abertura_laudo

O início

Desenho desde muito pequeno. Para falar a verdade, não me recordo quando comecei a desenhar, com que idade, mas a lembrança primeira que tenho é de já rabiscar algo que se assemelha quadrinhos.

Meus primeiros contatos profissionais, digamos assim, foram no início de 1983 através do Franco De Rosa para a extinta editora Press. Essa editora na época, vinha na esteira da Grafipar de Curitiba e tinha feras como Mozart Couto, Shima, Colin, Watson Portela, Seabra, Ofeliano, e tantos outros artistas do primeiro time, produzindo vários gêneros de quadrinhos, principalmente terror, erótico e ficção-científica. Lá produzi muito quadrinho erótico e um pouco de terror.

Tive a honra também de desenhar roteiros de caras como Júlio Emílio Braz. Foi um período de plenas descobertas. A cada instante, a cada carta (como não morava em São Paulo na ocasião, a coisa era via ECT mesmo, nem se imaginava o advento do e-mail) trocada. Com O Franco, foi o pontapé inicial. Um cara que vez ou outra nos cruzamos em eventos de quadrinhos, o qual tenho grande admiração e respeito.

Em 1986, um pouco antes ou um pouco depois, a Press fechou as portas. A nossa velha e conhecida crise (a coisa não é de hoje, não!!!). Com o término da editora, muita gente se viu “órfão”, sem ter onde publicar. Eu, iniciante, começando a conhecer a “coisa”, com certeza era um desses.

Morava, conforme disse nesse período, na cidade de Jaboticabal, interior de São Paulo, lá eu era muito ligado a um centro cultural aonde o seu dono, Luiz Carlos Cascaldi, promovia exposições, recitais de poesia, shows e principalmente teatro, o qual era intimamente ligado. Participava ativamente produzindo cenários para peças e cartazes, chegando a fazer exposições de desenhos.

Foi através dele que lancei meus dois primeiros trabalhos em quadrinhos “Balada para o futuro” e “Hugo Terrara”, respectivamente em 1987 e 1988. Nesse período descobri as revistas que o mestre Rodolfo Zalla e sua editora D-Arte publicavam, “Mestres do Terror” e “Calafrio”. Lá além de ter a oportunidade de voltar a ler material de caras que me faziam a cabeça como Mozart Couto, Colonnesse, Colin, Shima, e outros, havia em suas publicações algo que me chamou muito a atenção imediatamente, uma secção aonde era divulgado fanzines e revistas independentes de todo Brasil.

Foi nessa que, muito devagar, comecei a me corresponder com gente de todo pais, fanzineiros, desenhistas, roteiristas, trocando fanzines pelas minhas duas primeiras publicações, “Balada para o futuro” e “Hugo Terrara”.

Em pouco tempo, era um tal de colaborar com fanzines da Bahia, de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, São Paulo, era muito bom. Na minha casa, houve um período que recebia uma média de 20, 30 cartas  por dia. Fiz grandes amizades nesse período, como Emir Ribeiro, Edgard Guimarães, Edgar Franco, Flávio Calazans, Gazy Andraus, Daniel HDR, Henry Jaepelt, Denílson Rosa Reis, um monte de caras, e a maioria ainda são amigos, mesmo que distantes mas estamos sempre nos falando.

É desse período, alguns trabalhos como a hq “O duelo”, publicada pelo editor independente Edgard Guimarães e a série de tirinhas “A voz do louco” que muita gente do Brasil conheceu meu trabalho.

Esse pique foi até início dos anos 90 quando me mudei para São Paulo e aí, aquela coisa de se profissionalizar, o tempo vai ficando escasso e consequentemente curto para produzir colaborações.

Mas esse período de intensa participação no movimento fanzineiro, foi fundamental para conhecer gente bacana, bonita, aprender muito, muito, pois os fanzines antes de qualquer coisa foram uma vitrine para gente saber as quantas andava nossos trabalhos e que caminho seguir.

Zé do Caixão

ze_do_caixao

Em 1993, procurei o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, para propor-lhe um projeto em quadrinhos, transpor para as hq’s seu personagem Zé do Caixão. O Mojica sempre teve seu trabalho ligado à Nona Arte, sua revista “O estranho mundo de Zé do Caixão” publicada entre final dos anos 60 e início dos 70, já havia se tornado um clássico das hq’s nacionais e tinha lá, o grande Nico Rosso encabeçando os artistas que produziam as histórias. Imbuído dessa referência, achava que nada mais correto que levar o próprio personagem do Mojica para as hq’s.

Em nosso primeiro encontro, passamos um dia inteiro conversando em sua produtora na época no bairro do Ipiranga, aqui em São Paulo. Nessa nossa primeira conversa, fiquei completamente por dentro do que era o personagem, além de ficarmos amigos e nossa amizade por sinal, perdura até hoje. Tenho um carinho enorme pelo velho Mojica, Grande figura, grande cara!!!!

Em 1996, pela Editora Nova Sampa lancei “À meia-noite levarei a sua alma”, adaptação em quadrinhos do filme homônimo do Mojica. Como ele mesmo havia proposto quando lhe propus desenhar o Zé do Caixão: ”Então comecemos pelo “começo”, desenhando a primeira aparição do Zé!”.

Na ocasião, esse lançamento, como era de se esperar teve muita divulgação, jornal, tv, rádio. Uma sessão de autógrafos no Espaço Unibanco de Cinema, aqui em São Paulo, abarrotada de gente, Carla Camuratti, Miranda, os caras do Sepultura, uma pá de gente mesmo. Claro, todos foram por causa do Mojica, mas os quadrinhos foram nessa!

Nesse período conheci o Omar Viñole, por intermédio de um amigo comum, Marcos Pereira (o Dark Marcos hoje em dia), roteirista e pesquisador de quadrinhos. Como estava atrás de um arte-finalista para trabalhar comigo na hq seqüência, “Esta noite encarnarei em teu cadáver”, ele me foi apresentado.

Ficamos amigos rapidamente e eu fã do seu trabalho. Iniciamos os trabalhos nessa hq e acabamos estendendo a outros trabalhos e algum tempo depois, montamos nosso estúdio, o Banda Desenhada e estamos até hoje juntos. Mais que sócios, parceiros, grandes amigos. É fundamental dizer que trabalhar com o Omar esses anos todos, muito ajudou na melhora de meu traço, do meu desenho. O Omar é um tremendo artista e ninguém melhor que ele conhece cada detalhe, cada coisa do meu desenho, da minha forma de contar uma história em quadrinhos.

Com o Mojica, fora essas duas hq’s longas ( a segunda, “Esta noite encarnarei em teu cadáver” ficou inédita todo esse tempo e deverá ser publicada esse ano pela Editora Via Lettera), produzimos algumas hq’s curtas do personagem que foram publicadas em coletâneas como “The Brazilyan Heavy Metal” e “Horror Show”. Ganhei o prêmio HQ Mix em 1997 de Melhor Graphic Novel Nacional de 96.

Embora achasse na ocasião, que meu trabalho tivesse muito, muito, que aprender para produzir terror, fiquei conhecido durante um tempo como “desenhista do Zé do Caixão” e até hoje, muita gente me liga a esse período. Isso foi legal e foi ruim ao mesmo tempo, pois especificamente no nosso “meio” de quadrinhos, existe uma tendência a te marcarem por esse ou por aquele motivo, quando na maioria das vezes, é o trabalho seu que está em evidência, óbvio. Mas nada tão danoso assim. O tempo passa e as coisas mudam e isso com certeza, ficou pra trás.

Subversivos

revista_subversivos

André Diniz foi um cara que conheci no início dos anos 90 em um desses eventos de quadrinhos. O cara é mais ou menos uns dez anos mais novo que eu, mas logo de cara fiquei fã do seu trabalho, e depois quando nos conhecemos, ficamos grandes amigos. Houve uma empatia imediata pois ele pensava muito parecido comigo na forma de contar em quadrinhos, por mais que em alguns casos, os assuntos não sejam de interesse dele ou meu, pensamos parecidos.

