Ansiosamente aguardado por fãs e pelos quadrinhistas, a segunda edição do Rio Comicon aconteceu entre os dias 20 a 23 de outubro e levou para a Cidade Maravilhosa ícones dos quadrinhos nacionais e internacionais. Vale frisar que não só pela qualidade dos convidados, o evento foi destaque na mídia local e nacional, ganhando a primeira página do jornal de cultura e tendo matéria no Fantástico.

A abertura oficial foi iniciada às 10h40 com uma confraternização entre alguns convidados e com um discurso de Roberto Ribeiro, diretor da Casa 21, empresa que organiza o evento, dentro do auditório das palestras. Roberto agradeceu os presentes e lembrou que desde 1993 o Rio de Janeiro não recebia um evento de grande porte de quadrinhos e cultura pop durante dois anos seguidos.

Roberto Ribeiro fez questão de lembrar a memória de Sergio Bonelli, que faleceu em 26 de setembro desse ano, e da sua grande contribuição aos quadrinhos. Pela sua paixão e por seu trabalho Bonelli foi considerado cidadão carioca pela câmera de vereadores do Rio de Janeiro.

Depois dos agradecimentos aos apoiadores e patrocinadores, Roberto deu lugar ao cônsul da Itália e do cônsul da educação e cultura dos E.U.A. no Rio de Janeiro. Ambos comentaram a importância dos quadrinhos e como apoiaram de imediato o evento. O consulado da Itália apoiou a exposição de Guido Crepax, um dos grandes nomes do fumetti, e do vestido de Caterina Crepax, filha do quadrinhista italiano. O consulado americano apoiou a exposição O Espírito Vivo de Will Eisner, que continha 106 trabalhos originais de um dos mais fundamentais profissionais da indústria da HQ mundial.

E falando do espaço físico, a Rio Comicon também merece ser elogiada. A Estação Vila Leopoldina é grande e conserva um charme histórico, tem um ambiente propício para um evento de quadrinhos e cultura pop, e os organizadores ainda fizeram a excelente aposta de saber utilizar bem o espaço com as exposições e estandes ao redor do pátio central. A utilização das plataformas dos antigos trens também é uma ideia boa.

O único, porém foi a colocação dos independentes em uma dessas plataformas. Com tamanho espaço os visitantes se concentravam mais no pátio central onde estavam as exposições de Will Eisner, Crepax, e alguns stands de venda de quadrinhos. Até chegarem no final da plataforma dos independentes, onde estava também situado o balcão de informação do Rio Comicon, os visitantes já estavam cansados e sem muito ânimo para conhecer a produção independente, o que pode ter prejudicado a divulgação e venda desses quadrinhistas.

A tarde de quinta-feira foi bastante tranquila, o que possibilitou uma visita detalhada a cada exposição, quem foi nesse dia teve tempo para aproveitar com calma o belo espaço dedicado a Guido Crepax e a sua mais famosa personagem Valentina. Com uma ambientação com um ar de luxúria com cortinas lilases e luz néon, os visitantes puderam apreciar as artes de Crepax e o fabuloso vestido de papel feito por Caterine.

Para os fãs de Eisner, com certeza O Espírito Vivo de Will Eisner agradou. Quem não conhecia ou sabia pouco sobre a arte desse grande mestre pode ficar maravilhado com os originais, algumas relíquias e é claro a estátua do seu mais famoso personagem, o Spirit.

Os dias mais concorridos em termos de público foram sábado e domingo, mas devido ao grande espaço, andar e ter lugar para sentar não era algo impossível de se fazer.

Um grande destaque que merece ser apontado é o ambiente geral em sua versão noturna. Ficou claro a preocupação da organização de como seria a Estação Vila Leopoldina durante a noite, e o capricho com as luzes deram um outro clima, favorecendo ainda mais as exposições e o pátio central.

Outra preocupação da organização foi em relação à programação. Durante os quatro dias de eventos foram entregues folhetos com tudo o que iria acontecer em determinado dia, e é claro em um evento de HQ, toda a programação era na linguagem dos quadrinhos. A arte foi realizada por Daniel Gnattali, o mesmo quadrinhista que fez a cobertura da edição passada em quadrinhos.

E falando em programação, as palestras realizadas durante o evento foram todas de alto nível. A variedade de temas que envolvem quadrinhos foram bem aproveitada e os convidados não desapontaram o público.

A escolha dos mediadores também foi um acerto. Vieram preparados e com um roteiro de perguntas que instigavam os debates, como caso de Marcelo Yuka que mediou a mesa de Quadrinhos e Cultura pop com os quadrinhistas Heitor Yida, Marcelo D’Salete, Mateus Acioli e Rafael Moralez, todos com a urbanicidade como tema comum, o que foi muito bem aproveitado por Yuka. Assuntos como a cidade como personagem central de uma HQ, o grafite, afixia urbana e periferia estiveram em pauta.

Outro mediador que também foi pontual e deixou as palestras mais dinâmicas foi Carlos Patati. Sua presença em alguns debates como “Do underground às adaptações literárias”, com a presença de Denis Kitchen e Peter Kuper, foi muito útil para aqueles momentos em que o público se mantinha tímido para perguntar algo aos convidados.

Além da importância desses dois grandes nomes dos quadrinhos internacionais, um grande momento desse debate foi Kitchen contar mais sobre a sua carreira de editor e dar dicas para quem quiser seguir esse caminho: “Nunca soube que eu seria editor até eu me tornar um. Na realidade foi um acidente de percurso. Criei um outro sistema de distribuição e vi que tinha aptidão para o negócio de lidar com as lojas. Me orgulho do meu trabalho como artista, mas ver a estante cheia de livros que eu editei também me emociona”, disse Kitchen.

“Precisamos conquistar as Américas?”. Essa foi a grande questão no debate “A conquista das Américas” com a participação de Danilo Beyruth e Rafael Albuquerque. Ambos os quadrinhistas têm trabalhos publicados aqui no Brasil e lá fora, tendo Rafael até ganho um dos mais importantes prêmios, o Eisner Awards 2011 pela série American Vampire. O quadrinhista revelou que entende os E.U.A. como um mercado já estabelecido e bem explorado, por isso a sua opção de mandar o seu material para lá, e que no Brasil ainda está inviável os profissionais viverem só de HQ, e ressaltou a importância de ir para as convenções internacionais e conversar com os editores de lá, se a sua intenção é seguir o mesmo caminho que ele e muitos outros artistas brasileiros que publicam lá fora.

Enquanto aconteciam os debates, muitas outras atividades simultâneas estavam a todo vapor, como as oficinas de desenho, sessão de autógrafos e uma iniciativa bem bacana que era a plataforma dos desenhistas. A atividade consistia em deixar os convidados em uma das plataformas da estação desenhando para os visitantes. Ótima ideia. Isso além de atrair público para conseguir um desenho do seu artista favorito, possibilitou a aproximação entre os leitores e quadrinhistas.

No Rio Comicon também teve espaço para falar difícil sobre HQs, ou melhor dizendo, falar de maneira mais acadêmica. Foi o 1º Colóquio Internacional Filosofia e Quadrinhos, que reuniu pesquisadores, mestres e doutores em história em quadrinhos para dialogar sobre HQs e filosofia. Para quem acha que isso afastou o público se engana, pois às 10h do sábado o auditório já tinha um público considerável e mostrando-se interessadíssimo pelo tema.

E mais uma vez apostando na variedade temática e das possibilidades do uso da linguagem dos quadrinhos, no Rio COmicon também teve espaço para uma palestra que tratou justamente sobre os caminhos digitais da HQ com a participação de Dan Goldman e Ulli Lust. Os dois falaram sobre o seu trabalho com quadrinhos em um ambiente digital e como conseguir se sobressair nesse mercado que tem muito a oferecer e a evoluir. E Goldman deixou o seu recado: “Barato é melhor que grátis”.

E é claro que grandes eventos também não estão livres de imprevistos, e infelizmente o quadrinhista Paul Pope cancelou de última hora a sua vinda para o Brasil. A sua palestra foi substituída pelo bate-papo entre Rafael Grampá e Mauro Lima, sobre a adaptação da HQ Mesmo Delivery para o cinema. Mesmo o projeto em estado embrionário, como bem frisou Grampá, a conversa fluiu bastante em torno das dificuldades e barreiras que o diretor escolhido, Mauro Lima, teria pela frente em levar para as telonas uma história tão dinâmica como a Mesmo Delivery.

Mauro Lima, diretor de meu nome não é Johnny e atualmente à frente da cinebiografia de Tim Maia, revelou que o plano é começar mesmo o projeto a partir do segundo semestre do ano que vem, que agora eles estão definindo as ideias iniciais e qual será o tom do filme. Tanto Grampá como Mauro Lima deixaram claro que o que veremos no cinema não será a Mesmo Delivery dos quadrinhos. “A HQ é um pedaço do arco dramático, é um pedaço da história. Coisas que aconteceram antes e o que acontecem depois estamos vendo agora”, disse Grampá.

Sem revelar muita coisa do que já foi pensado, o quadrinhista revelou que sendo a Mesmo Delivery uma transportadora, ela pode ter uma equipe, e isso o motiva a esboçar personagens singulares e interessantes. Um dos problemas que Grampá já adiantou que a produção vai enfrentar é o fato do personagem Sangrecco ser fã de Elvis Presley, e que os direitos das músicas do cantor seriam um empecilho. “Pode ser que Sangrecco vire um fã do Erasmo Carlos”, brinca Grampá, que também informou que eles ainda nem pensaram em elenco.

O roteiro está sendo desenvolvido em parceria entre Grampá e Mauro Lima, e o diretor deixou claro: “Não vai ser os quadrinhos no cinema e a violência gráfica não é o tom para mim. Transpor exatamente a HQ para o cinema corre o risco de não ficar bom”.

“- Sr. Claremont, você se habilitaria em escrever o Aquaman e salvar as histórias do personagem?
– Save who?
– Salvar o Aquaman!
– Save who?”

Parece mentira, mas sábado a Rio Comicon proporcionou aos fãs de quadrinhos um momento inesquecível. Finalizando o terceiro dia a palestra mais aguardada era com o ícone dos quadrinhos internacionais Chris Clameront, que alcançou o sucesso a frente dos mutantes da Marvel Comics, os X-men.

O diálogo acima foi entre Rodrigo Fonseca, mediador do bate-papo, e Clameront para finalizar a quase uma hora em que o roteirista que praticamente fundamentou todo o universo dos mutantes como é conhecido até hoje compartilhou com os presentes.

Clameront falou sobre a sua trajetória e como foi parar nos X-men, revelou como foi matar a Jean Grey pela primeira vez e trazê-la de volta, mas deixando claro que por ele, a personagem continuaria morta, foi uma decisão editorial da Marvel.

Como era de se esperar o bate-papo, e as perguntas foram focadas no universo mutante e Clameront explicou porque acha o Wolverine uma mina de ouro para qualquer roteirista, como é natural pensar que Magneto deveria ser o novo Professor X e assumir a liderança dos X-men e como é contra a ideia de ressuscitar os mortos: “Eu não vi ainda ninguém voltar depois de morto. Teve um que falam que voltou há 2010 anos, mas só. Isso deveria se aplicar nos X-men”, comentou Clameront que explicou que os leitores sofrem por causa de seus personagens favoritos e que são impactados com essas situações. Para o roteirista é um horror trazer um personagem de volta, pois ele transforma aquele impacto que o leitor teve em piada.

Sobre escrever histórias em quadrinhos para adultos Clameront revelou que sente inveja de Alan Moore, Neil Gaiman e Frank Miller, mas completa: “Eu vendi mais que eles, uma coisa não exclui a outra. Contamos histórias na expectativa que vocês amem como nós amamos”.

Depois de um bate-papo memorável o sábado finalizado com muita risada depois do comentário de Clameront sobre o Aquaman.

Infelizmente no domingo, último dia do Rio Comicon, a equipe do Impulso HQ não pode estar presente. Mas pela sensação tudo prometia ser uma cópia de sábado, com a visitação maior de público e ter mais a participação dos cosplayers que só começaram a dar as caras no sábado. Pelo que averiguamos foi exatamente isso que aconteceu, o público esteve presente e participativo.

A organização do Rio Comicon já divulgou um balanço sobre os quatro dias do evento que teve 15 mil visitantes, número igual à edição anterior, mas que se transforma em uma vitória quando analisado que em 2010 a convenção teve seis dias de duração. Para a próxima edição já foi divulgado que o tema será o meio ambiente.

Não foi a toa que a primeira edição do Rio Comicon ganhou o Troféu HQMIX de melhor evento sobre quadrinhos de 2010, e deu para sentir como essa edição fez também um trabalho para ser forte concorrente para o ano que vem. Em um ano tão cheio de eventos e atividades sobre quadrinhos com certeza o Rio Comicon garante o seu lugar entre as convenções mais importantes do País, deixando um gosto de quero mais. Com certeza já tem fã esperando a edição de 2012.

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Renato Lebeaucobertura de eventosRio ComiconAnsiosamente aguardado por fãs e pelos quadrinhistas, a segunda edição do Rio Comicon aconteceu entre os dias 20 a 23 de outubro e levou para a Cidade Maravilhosa ícones dos quadrinhos nacionais e internacionais. Vale frisar que não só pela qualidade dos convidados, o evento foi destaque na...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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