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Como todo cartunista que se preza eu já nasci desenhando, com o cartum na ponta do dedo! Desde pequeno era um moleque muito espevitado, que não parava quieto um minuto, que não dava sossego, enfim um moleque quase insuportável. Coisa de ariano.

Roubava espaguete na despensa da cozinha e jogava na privada, pegava os tubos de pasta de dente e “pintava” as paredes da casa, quebrava vidraça da casa dos vizinhos, transbordava o tanque de lavar roupa e alagava a lavanderia, entre outras maloqueiragens infantis.

Minha pobre mãe, a saudosa Dona Carmela, desesperada com minhas estripulias, me trancava num grande galinheiro no fundo do quintal, na esperança de ter um pouco de sossego. Eu, junto aos galináceos, abria o berreiro até que nossa piedosa vizinha, a também saudosa Dona Isaura, viesse interceder pela minha libertação. Era minha advogada de defesa, que Deus a tenha!

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Além das prisões, foram muitas e muitas surras de chinelo e cinta, os “musts” pedagógicos da época.

Até que um dia Dona Carmela teve a sábia idéia de me dar gibis, papel e canetinhas hidrográficas e…milagre!!! O Marcinho se acalmou!

Passei a desenhar compulsivamente. Ficava horas quieto na mesa da cozinha, enchendo cadernos e mais cadernos com casinhas, bichinhos, solzinhos e afins. Os primeiros gibis que eu vi eram da Mônica, Pererê, Gasparzinho, Disney e similares. Na seqüência descobri os super-heróis, aí passei a desenhar monstros, naves espaciais, robôs e claro, super-heróis aos montes!!!

Como ainda não sabia ler, enchia o saco da minha mãe para me ensinar tal ciência.Dona Carmela, pacientemente me deu uma base para ler os tão adorados gibis.Rapidinho aprendi  a matéria e passei a devorar todos os gibis que via pela frente.Fiquei tão viciado no negócio, que chegou uma hora em que minha mãe simplesmente me proibiu de lê-los, temendo que tais práticas desviassem seu lindo filho do caminho das virtudes.

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Mas esse vício acabou tendo um lado bom: ao entrar na escola, com seis anos, já sabia ler e escrever perfeitamente e virei o melhor aluno da classe.Era aquele aluno que a professora escalava toda hora para ler a cartilha em voz alta lá na frente da classe.

Eu, nessa época já bem carinha de pau, ia com o maior orgulho, e de quebra ainda fazia uns desenhos na lousa.Sentia que ali nascia um pequeno astro, suburbano, mas um astro, oras! Na escola meu temperamento continuava o mesmo, beijava as meninas e brigava com os meninos.Volta e meia voltava todo rasgado para casa.

Uma vez tomei uma surra homérica de três moleques grandes do ginásio(eu ainda estava no primário) e jurei que um dia seria rico e poderoso e me vingaria de todos.Não consegui nada disso até hoje!…

Aos onze anos comecei a trabalhar duro.Advindo de uma família proletaríssima de metalúrgicos do ABC paulista, neto de imigrantes italianos durangos até a medula,não me restou outra saída senão buscar um ganha-pão,ou ao menos um ganha-migalhas,para ajudar no lar. Assim, passei pelos seguintes honrosos ofícios, na ordem cronológica: fiz e vendi pipas na feira, fui flanelinha, levantei pinos num boliche, distribui folhetos de propaganda nas casas e entreguei roupas numa lavanderia por vários anos.

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Apesar do precoce fardo em meu púbere ombrinho, era um garoto muito alegre e otimista.Estudava de manhã, trabalhava a tarde e sonhava com um futuro melhor 24 horas por dia.

E não tardou para o sonho começar a se realizar!Com 15 anos comecei a trabalhar como chargista no sindicato dos Químicos do ABC.Pra falar a verdade comecei como um faz-tudo na imprensa: diagramava e pestapava (ainda era época do paste-up) o jornal, fazia as charges, as tirinhas, e os títulos à mão!

Às vezes, quando o redator não estava, acabava escrevendo alguma matéria de emergência também. De quebra fazia cartazes, artes para camisetas, adesivos,cartilhas em quadrinhos, e o que mais encomendassem.Não tinha feito curso nenhum, aprendi tudo na raça, errando e acertando.E graças a Deus, sempre acertei muito mais do que errei!

