempre mais complicada para os estrangeiros. E assim, “voltei ao Brasil”, sem nunca ter saído, para viver dos meus desenhos.

E a coisa é muito estranha porque é como se você tivesse mesmo isso pra fora, viver lá. Quando você volta não tem mais quase nenhum contato, não tem mais a mesma forma de desenhar, de pensar sobre o trabalho, é um recomeço quase que total. E foi aí, que o meu velho amigo Deodato me liga e pergunta se eu queria ajudá-lo a produzir quadrinhos para o mercado americano.

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Eu, realmente, não sabia se daria certo. Estava meio perdido e até mesmo entrando em crise com relação a continuar a desenhar quadrinhos depois de tantos anos num tipo de atividade cheios de altos e baixos – mais “baixos” do que “altos”. Aceitei como um novo desafio e pela necessidade de sobrevivência, claro. Comecei dividindo com Deodato páginas da “Mulher Maravilha”, depois conseguiu desenhar um personagem antigo que foi “revivido”, o “Turok”.

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Cheguei a fazer várias edições como desenhista, com arte-final do Emir Ribeiro, que também trabalhava comigo e Deodato, como finalista. Depois, dois alunos meus ( Teo Duarte e Daniel Campos, esse, desenhista da nova série do “ Leão Negro” de Cynthia Carvalho) passaram a  ajudar-me na finalização dos desenhos do mesmo personagem. Paralelamente, ajudei Deodato na época em que ele desenhou  hqs do Thor.

Depois Desenhei o número “0 “ da personagem “Glory”, de Rob Liefield. Fiz mais coisas avulsas e também um arco de histórias de um personagem Japonês, tipo Godzilla, o “Gamera”, que foi publicado pela Dark Horse. Essa foi a única vez que recebi  fortes elogios de um editor, algum retorno positivo sobre o tinha feito. Mas foi nessa época que eu me certifiquei que não era desenhista de Comics.

Eu fazia tudo com estremo sacrifício. Desconhecia muito sobre os autores, a não ser os mais conhecidos na época, no início da Image, etc; Não estava sabendo sobre o que tinha acontecido a muitos personagens, suas novas versões, novas vestimentas, etc, etc, etc…  Então, era impossível continuar fazendo uma coisa com a qual eu não me identificava e  não tinha muito interesse em me envolver inteiramente. E aí, conversando com colegas ilustradores, e com grande ajuda deles, timidamente, fui entrando no mundo da ilustração editorial.

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No início, foi muito difícil me adaptar à ilustração didática. Antes, nos quadrinhos, era permitido abusar de desenhos de ação. Agora, o que importava era passar a informação bem clara, e nada de excessos nas ações ou expressões físicas dos personagens. De um autor-criador eu me vi um desenhista-interprete. As coisas são diferentes no caso da ilustração de livros para didáticos, romances, aventuras, etc. Essa sim é uma área onde se podem ter, ao mesmo tempo dois grandes prazeres: o da leitura e o de fazer “do modo como se gosta” as imagens.

Aos poucos, fui conseguindo outros clientes diferentes, fora da área editorial embora ainda atuando nela, tanto nas publicações para livros em geral como para aquelas dirigidas a venda em bancas, que foi a minha fase de produção para a Opera Graphica e a Escala, onde publiquei  meus livros de dicas de desenho  “Desenhando Arte Fantástica I e II” (Guerreiras) e o “Curso Desenhando com Mozart Couto”.

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Além disso, tenho me dedicado muito, desde 1996, à arte digital. Tive que aprender quase tudo sozinho e foi uma aventura muito agradável, embora bem sofrida no início. Atualmente gosto demais de utilizar os diversos programas específicos para criação e edição de imagens, e descobri também o mundo do Software Livre, bastante promissor  e estimulante, cheio de novidades.

Descobri essa ferramenta   agradabilíssima que é a Mesa Gráfica e que cada vez me permite criar e experimentar mais e mais. Toda minha produção atualmente é digital. A maioria dela feita em Software Livre, usando mesa gráfica.

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Os quadrinhos não foram abandonados totalmente. Tenho algum material inédito já pronto, e mais coisas em andamento. Algo na área de cursos sendo programado. Tenho planos para abordar nesse material desde a produção pelos meios tradicionais até as incrementações da obra na área digital.

Ainda não decidi exatamente como publicarei esse material, já que novas formas de veiculação têm aparecido e estou observando e aprendendo para escolher as melhores maneiras de utilizá-las. O que me interessa agora é ter maior controle sobre todo esse material, e, espero que tudo dê certo.

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Para finalizar, anuncio que a conclusão da Trilogia BIOCYBERDRAMA, que fiz em parceria com o escritor, desenhista, fanzineiro, Edgar Franco, arquiteto; PhD em Artes e multimedia com trabalhos bem arrojados nessa área,  já está na reta final dos detalhes de conclusão e deve  marcar minha volta aos quadrinhos breve.

Renato Lebeaucaminho do artistaA Casa dos Horrores,Alex Raymond,BIOCYBERDRAMA,Conan,Cynthia Carvalho,D'Arte,Daniel Campos,Dark Horse,Deodato,Ebal,Edgar Franco,Editora Brasil América,Editora Vecchi,Emir Ribeiro,Escala,Flash Gordon,Franco de Rosa,Glory,Godzilla,Grafipar,HAKAN,Histórias de Bárbaros e Magos,HQ,Hyania,Júlio Emílio Braz,Katy Apache,Maria Erótica,Marvel,Mozart Couto,mulher maravilha,NOBLET,Opera Graphica,OTA,Otacílio Barros,quadrinhos,Quadrinhos Eróticos,Rodolfo Zalla,Samurai,SAQUE,Teo Duarte,Turok,UBAJARAAuto retrato de Mozart Couto, feito especiamente para o Impulso HQ Desde criança eu gostava de desenhar imagens em sequência formando uma história. Como ainda não sabia escrever, fazia os balões e pedia ao meu pai que escrevesse a história que eu ia ditando. Uma coisa curiosa: eu nunca desenhava...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.