E isso nos ligou muito. Até hoje. Passamos muitas horas, muitas, ao telefone e pessoalmente conversando. Foi com ele, inclusive, que voltei a tomar gosto pela leitura de livros, algo que havia sido intenso em minha adolescência, finalzinho dos anos 70, início dos 80, chegando a escrever lá, meus continhos e poesia e que havia abandonado por esse ou aquele motivo. Voltei, como disse, na ocasião, a descobrir o prazer de uma boa leitura, de um bom livro, não importa qual assunto for.

Em 1999, ele me propôs armarmos nossa primeira parceria nos quadrinhos, a seqüência de um trabalho seu lançado algum tempo antes, “Subversivos”. Esse novo trabalho juntamente com outra parceria que estava armando com o mestre Flávio Colin, seria o pontapé inicial de sua editora, a Nona Arte.

Esse trabalho foi muito importante para mim, pois marcou uma ruptura com uma linha de desenho que fazia até então, o acadêmico. Optei por contar uma hq com um traço solto, meio cartum, sem requadro em muitas páginas, sem compromisso com fotografia, nada, a não ser o lápis e o papel.

Além de passar a trabalhar melhor na concepção visual de um personagem, estudando seu perfil e seu caminho dentro da história. No período de produção dos desenhos desse trabalho, passava muito tempo com o Diniz ao telefone falando sobre o perfil dos personagens dessa hq nossa. Tremendo aprendizado!

“Subversivos: companheiro Germano” é um trabalho que até hoje guardo um tremendo carinho e do qual gosto muito. E Diniz, até hoje é um dos meus melhores parceiros nos quadrinhos.

A loira Tianinha

tianinha

Desde a época da Editora Press, lá no início dos anos 80  e mesmo em meados dos 90, produzi muito quadrinho pornô. Início de muita gente. Porém chega um momento no nosso trabalho que cansa, não há mais interesse, principalmente artístico e claro, financeiro.

O editor Licínio Rios, foi um amigo e profissional com quem trabalhei em revistas como “Sexy”, “Hustler” e “Pesca & Cia.” como ilustrador e o qual
me deu uma aula de como trabalhar dentro do mercado editorial. Licínio, embora tivesse um ar de quem estava de saco cheio de tudo, era uma pessoa muito dadivosa, generosa e principalmente fiel à seus colaboradores. Eu tive a honra de ser um deles. E foi com ele que dei um tremendo passo nos quadrinhos e no gênero erótico.

Ainda em 2000, o Licínio era editor da revista “Sexy”, o qual fora um dos criadores também. Na ocasião, eu já trabalhava com ele ilustrando a “Sexy”. Ele me chamou para uma reunião falando de uma nova proposta editorial da casa, uma versão menor e com preço mais em conta da “Sexy” a revista se chamaria “Sexy Total” (hoje, só “Total”). Uma das idéias do diretor da editora, era que a revista fechasse com uma história em quadrinhos.

Licínio propôs que ao invés de histórias avulsas, fossem criados personagens que intercalassem histórias no decorrer das edições e que queria eu como desenhista dessa série de hq’s. Propôs a criação então de três personagens: um negro saradão e bem “servido” chamado Polaco, um carinha descolado e pegador chamado Maninho e uma “falsa” loira, meio várzeana, com raiz do cabelo preta e tudo chamada Tianinha. Esse trio encabeçaria a série de hq’s para a nova revista.

Fui para o estúdio, trabalhei nos estudos desses personagens e na semana seguinte em uma nova reunião apresentei minhas idéias para cada. Os caras estavam em cima da idéia original do Licínio, porém com a Tianinha a coisa foi diferente, ao invés da loira burra,  falsa e varzeana que o Licínio pedia, apresentei-lhe uma loira autêntica, estilosa, gostosa e muito descolada. “Garanto para você que é o que os seus leitores vão querer ver!” Argumentei com Licínio, que comprou a idéia.

