Profissionais dos quadrinhos falam sobre a importância da data para a produção nacional de quadrinhos

Hoje, 30 de janeiro, é dia de todo amante do quadrinho nacional comemorar. Há mais de 30 anos foi decretado no Brasil “O Dia do Quadrinho Nacional”. Sim, a data existe e está no calendário oficial do País. O Impulso HQ conversou com nomes importantes das HQs nacionais, seja para produção, história ou divulgação, para entender melhor a data, como ela reflete na produção nacional e quais os caminhos que a nona arte brasileira está seguindo.

Passado

Para chegar à data específica não foi fácil. Quem conta a história de como 30 de janeiro se tornou o Dia do Quadrinho Nacional é José Alberto Lovetro, mais conhecido como Jal, que em 1984 integrava a diretoria da Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo (AQC-SP).

“Fizemos uma pesquisa sobre o quadrinho no Brasil e descobrimos que o Angelo Agostini tinha sido um pioneiro no mundo na publicação de quadrinhos com ‘As aventuras de Nhô Quim – ou impressões de uma viagem à côrte’ iniciada em 30 de janeiro de 1869 no semanário revista Vida Fluminense. Muito antes do marco considerado anteriormente ‘Yellow Kid’ de 1895.”

De acordo com Jal, as pesquisas revelaram que Ângelo Agostini já havia antes publicado quadrinhos em São Paulo no jornal “O Cabrião” que eram histórias de reportagem do jornal, mas “As aventuras de Nhô Quim” tinha um personagem e tinha duas páginas publicadas por semana em continuação. Portanto a primeira “graphic novel” do mundo. Antes de Ângelo Agostini já havia a publicação de 1833 de Rodolphe Töpffer com seu livro “Histoire de Mr. Jabot”.

Depois de tanta pesquisa era o momento de oficializar o fato.

“Reunimos todos os documentos sobre a pesquisa e levamos para Brasília para o dia 30 de janeiro entrar no calendário oficial do Brasil como o Dia do Quadrinho Brasileiro. E instituímos o Troféu Angelo Agostini para marcar essa data. O Troféu existe até hoje, mesmo depois de criarmos nova associação brasileira de desenhistas (ACB – Associação dos Cartunistas do Brasil) por ter sido mantido pelo Worney Almeida de Souza após nossa saída da diretoria da AQC-SP.”

Jal ainda reforça que a pesquisa teve outra importância além de marcar o Dia do Quadrinho Nacional em nosso calendário. Os documentos registram o pioneirismo do Brasil na Nona Arte, e vai contra o argumento de que os quadrinhos começaram nos Estados Unidos em 1895 com Yellow Kid, o que, aliás, Jal aponta sendo como outro erro, afinal, Yellow Kid começou como charge e não como quadrinhos.

“Os americanos dizem que o marco é deles porque os textos de fala começaram a sair da base dos quadrinhos para dentro dos quadrinhos – nas vestimentas do “garoto amarelo” no caso. É o mesmo que dizer que o cinema mudo não era cinema e só quando teve som é que virou cinema.”
Presente

Mas depois de tanto tempo e ainda constando no calendário oficial do País, será que o Dia do Quadrinho Nacional é realmente importante? Quem responde isso é um dos maiores pesquisadores do Brasil sobre Histórias em Quadrinhos, Waldomiro Vergueiro.

“O Dia do Quadrinho Nacional tem importância para os produtores nacionais sim. Ele funciona como um sinalizador no sentido de mostrar que existe uma preocupação coletiva em fortalecer a produção de quadrinhos no país. É importante que todos os produtores tenham consciência de que o fortalecimento do quadrinho nacional é uma causa pela qual vale a pena lutar.”

Com anos dentro da área acadêmica pesquisando sobre a Nona Arte, Waldomiro lembra que o Dia do Quadrinho Nacional funciona também como uma oportunidade privilegiada para valorizar a produção nacional, reconhecendo os grandes produtores, enaltecendo a evolução dos nossos quadrinhos e destacando aspectos que podem e devem ser fortalecidos.

Sendo assim, é fácil de questionar sobre o real mercado. Com mais de 145 anos passados da publicação de Nhô-Quim, com o Brasil pioneiro na nona arte, historicamente porque não temos uma indústria forte de quadrinhos nacionais?

Para Waldomiro, precisamos ter cautela com essa indagação. O pesquisador aponta que a indústria de quadrinho nacional existe sob o aspecto histórico, mas devido às condições da produção nacional em relação à produção estrangeira, à dificuldade dos nossos quadrinistas poderem se dedicar integralmente ao meio, à desvalorização dos quadrinhos no país, às dificuldades de distribuição, ao baixo poder aquisitivo da população, etc., são barreiras que impedem o fortalecimento da produção.

