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Originalmente esse post era para ser uma entrevista com Dedo Zuka, quadrinhista independente que na época do 25º Ângelo Agostini, distribui para os presentes a sua HQ em forma de rolo.

A intenção da entrevista seria focar para a experimentação do artista em criar histórias em quadrinhos em formatos não convencionais e a sua inclinação para assuntos políticos, que estão presentes em suas obras.

Durante o processo e com o envio do texto do próprio Dedo. Percebemos que funcionaria melhor o post se ele fosse uma “trajetória do artista” escrita pelo próprio quadrinhista, afinal, nada melhor do que ele para saber quais foram os pontos chaves de sua carreira e que definiram como ela é hoje.

O texto a seguir foi escrito por Dedo Zuka, e o Impulso HQ agradece pela colaboração e pela idéia de abrir um novo espaço para o quadrinhista nacional, esperamos em breve ter outras trajetórias aqui postadas no site.

Caminho do Artista: Dedo Zuka


Origem nome:

Dedo Zuka (com maiúsculo ou minúsculo, tanto faz) é uma homenagem a Tezuka Osamu, aquele que nasceu em Takarazuka, no Japão. Quando Fujiko Fujio (autor de Super-Dínamo/Doraemon) iniciou a carreira, ele assinava como Ashizuka Fujio em homenagem a Tezuka, isso também está em Manga Michi (uma autobiografia disfarçada de Fujiko Fujio) em que surge Ashizuka Shigemichi.

Se você for ver os mangás vira e mexe aparece algum personagem chamado Tezuka (como em Prince of Tenis), fico pensando se também não seria homenagem. Em tempo: “Te” quer dizer “mão”, “Ashi” é “pé”, “Takara” é “tesouro”. Já “zuka” é como “agrupamento” ou “morada”, “Arizuka” por exemplo quer dizer “formigueiro”.

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Conhecendo Gual
Fiz uma oficina de quadrinhos com Gual no final de 2001 no Itaú cultural.
Engraçado que lá pelo 2° dia soube que era para o público até os 17 anos – eu já tava com 19, mas disseram que não havia problema. Não que eu não tenha feito nada de quadrinhos até então, mas considero aquele evento como decisivo.

Daquele evento eu e mais 2 pessoas fizemos um fanzine que acabou parando no 2° ou 3° número mas foi bem divertido. Não me lembro se foi 1 ou 2 anos depois mas reencontrei o Gual no Itaú Cultural numa das variações da Jam Session do Teshugo Preto que ele tava promovendo.

É impressionante como ele lembra das pessoas e ele me disse que ficaria muito orgulhoso se eu seguisse o caminho dos quadrinhos. Relembrar isso é estimulante.

Então eu tava carregando a empolgação inicial que ganhei da oficina de 2001. No fanzine fiz uma história um pouco baseada no universo de Senhor dos Anéis (que tinha estreado naquela época) e assinei como Dedo Máximo, que era para soar meio misterioso pois naquela história tinha umas coisas tipo “foice perfeita”, “espada da vida” e “espada da morte” de fazer o leitor pensar o que seria (agora fico até encabulado por ter sido uma fase
passada mas lá vai: a foice perfeita era uma lâmina que acabava completando uma volta completa formando um círculo e não o formato de gancho como das foices normais, a espada da vida fechava as feridas ao invés de abrir, o contrário da espada da morte, e por fim Dedo Máximo se referia ao sinal de “joinha” com o polegar que defini como minha
assinatura).

Mas em 2003 ou 2004 queria passar da simples empolgação para um passo adiante. Até tirei o Máximo do meu pseudônimo pois sabia que comparando com outros não tinha nada de máximo e humildemente seria apenas o Dedo…

Foi aí que vi um chamado aos artistas para participar das atividades da “Integração sem Posse”, que era uma série de atividades que artistas contemporâneos estavam promovendo no Edifício Prestes Maia (Região da Luz, São Paulo), ocupado pelos sem-teto.

Bom, era uma muvuca de artistas tentando fazer atividades lá para chamar a atenção da sociedade para os sem-teto: tinha artistas plásticos, grafiteiros, atores/atrizes, fotógrafos, etc.

Acho que a maior repercussão na mpidia conseguida foi quando em 2007 conseguiram levar o teatrólogo Zé Celso para lá.

Bom, vi aquele chamado e sabia que eu devia me apresentar a eles como “artista” embora não me considerasse um ainda. Com o que poderia ajudá-los? Alguns ofereciam oficinas de arte para os sem-teto, mas seria muita pretensão oferecer oficina de quadrinhos.
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Assim, eu faria quadrinhos falando dos sem-teto ou da pobreza, e quando tava imprimindo o trabalho senti uma emoção. É, foi interessante, via o papel sair devagar da impressora enquanto pensava “é com isso que passarei a me apresentar como artista” Engraçado que quando saiu nem tava tão bom e tive de reimprimir, mas não esqueço aquele momento.