Isso foi na metade dos anos 80, o Brasil estava saindo da famigerada ditadura e voltando para a democracia.Havia um clima muito gostoso no ar! Todos os movimentos populares estavam saindo da toca e querendo reconquistar seus espaços.Com isso havia trabalho aos montes para mim.Eu era procurado para desenhar cartilhas e charges para todos os movimentos que se pode imaginar: negros, mulheres, aposentados, estudantes, índios, GLS,ecológicos,etc,etc,etc.

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Comecei a trabalhar como um doido e construí uma carreira muito sólida e bonita,da qual muito me orgulho!

Nesse período, li zilhões de livros de História e autores importantes (Marx, Proudhon, Kardec, Freud, Roberto Freire, Camus, etc..) e produzia a milhão!!!

Paralelamente a isso ainda arrumava tempo pra fazer algumas estripulias extra-curriculares: escrevi e encenei peças de teatro,toquei baixo em bandas de rock,fiz vídeo, grafite e locução de rádio e ainda me formei Desenhista Projetista na ETE Lauro Gomes, uma puta escola em São Bernardo.

Aproveitei o embalo e na virada da década, entrei na Faculdade de Artes Plásticas.Prestei na São Judas, Belas Artes e FATEA ,passei em nono,sétimo e terceiro lugar respectivamente. Isso sem nunca ter feito cursinho.Acabei escolhendo a FATEA, que era em Santo André,a quinze minutos de casa.

Foi um período muito bonito: muitas novidades, ótimos professores, lindas namoradas!Eu era feliz(na bruma de uma hora bêbada) e sabia disso!Mas eu também era o “the boy with the thorn in his side”e não conseguia me acomodar em lugar nenhum, precisava continuar crescendo,buscando mais, e por isso corria, corria, corria…

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De quebra ainda escrevia poemas, como este:

“Então me traga agora
o mapa de um novo mundo,
revele os segredos
de um corpo moribundo.
Sempre mergulhado em desespero,
a esperança é uma agulha num palheiro.
Já não me basta o meu próprio mal?”

Ou este:

“Essa dor gritante,
que dói a cada instante,
que cresce a cada vida.
É a dor que a gente pediu,
do tamanho exato
da nossa ferida.”

Nessa altura do campeonato eu já tinha uns quinze empregos e trabalhava de segunda a segunda. Gostava de entrar numa banca e contar quantas revistas tinham desenhos meus.

Cheguei a publicar numas vinte ao mesmo tempo.Eis algumas das revistas nas quais desenhei e ou ainda desenho até hoje: Internacional(erótica), Fiesta,Brazil, Abusada, Panther, Private, Rock Brigade, Roadie Crew, Rock Forever, Comando Rock, Dynamite, Valhalla, Metalhead, Tattoo, Tatuagem Arte e Comportamento, Tatuadores, América Economia, Caros Amigos, Playstation, Visão Espírita, Espiritismo e Ciência, UFO,MAD, Porrada, Tralha, Níquel Náusea, Paranoya, Mil Perigos, Cabelos e Cia, Sem Fronteiras, Revista do Timão, Nação tricolor, Raça Corinthiana, Negro 100%, Raça, Esotérica, Antenada, TopTeen, Sci-Fi News, OK Magazine, Elas e Elas, Melhor Idade, Vivaleve, MP3 World, Estação Criança, Arquitetura e Construção, e muuuuuuitas mais!

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Amigos me ligavam surpresos e diziam: “-Cara, vi trocentas revistas na banca com desenhos seus!Você não dorme, não?!?”.

Uma das minhas editoras, Laura Bacellar, me escreveu num prefácio certa vez: “Tenho um palpite que o Marcio não dorme.Ele deve entrar numa câmara hiperbárica ,respirar um gás verde energizante e sair de lá pulando e rabiscando tudo que vê pela frente!”.Ela acertou em cheio!!!

Depois dessa fase, eu descobri o prazer de publicar livros com coletâneas dos meus trabalhos.Já tinha acumulado tantos quadrinhos e cartuns que dava pra eu lançar umas duas dúzias de livros.E assim eu fiz.

Pra começar, lancei três livros com charges dos sindicatos onde sempre trabalhei: “ConstruRINDO o Sindicato!”, dos Bancários do ABC, “A fórmula do Riso” e “Cidadania: Eu quero uma pra viver!”, ambos dos Químicos do ABC.