E em agosto de 2000, saía a primeira edição da “Sexy Total” apresentando esses personagens, inclusive a loira Tianinha, uma gostosona, safada, louca por sexo, que morava com seus amigos em um bairro da periferia, mas doida pra se dar bem.

Ao término da primeira “temporada”, o próprio Licínio veio me procurar dizendo que estava querendo cancelar a série, pois ele mesmo não era fã de hq’s, porém estava fazendo uma pesquisa junto aos leitores vendo quais as secções da revista que mais caiam no agrado e se as hq’s estivessem caído no gosto do leitor, a série continuaria, caso contrário. Bem, nove anos se passaram e a Tianinha está aí até hoje e com um tremendo número de fãs.

Só em 2002, que a série de hq’s passaria a ter somente a Tianinha como protagonista. Curiosamente, durante um bom tempo, eu via a produção das hq’s da loira como um trabalho, um quadrinho erótico, já que por norma da editora, os quadrinhos não poderiam conter cenas explícitas de sexo, um trabalho legal de se fazer e bem remunerado.

tianinha_02

Existia ainda nesse período uma certa imposição por parte dos editores do assunto para cada hq. O que acontecia então eram histórias da Tianinha transando com motoboys, entregadores de pizza, cowboys de rodeios, e por aí vai. Era visível que a idéia de quadrinhos eróticos dos editores estava parada há muitos anos atrás. Porém a partir de 2004 principalmente pela internet comecei a perceber que a Tianinha tinha um bom número de fãs.

Carinhas que acompanhavam suas hq’s e que gostavam da postura da personagem e tudo mais. A partir daí, juntamente com o Dark Marcos (que era roteirista até então) e o Omar, resolvemos tomar as rédeas definitivamente da personagem e contar suas histórias do jeito que queríamos, logicamente respeitando a proposta editorial.

A partir de então comecei a enxergar a personagem bem diferente, algo meio autoral. Ao passo que a editora passou a me dar total liberdade na criação das histórias, sem intervir em nada. Essa noção da popularidade da personagem veio se confirmar em 2005 quando lançamos uma edição especial da “Total” só com hq’s da Tianinha, na verdade, uma coletânea de suas melhores histórias publicadas até então.

A resposta veio um mês depois de seu lançamento com o número de vendas, 25 mil exemplares, aproximadamente. Para editora uma venda normal para uma edição da “Total”, mas para quadrinhos, não. Segundo informação da época, juntamente coma revista “Contos bizarros” uma edição especial de quadrinhos da revista “Super interessante”, foram as mais vendidas, inclusive superando Mônica e Homem-Aranha. No ano seguinte, lançamos mais duas edições especiais agora só com histórias inéditas e repetindo o número de vendas nas bancas.

Atualmente a Tianinha continua sua série, “Sacanagens da Tianinha” publicada na revista “Total”. Já passamos o número de cem hq’s e suas histórias, há muito perderam a coisa de ser somente quadrinhos eróticos.

Há a curiosidade de muitas histórias publicadas, a personagem nem aparecer nua ou aparecer na cama ou em algum outro lugar com esse ou aquele personagem transando, hoje não é o fundamental em suas histórias, O bacana: a editora entende isso e respeita meu processo de criação e eu, entendo o que tem que conter suas histórias. No ano passado, a loira ganhou mais um título, “Tianinha ilimitada” para publicação na revista “Sexy Premium”.

O Licínio Rios infelizmente veio a falecer em 2004, senão me engano. Na ocasião já não estava mais na editora, trabalhava em outra revista, eu colaborava nessa nova casa com ele. Sempre lembro com muita saudade desse amigo, que muito me ensinou e principalmente o que pensaria ele hoje se estivesse vivo ou seja lá aonde estiver, de tudo isso que aconteceu com a Tianinha.