“Podemos dizer que indústria de quadrinhos nacional – no sentido de produção de quadrinhos de forma industrial -, só conseguimos atingir uma posição mais forte no que diz respeito aos quadrinhos infantis, com a obra de Maurício de Sousa. Reconheço que é pouco. No entanto, é preciso não perder de vista que, nos últimos anos, a produção nacional de quadrinhos cresceu de forma bastante significativa, tanto em quantidade como em qualidade. Se não temos ainda uma indústria forte do ponto de vista econômico, temos atualmente uma produção de quadrinhos pujante, dinâmica, em crescimento constante, com material de altíssima qualidade aparecendo a cada dia no mercado.”

Waldomiro é otimista e ressalta que se não temos uma indústria forte de quadrinhos nacionais, estamos caminhando para uma indústria com as dimensões necessitamos: uma indústria capaz de abrigar e incentivar os velhos e novos talentos, indo ao encontro das necessidades e das características de nossos leitores.

“Digo com segurança que a produção nacional de álbuns e graphic novels não fica nada a dever a produções em outros países. Vivemos uma das melhores fases de produção de quadrinhos no país.”
Futuro

Inegável que temos uma produção vasta e abrangente culturalmente, assim como nosso país, multicultural e com um tamanho de 8.516.000 km². Porém, toda essa extensão territorial também é um dos grandes entraves para o crescimento e fomento dos quadrinhos nacionais. Diante da dificuldade de distribuir o seu trabalho (algo corriqueiro não só pelos autores independentes, mas também pelas editoras) parece que o mercado achou uma resposta: o futuro ao digital pertence!

Quem reforça essa ideia é Marcelo Bouhid, Diretor de Marketing do Social Comics, plataforma de quadrinhos digitais.

“A HQ digital continuará sendo uma excelente forma de exposição dos autores nacionais. Os casos de obras que começam no digital e depois migram para o impresso têm se multiplicado, fomentando a indústria como um todo. A tendência nos próximos anos é que exista mais disponibilidade de obras e também que as diferentes mídias se conectem, criando uma experiência mais completa para o consumidor, no caso, o leitor. Produções fasciculadas, como por exemplo, revistas mensais, tendem a migrar cada vez mais para o digital, deixando as coleções e encadernados para a parte impressa.”

O Social Comics possui hoje quase 4.000 obras em seu acervo. Desse total, aproximadamente 85% constitui-se de HQs nacionais. A empresa nos últimos anos investiu pesado na produção nacional, criando conteúdo próprio e até selos de quadrinhos e, de acordo com Marcelo, o Social Comics continuará investindo na HQ nacional digital.

“A plataforma entende seu papel no contexto editorial brasileiro e trabalha na profissionalização crescente do mesmo. Muitos artistas que estão na plataforma tem se mostrado cada vez mais proficientes no digital, criando obras diretamente para esse tipo de veículo.”

Outro profissional que enxerga o digital como bom investimento futuro para a produção nacional de HQs é Flávio Aguiar, co-fundador da Dentro da História, plataforma online que para personalizar livros infantis, por meio da tecnologia, e permite que crianças sejam protagonistas de suas histórias preferidas.

Apesar da Dentro da História não atuar somente com Quadrinhos, a empresa tem entrado nessa tendência com personagens infantis do maior case nacional de quadrinhos: a Turma da Mônica.

“A arte de contar histórias nunca foi tão importante como nos dias atuais. A tecnologia vem permitindo uma diversificação na maneira e nas plataformas usadas para contar histórias, aventuras e jornadas. Os quadrinhos foram de tirinhas de jornal, para telas de cinema, para as telas dos celulares, nas mãos de cada pessoa. O fato de estar cada vez mais próximo e sob demanda para quem adora quadrinhos, livros e histórias, com certeza abre chance para que essa proximidade gere interatividade, transformando tudo de novo. Estar dentro de histórias é a tendência.”

Importante observar que iniciativas como o Dentro da História ajudam a formar o futuro leitor. Flávio revelou que o perfil que mais acessa a plataforma hoje são jovens mães, com crianças de até 8 anos de idade, e os apaixonados pelos personagens significam um acesso relevante porque acabam presenteando crianças próximas com livros personalizados.