Foi a partir daí que meu trabalho foi se definindo. Acontece que eu tinha feito apenas uns garranchos no computador como rascunho para levar a esse grupo de artistas. Não escaneado pois não tinha scanner, digitado para facilitar a leitura e imprimido para ter várias cópias e procurar um possível desenhista.

Para minha surpresa ao invés de se oferecerem para desenhar, os artistas lá gostaram e disseram que eu devia continuar naquela linha. Daí entrei numa situação que me encontro até hoje: meu trabalho fica no intermediário entre agradar os quadrinistas, os artistas plásticos e um pessoal mais da sociologia.

Não vou dizer que foi melhor, mas é um caminho interessante em comparação com o caminho tradicional dos fanzineiros de fazerem um material que tenta alcançar os traços dos ídolos de comics/mangá, se aperfeiçoarem naquele tipo de enredo e para passarem a conviver só com os quadrinistas do gênero.

Nada contra esse caminho, mas para os novatos, deixo o conselho de pensarem bem: é aquela história de achar que melhorar
é ficar cada vez mais especializado num estilo, eu não segui esse caminho, não fiz por exemplo a escolha pelo mangá para conseguir imitar cada vez melhor os ídolos do mangá.

Ao invés de incorporar o tipo de humor dos mangás, fiquei mais livre para refletir sobre meu senso de humor e minhas influências.
De repente os novatos estão jogando fora algo que também ficaria bom se desenvolvido.
Já tentei definir meu trabalho como “experimental”, mas não é um termo que me satisfaz, pois o meu trabalho é simplesmente o resultado de necessidades: da necessidade de passar a mensagem com limitações técnicas de desenho.

Creio que quase todo quadrinista já deparou com essa dificuldade: numa hora imaginar um tema que podria ser legal e não conseguir inventar nenhuma história para ela, ou de ter um história mas não saber o que desenhar, ou de ter um desenho legal mas não saber em que história colocar. Encontrar um equilíbrio é difícil, muitas vezes acontece de pensarmos muito num aspecto e acabar não conseguindo fazer outros.
Eu encontrei o meu equilíbrio entre esses elementos, e agora que domino um pouco mais do processo de transformar uma idéia em história completa, pretendo fazer coisas mais sofisticadas em parceria com outros artistas, pois é chato pedir para outros desenharem só passando uma vaga idéia e faltando definir um monte de coisas.

Dependendo do que você aborda, já é quase automático definir o cenário ou os personagens. Como vira e mexe abordo questões complicadas, muitas vezes demoro muito só para definir essas coisas aparentemente simples.

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Influências

Minha primeira influência (ainda criança) foi Ziraldo. Feliz ou infelizmente não fiquei encantado por traços muito complexos. Nessa fase mais adulta, André Dahmer foi essencial, sem ele não teria explorado os quadrinhos da forma que explorei.

Mas após esse estímulo passei a olhar outras referências como Henfil, Samanta Floor, e tudo o mais que a gente achar interessante isoladamente, como alguns trabalhos do Pasquim, dos fanzines independentes, e até algumas ilustrações, pinturas e outros (sejam arte contemporânea, xilogravura, desenhos de computador, etc).

Como norte, quero algum dia fazer trabalhos como de Joe Sacco ou Art Spigelman.

Além desses que a gente busca incorporar, a gente também vai definindo os que fazem contraste com os nossos trabalhos. Por exemplo, de Gazy Andraus não vejo o que incorporar, mas me inspiro no jeito como ele tenta colocar nos quadrinhos o que ele chama de fantástico-filosófico. Eu eu tento colocar algo como satírico-sociológico.

É muito diferente: o que ele produz tem poucas palavras até por influência do haikai, enquanto que o meu tem muito texto… mas vejo um esforço parecido.

Já do Latuff, Bira Dantas, Baraldi, etc, também identifico que temos em comum uma tentativa de levar os temas da militância social, mas nossos estilos são diferentes. Eu não uso (até por limitação do traço) a caricaturização e sou menos maniqueísta.

Mas maniqueísmo é uma questão de escolha: tem uns trabalhos maniqueístas que adoro, mas é como eu disse, admiro Sacco e Spigelman, e nas obras deles o bem e o mal não são tão preto no branco. Tanto que em Maus, do Spigelman, tem os gatos e ratos, mas não necessariamenete um representando o bem e outro o mal.

