Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil-10Nunca antes na historia da mídia nerd, a representatividade feminina foi tão discutida. Não apenas antigos clichês e posturas misóginas dos quadrinhos (e filmes, games, livros…) mainstream tem sido colocados em cheque como também o talento e trabalho de mulheres em vários campos artísticos tem, aos poucos, conquistado seu espaço.

Claro, não é de hoje que as mulheres protestam, contestam e, acima de tudo, produzem quadrinhos incríveis e dentro inúmeras artistas que percorrem esse caminho de tinta e papel se destaca a figura de Trina Robbins. Quadrinista proeminente do mercado underground nos anos 60 e 70, Trina também trabalhou para as grande editoras e foi co-criadora do design da personagem Vampirella. Hoje é uma renomada pesquisadora e historiadora, autora de livros sobre mulheres e quadrinhos.

Trina é uma das convidadas das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, o maior congresso HQs da América Latina organizado pela USP e que rola em agosto, mas graças a parceria entre a ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial) e do CCSP (Centro Cultural São Paulo, órgão da Prefeitura de São Paulo) ela pode participar de um bate-papo com fãs e artistas nacionais no último dia 19/8 na Gibiteca Henfil.

Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil-8O número de participantes para o evento era bem pequeno, apenas 30 vagas foram disponibilizadas, o que deu um ar bem intimista entre os presentes especialmente com a chegada de Trina, uma senhora sorridente e extremamente amável. Após as apresentações iniciais, ela falou de sua carreira, trabalhos e um pouco sobre sua vida pessoal. Aprendeu a ler e escrever bem cedo, e lembra que ditou seu primeiro poema original aos três anos. Publicou sua primeira HQ em 1966 e seu estilo tinha aquele pegada bem anos 60, com personagens como Kid Karma. Trina ainda se vê como uma hippie que acredita na paz e o amor acima de tudo.

Naqueles anos, num mercado predominante masculino, obviamente sua opinião não era popular especialmente em São Francisco, berço de inúmeras publicações alternativas como a lendária Zap Comix de Robert Crumb e Don Donahue, que consideravam Trina e outras artistas contestadoras como mulheres sem humor. E do período em que vivia em São Francisco relembrou de pequenos casos, envolvendo a Zap (quando, ironicamente, seus criadores pediram sua ajuda), Crumb (ele fez uma HQ atacando uma amiga de Trina) e um pôster criado por ela com a imagem de Angela Davis, na época perseguida pelo FBI por sua suposta ligação com os Panteras Negras, que indicava locais onde a feminista poderia conseguir abrigo. Você é bem vinda, era a mensagem.

Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil-9Nos anos 70, Trina não era mais uma voz solitária no meio dos quadrinhos, e com um grupo de outras artistas publicou a primeira edição de It Ain’t Me Babe e em 1972 a icônica Wimmen’s Comix. A revista era tanto uma sátira como um grande veiculo de informações sobre feminino, direitos das mulheres e questões sociais. Também foi o lar de Sandy Comes Out, primeira HQ sobre uma personagem lesbica. Na década seguinte trabalhou para Marvel, em uma série de quadrinhos infantis, e a Mulher Maravilha para a DC. Seu envolvimento com pesquisadora e escritora surgiu do desejo de acabar com a discussão de que mulheres não gostam de quadrinhos e com intensa pesquisa resgatou a memoria de artistas da indústria dos comics. “Se você não escreve sobre algo, ele é esquecido. E essas mulheres foram esquecidas” disse Trina.

Dentre seus futuros livros está Babes In Arms: Women in the Comics During World War Two, um estudo sobre as desenhistas que assinaram inúmeras HQs produzidas no período da 2º Guerra Mundial, e The Wimmen’s Comix, uma antologia de trabalhos publicados anteriormente.

Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil-7Na segunda parte da palestra, Trina deu lugar as diversas mulheres presente, artistas e roteiristas, para falarem de seus trabalhos e suas vidas. Cris Peter e Ana Luiza do Estúdio Complementares. Camila Torrano, autora do Travessias. Germana Viana e as loucas historias de Lizzie Bordello e As Piratas do Espaço. Gabriela, ou melhor, Lovelove6 conversando seus projetos e das dificuldades que enfrentou até a publicação de Garota Siririca. Chantal Herskovic, criadora das tiras Juventude. Beatriz. Carolina Ito, indicada ao Troféu HQMIX pela web série Salsicha em Conserva. Mariamma Fonseca do site Lady’s Comics.

Trina ouviu suas historias e admirou seus trabalhos, assim como todos nós vimos e admiramos os seus. Eram tantos pontos em comum na vida de todas aquelas artistas, e também a certeza de que ninguém estava sozinha nessa jornada pelo reconhecimento e representatividade.

No fim da palestra, todos se sentiam bem vindos.

Galeria:

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/08/Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/08/Trina-Robbins-Gibiteca-Henfil-300x290.jpgLily Carrollcobertura de eventosGibiteca Henfil,Trina RobbinsNunca antes na historia da mídia nerd, a representatividade feminina foi tão discutida. Não apenas antigos clichês e posturas misóginas dos quadrinhos (e filmes, games, livros...) mainstream tem sido colocados em cheque como também o talento e trabalho de mulheres em vários campos artísticos tem, aos poucos, conquistado seu...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe