O Centro Cultural da Juventude (CCJ), em São Paulo, completa 5 anos em 2011, mas quem ganha com isso é o público que frequenta o local, afinal, além de cursos, atividades culturais, acesso à internet e uma ótima gibiteca (batizada com o nome de Jayme Cortez) para marcar a data, a coordenadoria do local, sob responsabilidade de Dolores Biruel, trouxe para um bate-papo ninguém mais ninguém menos que o único integrante vivo do verdadeiro Quarteto Fantástico dos quadrinhos, Mauricio de Sousa, que dispensa maiores apresentações.

Logo de cara ficou claro que o lugar era pequeno demais para o tamanho do artista que receberia – e quem já foi lá sabe que os espaços do CCJ são bem amplos. Os monitores trabalharam duro, puxando, empurrando e carregando cadeiras para acomodar pessoas que não paravam de chegar. Foi reservado um espaço somente para as crianças bem em frente ao palco.

Havia três turmas de pedagogia da Faculdade Sumaré interessadas na preocupação que o autor tem em agregar todo o tipo de público, seja inserindo personagens deficientes no universo da Turma da Mônica ou publicando HQs em braile ou trabalhos em libras (linguagem de sinais).

Recebido com uma salva de palmas, o bate-papo teve início com o pesquisador e quadrinhista Álvaro de Moya contando um pouco de sua história e sua relação com Mauricio de Sousa e Jayme Cortez (o evento ocorreu ao lado da gibiteca que leva o nome do quadrinhista português e contou com a presença de sua viúva, Edna Cortez) enquanto Mauricio tirava fotos da platéia.

Álvaro passou a palavra para Mauricio que começou a falar do seu início de carreira como jornalista policial na Folha de São Paulo enquanto tentava emplacar suas tirinhas do Bidu e Franjinha no mesmo jornal, no ano de 1959.

“Naquele tempo só o que funcionava no Brasil eram os quadrinhos de terror, daí eu resolvi fazer uma historinha do gênero, se chamava A Coisa, aliás era uma ‘coisa’ mesmo, um horror; fiz quatro páginas e fui até a editora Outubro, de Jayme Cortez, que publicava quadrinhos de terror, tentar alguma coisa na área”, revelou Mauricio, que continuou: “O Cortez olhou o trabalho e me disse com aquele sotaque português ‘Você não é aquele artista que faz as tiras do cãozinho na Folha de São Paulo? Continua com aquele trabalho que é bom’.

Mauricio contou que depois disso intensificou a produção de suas tiras e lançou, com edição de Jayme Cortez, uma revista chamada Bidu, em 1960. “Quase ninguém sabe disso, se alguém tiver algum número da revista eu compro, porque também não tenho”, disse.
A revista durou seis edições. Não foi além porque Mauricio fazia tudo sozinho e ainda era repórter na Folha. “Eu fazia as tiras e a revista no tempo que me restava, isso é, da meia noite às seis da madrugada”.

Depois disso, Mauricio começou a estudar mais o mercado de quadrinhos no mundo: “Eu pedi para o pessoal que cuidava das tiras na Folha me apresentar os originais que eles publicavam pra saber como eram as técnicas dos autores, como eles apresentavam seu material, quanto eles cobravam e assim eu comecei a me preparar para montar uma equipe e trabalhar nos moldes desses autores”.

Um tempo depois, Mauricio foi despedido: “Ai, eu peguei um mapa do estado de São Paulo e, a partir de Mogi das Cruzes [cidade onde morava], tracei com o compasso um raio de 100 Km e estudei as cidades que tinham pequenos jornais nos quais eu poderia publicar minhas tiras. Defini a distância de 100 Km porque era a distância que eu poderia percorrer de ônibus, naquela época eu só tinha dinheiro para isso”.

E foi assim, de jornal em jornal, que Mauricio de Sousa foi montando uma equipe e conquistando espaço. “No fim da década de 1960 eu publicava em 300 jornais do país e, uma década depois, tinha material e experiência suficiente para editar outra revista; foi quando publiquei a revista da Mônica. O resto dessa história todo mundo conhece”, encerrou.

Depois, abriu espaço para a platéia realizar perguntas durante as quais disse muitas informações interessantes: “O licenciamento é a parte principal de renda. De quadrinhos dá para viver, mas se você quiser ir mais além tem que pensar em licenciamento”.

Ainda revelou que Jayme Cortez foi diretor de arte de seu estúdio durante muitos anos e ressaltou a importância deste para a construção de seu império: “Utilizamos bastante o know-how de Cortez com publicidade. Ele auxiliou e orientou bastante os desenhistas do estúdio a pensar as ilustrações para licenciamento”.

Sobre internet, disse: “É importante o autor pensar em formas de divulgar seu trabalho para o maior número de pessoas possíveis. Quando eu comecei, os jornais ofereciam essa possibilidade, hoje é a internet”.

O bate-papo encerrou-se com a divulgação de algumas noticias: O parque da Mônica ficará pronto em dois anos e será na região de Santo Amaro. Antes disso, Mauricio inaugura o parque do Cebolinha, de esportes radicais.

Mauricio de Souza também é integrante da Academia Paulista de Letras. “É a primeira vez no mundo que um quadrinista recebe convite para participar de uma academia de letras. Finalmente as pessoas estão reconhecendo o que todos nós aqui já sabíamos a muito tempo: quadrinhos é arte sim senhor. Vocês podem esperar muitas ações minhas dentro da academia”, anfatizou.

O evento encerrou-se com uma disputada seção de autógrafos, tanto por crianças quanto por adultos. Foi muito divertido ver um bando de marmanjões (eu incluso) amontoados para conseguir um autógrafo de um famoso autor de histórias infantis.

Parabéns ao pessoal do CCJ por nos proporcionar tamanha experiência.

PS: Caso alguém tenha ficado curioso, o Quarteto Fantástico dos quadrinhos é composto por Mauricio de Sousa, Osamu Tezuka, Walt Disney e Will Eisner (este por ser o gênio maior da linguagem e os outros por terem utilizado os quadrinhos para a construção de verdadeiros impérios).

Fotos: Divulgação Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso

Alexandre Manoelcobertura de eventosÁlvaro de Moya,CCJ Ruth Cardoso,Mauricio de SousaO Centro Cultural da Juventude (CCJ), em São Paulo, completa 5 anos em 2011, mas quem ganha com isso é o público que frequenta o local, afinal, além de cursos, atividades culturais, acesso à internet e uma ótima gibiteca (batizada com o nome de Jayme Cortez) para marcar a...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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