Eu sei que há muita gente que torce o nariz para esse tipo de publicação, mesmo eu afirmando não se tratar de quadrinho pornô, na sua forma, vendo inclusive com certo preconceito e se tratar de arte menor. Mas aí está um aprendizado que a Tianinha me trouxe em todos esses anos que desenho, que crio suas histórias: assumir e gostar dela, a personagem, como ela é e como ela deve ser e à partir daí só melhorar suas histórias.

Não tenho censo de julgar sua postura e consequentemente encaminha-la para algo mais moralmente de acordo com que se espera. Nada disso, ela é assumidamente uma personagem descolada, safada, preocupada com outros valores, muito distantes do Laudo, criador, porém ela é minha personagem e com ela eu vivo há nove anos, como disse, criando suas histórias, e é em mim que ela “confia” o andamento de seu mundo. Pode parecer um papo meio maluco, mas é a verdade, a verdade dentro de uma realidade virtual que é onde vive a personagem.

O grande número de fãs e leitores da Tianinha não está nos quadrinhos. O público que consome suas histórias são caras que gostam de ler histórias descompromissadas, irreverentes, de uma mina normal, gostosa, bonita, mas normal, que é possível encontrar a qualquer momento em qualquer lugar. E enquanto der e eu puder, a Tianinha terá suas histórias contadas.

Clube da Esquina

clube_da_esquina

Em 2007 e 2008 levei um projeto ousado mas de grande estima e carinho de minha parte: “Histórias do Clube da Esquina”. Adaptação para os quadrinhos do livro homônimo do escritor, letrista e compositor Márcio Borges, mineiro e parceiro de Milton Nascimento e Lô Borges.

A música desses caras foi fundamental para toda uma geração do qual eu faço parte. Minha cabeça foi feita, embalada, ao som das canções e discos desses caras. Obras como o disco “Clube da Esquina”, “Minas” do Bituca e “Via Láctea” do Lô, foram fundamentais para minha formação intelectual e de ver a vida e as coisas. Um dado momento em 2006 resolvi que seria bacana homenageá-los e tudo que significavam com um projeto em quadrinhos.

E como diz o ditado, quando você quer o universo conspira a favor, acabei conhecendo o fotógrafo Juvenal Pereira, amigo da turma do Clube da Esquina, ou melhor, membro do clube e fotógrafo do disco antológico de 1972. Conhecemos-nos numa loja de cd’s aqui no bairro da Pompéia em São Paulo, onde moro e logo ficamos bons amigos, dividindo papos, experiência, cervejas e é claro, Clube da Esquina.

Juvenal foi quem levou o projeto diretamente às mãos do Márcio Borges e consequentemente ao Milton. Eu na ocasião estava tremendamente receoso, pois por uma ignorância de minha parte, julgava que eles, ícones da Música Brasileira e das artes nacionais, passariam batido com a questão, Clube da Esquina em quadrinhos. Ledo engano. Márcio e todos os membros do querido Clube, abraçaram a idéia completa e foi de Márcio que partiu a idéia de adaptar seu livro para os quadrinhos e essas hq’s depois seriam levadas ao site do Museu Clube da Esquina que estava em construção na época.

Trabalhar com as histórias desses mineiros fundamentais, foi algo tremendamente enriquecedor. Foi trabalhar com emoção, do vivido para o que era contado e principalmente fazer o leitor, novo e velho, fã e não fã da música deles, perceberem momentos pequenos ou não, de emoção. Acredito ter chegado próximo a isso, sem falsa modéstia, pois a obra foi feita com base em puro amor, aos mineiros e aos quadrinhos. Enfim, Márcio aprovou, Bituca aprovou e muita gente, fãs e não fãs aprovaram.

4º Mundo, HQ Mix Livraria e muitos outros quadrinhos

revolucao_russa

Nesse período acontecia uma coisa interessantíssima chamada 4º Mundo. Um coletivo de autores, editores, de todo o país que se agrupou para uma auto-ajuda. Fui ver uma palestra em 2007 do Cadú Simões (o cara que esboçou a idéia do coletivo), do desenhista Will e do editor e roteirista Alex Mir (amigo de alguns anos) juntamente com o Omar e o que nós vimos lá, muito nos chamou a atenção.

Não é preciso aqui, eu me estender falando sobre o 4º Mundo, pois a história dele até aqui já é de conhecimento de muitos. Mas aquela coisa toda, o vigor dessa rapaziada, o senso da amizade, do respeito mútuo, não importando inclusive o gênero de quadrinhos que se faça, a simplicidade de todos, me ganhou completamente. Aos poucos fui me entrosando com a turma até chegar mais perto e consolidar a amizade, a parceria. O sonho. Fundamental. Embora minha atuação dentro do coletivo não seja tão intensa como o trabalho pede, há minha total disponibilidade sempre que possível e o principal, minha fidelidade a todos.

Vale dizer que na convivência com alguns membros do grupo que são aqui de São Paulo, novas coisas me foram apresentadas, não apenas no quesito quadrinhos, traços, mas no vigor e vontade de fazer.

Caras novos e extremamente talentosos como Jozz, Cadú Simões, Alex Mir, Gil Tokyo, e Daniel Esteves de quem sou grande fã pela sua pessoa e trabalho, sinceridade em estado bruto, e da velha guarda como o fera indiscutível Will, me trouxeram um novo vigor. Estar próximo ao frescor jovem sempre é uma boa brisa revigorante. Um tremendo alimento. Um clube de amigos, querendo algo em comum. Muito parecido com aquele “outro” clube.

Importante também e fundamental nessa história é o Gualberto e a Daniella, proprietários da HQ Mix Livraria, centro aglutinador de tudo isso. Lançamentos de quadrinhos, bate-papos, convivência, novas amizades se fazendo. Algo fabuloso que está acontecendo e que sem dúvida fez história nas histórias em quadrinhos nacionais.

Nessa efervescência toda, o ano de 2008 foi extremamente produtivo para mim. Nunca publiquei tanto quadrinho. Acredito que essa tal força revigorante causou a energia para isso. “Café Espacial”, “Hangar”, “Quadrinhópole” foram algumas publicações que participei, além de publicações via editoras como “História do Brasil em quadrinhos” da Editora Europa e “Revolução Russa”, “Elogio da loucura” e “Inconfidência mineira” em parceria com o velho compadre André Diniz, para a Escala Educacional, e “Depois da Meia-Noite” uma mini-série que lancei dentro de umselo independente  que criei juntamente com o Omar, o Quadro Imaginário. Fora as hq’s mensais da Tianinha.

Adiante

Vivo um momento muito produtivo. E tenho a honra e a sorte de poder participar, colaborar de certa forma, de uma fase tão boa e produtiva para os quadrinhos nacionais. Vejo todo esse tempo de estrada, desde lá em 83 até hoje, realmente como um aprendizado.

Ainda vislumbro muita coisa a ser feita. Sempre novas possibilidades de se contar histórias. Buscar novos traços, novas perspectivas de imagens. Lembro que quando finalizei o “Subversivos: companheiro Germano” gostei imensamente do resultado obtido.

Não naquela coisa de “olha como sou bom”, mas sim que naquele momento, eu havia descoberto dentro de meu trabalho e de minha cabeça que há infinitas possibilidades de se desenhar uma hq. Infinitos assuntos.

É só querer, pois tá tudo aí. Basta aquietar a mente, não tropeçar em armadilhas do ego e só deixar aquela coisinha que alimenta os sonhos da gente acompanhar na nossa trajetória.

Renato Lebeaucaminho do artistacaminho do artista,clube da esquina,Laudo,subversivos,Tianinha,Zé do CaixãoO início Desenho desde muito pequeno. Para falar a verdade, não me recordo quando comecei a desenhar, com que idade, mas a lembrança primeira que tenho é de já rabiscar algo que se assemelha quadrinhos. Meus primeiros contatos profissionais, digamos assim, foram no início de 1983 através do Franco De Rosa...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe