Com desenhos do cenário virtual de Elloar Guazzelli, montagem marca a estreia dos irmãos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá como dramaturgos

No palco, duas telas exibem elementos cenográficos com os quais os atores interagem, proporcionando ao público a sensação de assistir a uma animação em 3D. Inédita no Brasil, a técnica faz parte do espetáculo “Os 3 Mundos”, primeira peça escrita pelos premiados quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, que estreia dia 26 de agosto no Teatro do Sesi-SP, às 19h, com entrada gratuita.

O enredo de “Os 3 Mundos” se passa em um universo fictício, em um futuro aparentemente distante, habitado por dois grupos antagônicos. De um lado, o Culto da Serpente, liderado por Lachesis (Paula Picarelli), é formado por praticantes de kung fu que vivem no subsolo do metrô. Do outro, Acônito (vivido por Thiago Amaral) lidera o Mundo das Máscaras por meio da força e do medo. Os dois líderes entram em confronto ao defender círculos e crenças necessárias para a manutenção da ordem entre seus seguidores (Tamirys Ohanna, João Paulo Bienemann, Alice Cervera, Artur Volpi, Rafael Érnica e Luciene Bafa).

O diretor Nelson Baskerville (Prêmio Shell de Direção de 2011) reforça a distinção entre as duas personagens principais da peça: “Lachesis parece muito com uma personagem da DC por viver esse contexto mais sombrio e sôfrego. Ela chora pela pessoa que acabou de matar porque sente que cumpriu com sua obrigação. Já Acônito carrega a hipocrisia do mundo, tem consciência plena da sua maldade”.

Para dar o tom pós-apocalíptico e inserir a estética das histórias em quadrinhos no teatro, o Estúdio BijaRi (Prêmio Shell 2016 pelo cenário de Adeus Palhaços Mortos) ficou responsável pela animação e projeção. Maurício Brandão, que coordenou esta frente da montagem, comenta sobre o desafio de criar um cenário que tem relação direta com cada ação das personagens. “É um híbrido de teatro, cinema e histórias em quadrinhos. Toda operação das animações acontece em tempo real para garantir a sincronia dos movimentos. Por termos uma caixa cênica não tradicional, é possível criar planos, recortes e animações não praticadas até agora no teatro, por exemplo”.

Para o diretor, as distopias aproximam o público da ideia de que a destruição do mundo como o conhecemos não é uma ideia tão distante assim. “Estamos lidando com uma linguagem próxima das histórias em quadrinhos, então há exageros e emoções exacerbadas, mas existe ali uma potencialização do que já estamos fazendo enquanto sociedade. O mundo pode sim ser devastado pelo dinheiro ou por radicalismos religiosos, por exemplo”, afirma Nelson.

As ilustrações, que posteriormente foram animadas, são de autoria do ilustrador e quadrinista Guazzelli. O cenário é 100% digital e divide espaço apenas com os atores e alguns poucos elementos cênicos, como acessórios carregados pelas personagens e uma plataforma, que mantém o personagem Acônito em um plano superior, já que sua participação acontece principalmente em cima de uma torre.

A ideia de criar uma peça com esses elementos foi de Paula Picarelli, que, a princípio, se inspirou no romance 1Q84, do escritor japonês Haruki Murakami. “Eu tenho uma ligação forte com artes marciais, que pratico há mais de vinte anos, e o livro tem a ver com esse universo e também com uma seita religiosa, outro assunto de grande interesse para mim”, conta a artista.

Para colocar as ideias no papel, ela convidou Fábio Moon e Gabriel Bá para escrever a peça. “Eles agregam aos quadrinhos histórias sensíveis e muito pessoais, daí a importância de eles assinarem um texto que se passa na estética desse universo que eles já dominam”, diz Paula. Para ela, também foi fundamental convidar Nelson para assumir a direção, já que o artista tem especialidade na linguagem cênica, e Daniel Gaggini, que além de ser produtor teatral, é produtor audivisual. “São pessoas de diferentes mídias trabalhando e se desafiando juntas o tempo inteiro”, conta a artista. “Encontramos no Sesi interesse e ousadia para investir no projeto, que propõe um entretenimento de alta qualidade para o grande público. O Sesi apostou na ideia e garantiu as condições necessárias para o desenvolvimento do espetáculo”, complementa Paula.

Na peça, não faltam referências da cultura pop para a composição de cenário e figurino. Maurício Brandão, do BijaRi, destaca o clima expressionista da cidade retratada no Mundo das Máscaras, bastante inspirada na cidade futurista de Metrópolis, filme de 1927, dirigido por Fritz Lang. A história em quadrinhos Maus: A História de um Sobrevivente, ambientada no período da Segunda Guerra Mundial, que retrata os judeus como ratos e nazistas como gatos, também integra o rol de referências do estúdio.
Outra fonte de inspiração são os filmes do ator e lutador chinês Bruce Lee (1940 – 1973) na composição do figurino e também nos movimentos de artes marciais aplicados nas coreografias criadas por Luis Pelegrini.

Sobre uma possível moral ou mais informações sobre o terceiro mundo, Paula prefere deixar a cargo do público a reflexão a respeito do que as civilizações humanas têm feito até agora. “As histórias que contamos sobre o passado também são ficções e nos aliamos àquelas pelas quais temos afeto”, finaliza.

Os 3 Mundos

Temporada: 26 de agosto a 9 de dezembro de 2018
Quinta a sábado, às 20h e domingo, às 19h
Classificação Indicativa: 14 anos

Grátis. Reservas antecipadas de ingressos on-line pelo site www.centroculturalfiesp.com.br. Ingressos remanescentes são distribuídos nos dias do espetáculo, conforme horário de funcionamento da bilheteria (quinta a sábado, das 13h às 20h30, e aos domingos, das 11h às 19h30).

Teatro do Sesi-SP – Centro Cultural Fiesp
Avenida Paulista, 1313 – Bela Vista (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
São Paulo – SP

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