Flávio não nega o viés didático da plataforma e afirma que houve um estudo profundo sobre o comportamento e a psicologia infantil, com apoio de especialistas da área para que fosse criado algo de valor para as crianças.

“Temos um viés educacional: nós transformamos a maneira como as crianças interagem em histórias em livros. O protagonismo que a tecnologia viabiliza permite que crie-se um livro DA CRIANÇA, com a história DELA, ajudar na retenção de conhecimento e também deixa o processo de aprendizagem da leitura muito mais fácil, rápido e divertido.”

Flávio foi cauteloso quanto a adição de autores independentes de histórias em quadrinhos na plataforma. Segundo o co-fundador da Dentro da História as boas parcerias com as empresas de conteúdo, como a Mauricio de Sousa Produções, o fazem acreditar que haverá bons projetos e oportunidades para serem explorados.

Mas isso não significa que o quadrinho nacional não tenha o seu espaço dentro do mercado brasileiro de publicações ou que a única saída é o meio digital. Quem afirma isso, é o próprio Marcelo Bouhid, da Social Comics.

“A qualidade e a quantidade das HQs nacionais só cresceu nos últimos anos, e essa evolução vai continuar. O Artist’s Alley da Comic Con Experience comprova isso, com centenas de artistas expondo e vendendo suas obras a pessoas de todo o país. Outro ponto interessante é o fato de grandes editoras, como a Panini, incluírem em seu acervo obras que começaram no circuito dito “independente”, como as HQs do coletivo Stout Club e os álbuns do jovem cão Valente, do Vitor Cafaggi.”

Com o quadrinho digital se tornando uma grande vitrine de muitos autores independentes, várias perguntas começam a surgir. Com tamanha concorrência, como se destacar? Há um segredo? Uma trilha fácil a se percorrer? Marcelo Buhid dá algumas dicas aos leitores do Impulso HQ, e lembra que a dinâmica no digital é relativamente diferente da do impresso.

“Primeiramente, o quadrinista independente precisa contratar um editor ou pelo menos um revisor. Isso é importante para que sua HQ mantenha um nível de qualidade próximo ao satisfatório. Além disso, o quadrinista que publica digitalmente deve encarar-se como um vendedor. Não basta que o artista faça o upload dos arquivos digitais em algum lugar e aguarde que as pessoas que estejam passando por ali leiam sua HQ. Ele precisa manter uma régua de relacionamento com seus leitores, atuais e potenciais, e divulgar seu trabalho de forma consistente. Há excelentes exemplos nesse sentido, que criam todo um “buzz” antes de sua nova obra ser lançada, postando páginas, sketches e tudo mais. Uma vez publicada a HQ, pedem impressões de críticos e leitores comuns, sempre divulgando o que se fala da obra, e incluindo a mesma em outras formas de ativação.”
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A história do Dia do Quadrinho Nacional de certo ainda está longe de acabar. Hoje além da AQC-SP também existe ACB – Associação dos Cartunistas do Brasil -, criada por Jal e Gualberto Costa para representar o desenhista brasileiro em lutas de mercado, além do Troféu HQMIX, que neste ano completa 30 anos de existência, premiação máxima do quadrinho brasileiro e que anualmente prestigia o trabalho dos profissionais da nona arte em todo território nacional.

Graças a profissionais que nunca desistiram dos quadrinhos, o Dia do Quadrinho Nacional é uma data oficial e como muito bem lembra Jal, “o importante é que o dia do Quadrinho Brasileiro vingou e hoje em dia é comemorado em todo o território nacional tornando-se a data mais importante, pela mídia em geral, para comemorar a produção de quadrinhos no Brasil e seus autores.”

Parabéns a todos os produtores de quadrinhos no Brasil seja você roteirista, desenhista, arte-finalista, colorista, letreirista, editor, tradutor, e etc. Hoje, 30 de janeiro, é o seu dia de comemorar!

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/01/quadrinho-nacional-30-de-janeiro-3.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/01/quadrinho-nacional-30-de-janeiro-3-150x150.jpgRenato LebeauartigosAngêlo Agostini,Dentro da História,Flávio Aguiar,José Alberto Lovetro,Marcelo Bouhid,Quadrinho Nacional,Social Comics,Waldomiro Vergueiro,Worney Almeida de SouzaProfissionais dos quadrinhos falam sobre a importância da data para a produção nacional de quadrinhos Hoje, 30 de janeiro, é dia de todo amante do quadrinho nacional comemorar. Há mais de 30 anos foi decretado no Brasil “O Dia do Quadrinho Nacional”. Sim, a data existe e está no calendário...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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