Gostei tanto da brincadeira que a partir de 2002 passei a lançar religiosamente um ou mais livros todo ano. Em 2002, lancei numa paulada só “Moro num país TropíCAOS!” e “Todas as cores do Humor”, em 2003 lancei “Roko-Loko e Adrina-Lina”, em 2004 “Roko-Loko e Adrina-Lina atacam novamente”, em 2005 “Tattoo Zinho”, em 2006 “Roko-Loko-Born to be Wild!”, em 2007 “Humortífero”, em 2008 “Vale-Tudo” e agora em 2009 vou lançar “Roko-Loko-Hey Ho,Let´s Go!”.

Empolgado com a brincadeira, criei e lancei em 2005 o vídeo-game “Roko-Loko no Castelo do Ratozinger”, o primeiro game 100% nacional para adolescentes. Encartado em várias revistas especializadas, o game ultrapassou a tiragem de 500 mil cópias vendidas.Animado,aproveitei pra lançar uma nova edição do game, com duas novas fases e um DVD contendo o making-of do game ,com participação de músicos do Sepultura, Angra e outras bandas.

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Lancei também quatro camisetas e quatro bonecos diferentes, dos meus personagens.

Quase) tudo isso está disponível para compra no meu site: www.marciobaraldi.com.br, deixem de ser pão-duros e dêem um passadinha lá!

Também arrumei tempo para escrever matérias para um monte de revistas de rock e cultura pop, além de sites como Bigorna.net e Whiplash.net. Apresentei o programa Domingo Show, na AllTV e fui repórter e dono do quadro fixo “Balde do Baraldi” no programa Banca de Quadrinhos, no Canal São Paulo.

Dei mais de uma centena de entrevistas em revistas, sites, programas de TV(SuperPop, Vitrine, Metrópolis, Ione Borges, Rock Forever, Sleevers, Stay Heavy, HQ Além dos Balões, Live In, TV Corsário, TV Rock, MetalSplash, HQ e Cia, Swing com Syang, Clip Gospel, Amaury Júnior, Leitura Dinâmica, Jornal da Band, MTV, etc), rádios e jornais.

Meu trabalho foi tema de uma meia dúzia de mestrados. Já ganhei vinte prêmios (dois Herzogs,nove Agostinis, e vários outros por aí).

Já ganhei flores, bombons, livros, discos e calcinhas de presente de fãs maravilhosas.

Sou brasileiro com muito orgulho, roqueiro até a medula, só voto na esquerda, só transo de camisinha. Aguardo ansiosamente o dia em que a Humanidade toda será vegetariana, em que não haverá mais guerras, miséria ou violência, e a Terra será um mundo de paz, equilíbrio e progresso em todos os sentidos: tecnológico, moral e espiritual.

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Aguardo o dia em que só usaremos fontes de energia não-poluentes e o abominável petróleo será apenas uma triste lembrança de nosso passado.Aguardo o contato com nossos irmãos Extraterrestres, que com certeza, já passaram pela fase atrasada na qual estamos hoje.

Enfim, aguardo o futuro de braços e cabeça abertos, exatamente como profetiza essa maravilhosa canção de Lulu Santos,um clássico do rock pensante e humanista:

“Eu vejo a vida
Melhor no futuro
Eu vejo isso
Por cima de um muro
De hipocrisia
Que insiste
Em nos rodear…

Eu vejo a vida
Mais clara e farta
Repleta de toda
Satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão…

Eu quero crer
No amor numa boa
Que isso valha
Pra qualquer pessoa
Que realizar, a força
Que tem uma paixão…

Eu vejo um novo
Começo de era
De gente fina
Elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim
Do que não, não, não…

Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há pra viver
Vamos nos permitir…”

(“Tempos Modernos”,Lulu Santos)

Muito obrigado pela atenção. Sucesso e saúde a todos!

Grande abraço.

Marcio Baraldi

Entrevista realizada em 5/5/2009.

Renato Lebeaucaminho do artistacaminho do artista,Marcio BaraldiComo todo cartunista que se preza eu já nasci desenhando, com o cartum na ponta do dedo! Desde pequeno era um moleque muito espevitado, que não parava quieto um minuto, que não dava sossego, enfim um moleque quase insuportável. Coisa de ariano. Roubava espaguete na despensa da cozinha e jogava...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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