IMG_20141116_131136Durante a Brasil Comic Con a organização promoveu várias atrações simultâneas. O palco principal ficou focado em receber os convidados internacionais, concurso de cosplayers e outras apresentações. Porém, no segundo andar estava localizado o auditório, local que ficou concentrado a maior parte dos painéis sobre quadrinhos, com a presença de editores, artistas e outros convidados. Um desses painéis tratou da temática Mulheres nas HQs.

A atividade acontece no segundo dia de evento, 6 de novembro, das 13h às 14h e contou com as presenças de Priscilla Tramontano, Montserrat Montse, Ediliane Boff e Vicky Salles, que ficou no papel de mediadora.

O painel tinha como principal objetivo discutir o papel das mulheres no universo dos quadrinhos e as dificuldades que elas encontram no mercado de trabalho nacional e internacional. E a “bancada” foi bem representada. Priscilla é colorista de quadrinhos e trabalha para IDW Publishing, em títulos como Transformers, Godzilla e GI Joe (títulos bem masculinos) e ela conseguiu passar muito bem a sua experiência com esse mercado. Montserrat é uma das fundadoras do Studio Seasons que produz mangá nacional há 18 anos. Já Ediliane é autora da tese de doutorado “De Maria a Madalena: representações femininas nas histórias em quadrinhos” pela USP.

IMG_20141116_130513Bem conduzido por Vicky, a conversa inicialmente ficou centrada na experiência de cada profissional com o seu mercado de atuação. Priscilla que trabalha mais para o mercado norte americano disse nunca ter passado por uma situação constrangedora e afirmou que se tem uma coisa que ela aprendeu com esses anos de trabalho para o mercado de quadrinhos é que ela “não precisa de um pau para segurar um lápis”.

Montserrat também disse que teve mais experiências positivas do que negativas com os seus anos de trabalho com o mangá, um indústria bem machista: “quando começamos quase não encontramos barreiras. Na medida que o mercado foi crescendo a tendência foi segmentar os gêneros, e hoje vejo os mais jovens discriminar determinado título”, afirmou.

Outro traço de preconceito que Montserrat apontou foi no próprio tratamento da mídia em relação ao assunto. “Já cheguei a ler em uma crítica que material para mulher não precisa ser bem feito”, disse a autora, que completou dizendo ser justamente ao contrário, já que as mulheres costumam ser bem mais criteriosas.

Sobre mercado e remuneração, Priscilla disse que os valores são tabelados nos E.U.A., já no Brasil, a remuneração está muito ligada ao artista e se ele é reconhecido, independente de ser homem ou mulher.

IMG_20141116_131432Em seguida a conversa foi direcionada para o reconhecimento feminino na produção de HQs. Todas concordaram que atualmente com a Internet é mais difícil esconder as mulheres e os seus trabalhos, mas Montserrat apontou que historicamente, as mulheres continuam sendo ignoradas. “Um catálogo lançado ano passado que listava os grandes quadrinhistas da história, deixou de lado as quadrinhistas e ignorou a sua produção. Quando fui questionar o autor, ele me respondeu simplesmente que esqueceu de colocá-las na publicação. Isso é um absurdo, afinal desde 1915 já havia mulheres desenhando quadrinhos, antes mesmo das mulheres terem direito a voto nos Estados Unidos”, explicou a autora.

Outro ponto interessante abordado no painel foi a questão em qual momento o mercado de quadrinhos ficou machista. De acordo com Débora Caritá, quando o mercado começou, não havia a segmentação de quadrinhos para meninos ou para meninas.

Se hoje é fato que as mulheres são uma parte importante do mercado de quadrinhos em todo o mundo, a questão “há diferença quando uma mulher produz?”, foi colocada em pauta. “Mulher escrevendo traz uma visão diferente para um personagem feminino, mas não há diferença na produção”, afirmou Priscilla, e Montserrat completou “quanto mais visões, ou prisma de um ser humano, mais rico e mais qualitativo será o personagem”.

IMG_20141116_131944A representação feminina nos quadrinhos é machista? Mulheres escrevendo personagens femininas seriam a solução? O machismo em pauta foi um momento mais delicado do painel. “O machismo não é um grande mostro. Não é uma reunião de gangsters. Ele está na menina de vestido rosa, na mãe dona de casa”, disse Montserrat, e completou que o machismo não é uma exclusividade masculina, “muitas mulheres produzem e reproduzem o estereótipo. O machismo é quando vira um padrão. Todas personagens usam a mesma roupa e têm o mesmo comportamento”.

A Mulher Maravilha é um ícone feminista? É inegável a importância da heroína dentro e fora das HQs, mas essa é uma questão que divide opiniões. Criada para ser a representação do feminismo, a personagem nasceu em 1941 por um ativista feminista casado com outra feminista e que namorava outra feminista, o Dr. William Moulton Marston (também criador do detector de mentiras), a princesa Diana para muitos é justamente o contrário. “Sou contra quando dizem que a Mulher Maravilha não é uma feminista”, disse Priscilla, que a também aponta Lois Lane como outra personagem super importante nessa representação.

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Da dir. para esq.: Vicky Salles, Ediliane Boff, Priscilla Tramontano e Montserrat Montse

E nesse ponto o machismo apareceu de novo, pois muitos leitores da Mulher Maravilha são homens. “A cultura machista também afeta os homens. Ela tem uma padrão, você tem que ser o macho alpha, Homem não pode gostar de coisa de menina. No Japão, homens usam pseudônimo de mulher para não serem discriminados”, disse Montserrat.

Mas o mercado está mudando. As artistas apontam como uma atitude super positiva esse novo destaque que os personagens femininos estão tomando, sem cair nos estereótipos, Priscilla destacou a personagem Alana, da série Saga. “É uma mãe, problemas, drogras. São várias nuances que ela passa”.

Para finalizar, Montserrat destacou a iniciativa do site Lady’s Comics, que irá fazer um banco de dados sobre as quadrinhistas, e encerrou com “desconfiem da história dos quadrinhos, porque ela deixou muita coisa de fora”.

No vídeo abaixo é possível conferir a palestra completa:

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/11/IMG_20141116_1359221-1024x670.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/11/IMG_20141116_1359221-300x300.jpgRenato Lebeaucobertura de eventosBrasil Comic Con,Ediliane Boff,Montserrat Montse,Mulheres nas HQs,Priscilla Tramontano,Vicky SallesDurante a Brasil Comic Con a organização promoveu várias atrações simultâneas. O palco principal ficou focado em receber os convidados internacionais, concurso de cosplayers e outras apresentações. Porém, no segundo andar estava localizado o auditório, local que ficou concentrado a maior parte dos painéis sobre quadrinhos, com a presença...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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