Alías, só para comentar: no Dahmer o mal é extremamente mal, não tem o lado extremamente do bem para contrabalançar, então é uma outra variável do maniqueísmo. Já na Samanta Floor é o contrário e não existe o lado mal.

Pode não ser bem um maniqueísmo mas tem uma simplificação aí, uma simplificação que nao pode entrar nas séries-reportagens do Sacco. Imagine ele falando da Palestina dessa maneira?

Meu universo é assim: quando trato de fatos e pessoas, se aproxima mais de Sacco. É o que tentei com a série “Mensagem a Obama”. Mas quando se trata de abstrações e personagens fictícios, está aberta àquela variável de maniqueísmo do Dahmer. Em Crise e Guerra deixei os planejadores da guerra tão maus quanto os Donos do Mundo de Dahmer. E do mesmo modo posso deixar bem caricatos os jornalistas golpistas da série Arrevista.

Tem momentos que misturo um pouco as coisas: personagens da Arrevista interagindo com
situações e pessoas reais, mas quase sempre respeitando esse critério de não maniqueizar ou caricaturizar muito as situações reais. Só abro exceções quando me parece muito óbvio por exemplo que Bush é ruim ou que Israel fez ataques covardes. Mas vejam só: mesmo assim tem gente que reclamou do que falei de Israel, então tomo cuidado.

Olhando para trás, tinha me aproximado de abordar o real para poder colocar minha crítica nela, mas outro dia vi uma dos Malvados (Dahmer):

“Assassinos! Vamos matar todos eles” e o malvadinho com uma arma na mão.
Achei aquilo perfeito como mensagem para os líderes mundiais. É genérico, não fala de que lado se refere, e dá o recado. Se eu tivesse simplificado dessa maneira a questão da Palestina teria me dado menos dor de cabeça!

Conseguir colocar os pormenores dos interesses de um lado e outro é trabalhoso. Sacco consegue, mas eu não tenho tanto talento quanto ele!

Mas por outro lado, as pessoas parecem muito cabeças-duras então tem coisas que me sinto quase no dever de dar nome a alguns bois. Só pode ser cabeça-dura! Inúmeros artistas de ficção-científica fizeram verdadeiras obras-primas contra a guerra e a favor da preservação da natureza. Gerações cresceram vendo isso e mesmo assim falam da necessidade
armamentista e de não precisarem combater a mudança climática!

Deve ter criado um paradoxo na cabeça delas: precisa aparecer o vilão dessas histórias para eles se lembrarem? Tipo aparecer o Galactus para sugar recursos naturais para aí lembrarem disso? Ou acontecer uma explosão que nem dos mangás de Katsuhiro Otomo para serem contra a guerra?

É a maior loucura, mas aquele final de Watchmen tem todo sentido: as pessoas só acordarem quando uma ameaça que julgavam fictícia aparecer. Alexandre, o Grande, conseguiu unir povos pois mexeu na imaginação deles e colocou o sonho de uma grande nação. O que Ozymandias conseguiu é também mexer no imaginário das pessoas para deixarem de lado um confronto nuclear.

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Público

Algum público existe… Para colocar numa categoria, seria a dos temas sociais, mas dentro dela o público do Dahmer não é o do Baraldi ou Bira, que não é o exatamente o mesmo do Latuff, que não é o mesmo do Sacco. Pelo que converso por aí, o meu público também não é exatamente o mesmo deles.

De qualquer forma, não encontrei ainda um nicho da qual poderia tirar meu sustento, tô tentando procurar e constatando que meu quadrinho ou tem de mudar ou tem de encontrar um cantinho engraçado, pois algumas publicações que procurei e que não publicam quadrinhos parecem ter entendido mais da minha proposta do que as que publicam e já esperam uma coisa no esquema a que estão acostumados, ou seja, charge, caricatura, cartum.

Eu acho graça dessa situação, quem está acostumado com quadrinhos, reclama que tem muito texto e pede mais sintetização através da imagem. Quem não está, é mais aberto para a densidade do texto e e reclama que faltou explicar melhor tal detalhe (o que exigiria ainda mais texto).

Quando uso citações, por exemplo: teve gente que achou absurdo, teve gente que achou
legal. Mas na hora H o que preciso é de quem tope publicar, e como quem entende não publica quadrinhos e quem não gostou não colocaria no meio dos quadrinhos já existentes, fico sem espaço apesar de haver gente dizendo que gostou muito. Um dos meus orgulhos é que às vezes vou para passeatas e atos e distribuo meus quadrinhos em forma de panfleto.

Os panfletos dos outros, de puro texto são logo jogados no chão, e os meus o pessoal guarda. É ai que está a minha chance, mas precisaria que o meio editorial perceba.

Dedo Zuka

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