Franco de Rosa, Will e Flávio Luiz

O último fim de semana foi especial para os fãs de quadrinhos, pois em várias regiões do País aconteceram eventos em comemoração ao Dia do Quadrinho Nacional que é comemorado todo dia 30 de janeiro. A data é comemorada há 27 anos desde que a AQC-ESP (Associação dos Quadrinistas do Estado de São Paulo) instituiu o 30 de janeiro como o “Dia do Quadrinho Nacional” para celebrar a data de publicação da primeira história em quadrinhos que se tem datada, de autoria de Ângelo Agostini.

O Impulso HQ esteve no Espaço Multiverso HQ, para cobrir a 7ª Feira de Quadrinho e Arte, que começou às 9h e só teve fim no dia seguinte às 18h, isso mesmo, a loja ficou aberta durante a toda a noite, e teve atividades para todos os interessados em quadrinhos.

Para passar a noite em claro, nada melhor que criar um quadrinho ao vivo, desde a concepção do roteiro até as idéias de como personagem em cada quadro. E foi exatamente isso que quem ficou no Espaço Multiverso pode conferir. Para quem acha que uma boa conversa em uma roda de amigos não dá roteiro, se engana, pois Felipe Meyer e Rodrigo Febrônio desenvolveram um roteiro ao vivo para mais uma edição da revista Contos da Madrugada, e o duelo entre Raul Seixas e Paulo Coelho teve vida com os traços de Régis Coimbra e Will.

Marcos Venceslau mostra os seus estudos para a sua participação em Contos da Madrugada

E o tema da próxima edição não está para os fracos, pois duelos muito inesperados foram desenvolvidos. Para não estragar a surpresa da edição que terá o seu lançamento no dia 12 de fevereiro, também no Espaço Multiverso HQ, só deixamos aqui a dica de quem for ler encontrará monstros, aliens e seres inesperados em confrontos não muito convencionais.

Para quem foi no sábado, pode aproveitar um bate-papo com os convidados Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial, Rodrigo Febrônio, apresentador do programa Banca de Quadrinhos, Worney de Almeida, representante da AQC-ESP e Mario Cau, quadrinhista autor de Pieces e Nós.

Infelizmente, Jota Silvestre, jornalista e editor do blog Papo de Quadrinhos, não pode comparecer devido a problemas de saúde e Gonçalo Junior, autor de A Guerra dos Gibis, Mochinho do Brasil e Maria Erótica, também não pode ir por causa de contratempos inesperados.

O bate-papo foi moderado por Will e quem começou foi Worney de Almeida, que abriu a conversa falando sobre o prêmio Angelo Agostini que acontece no próximo sábado no Instituto Cervantes, e convidou a todos a estarem presente no evento que terá palestras, a criação de uma HQ gigante ao vivo e uma sessão de autógrafos com Danilo Beyruth, autor de Bando de Dois, álbum publicado pela editora Zarabatana que ganhou o prêmio como Melhor Publicação de 2010.

Durante a conversa Worney comentou o número de votantes para essa edição do prêmio. Foram 246 votos recebidos via Internet e Correio, revelou ele, que também falou sobre o novo local de realização do evento e as dificuldades de se organizar o prêmio.

Depois o bate-papo caminhou para um assunto que está sendo muito discutido. A demanda de produção de quadrinhos para os programas governamentais, como PROAC e PNBE. No caso, o que se discutiu foi se essa nova mentalidade de produção não acabaria com os quadrinhos de banca, já que a maioria das obras selecionadas é destinada às escolas e livrarias.

Worney de Almeida

Outra questão levantada dentro desse tema foi se produções de HQs realmente novas, e criativas iriam surgir se os quadrinhistas forem para esse caminho, já que os programas governamentais têm algumas exigências e parâmetros.

Rodrigo Febrônio alertou que os programas são uma coisa boa para o mercado, mas que ele ainda vê com uma certa relutância projetos em séries que são classificados. “O quadrinho nacional é caro. Como vou convencer a alguém a comprar o número um de uma série que custa R$40,00 sem ter a garantia que o cara vai continuar caso o número dois não for aprovado em um edital?”, disse Rodrigo, que a partir daí a conversa já tomou um novo rumo: como formar novos leitores de quadrinhos?

A conversa girou em torno de tiragem, que atualmente a maioria das publicações são produzidas poucos exemplares, “A tiragem baixa aumenta o custo, ai o leitor não compra, se a obra não vende, depois a tiragem é menor. Vira um ciclo vicioso”, disse Mario Cau.
Rodrigo também concorda com esse ponto de vista, e afirma que hoje dia para acompanhar tudo que sai nas bancas e livrarias, o leitor vai gastar em torno de R$500,00, e deixa a questão: “Alguma coisa tem que ser pensada para os próximos anos”.

Mario Cau e Guilherme Kroll em pose “natural” olhando uma HQ

Para Worney a questão dos novos leitores está em sua formação de leitura. “Hoje em dia a formação dos leitores jovens é o mangá. Não é a toa que Turma da Mônica Jovem é um sucesso”.

Silvio Alexandre, editor do site Universo Fantástico, que estava presente deu a seguinte opinião: “Os programas governamentais podem ser uma boa forma de gerar leitores. O PNBE, por exemplo, tem uma tiragem de 40 mil exemplares, é possível  formar um público leitor dessa maneira”, e ele ainda completou fazendo uma comparação aos anos de 1980 quando o governo investiu na indústria de livro infantil.

“Nesse contexto é interessante. Você cria uma indústria de 5 a 10 anos. Essa é a minha esperança”, conclui Silvio.

Entrou em questão também se a Internet pode ser um meio de se formar público. De acordo com Guilherme Kroll, não basta disponibilizar uma página para download e pronto. “Tem que divulgar via Internet e continuar fazendo, até que você consiga formar uma base de leitores. Fizemos isso com uma HQ do Mário César e no mês de fevereiro faremos uma ação com uma HQ do Mário Cau”, disse o editor da Balão Editorial que a pouco tempo disponibilizou a HQ EntreQuadros – Beginning of a Great Adventure – Especial de Natal – para download gratuito.

Foi de consenso geral entre os presentes do bate-papo que também falta uma visão de empreendedorismo para alguns quadrinhistas e editores. E sobre isso veio a tona mais uma vez a questão do mangá.

É inegável que mangá vende, e esse é um filão do mercado que está sendo muito explorado, mas os presentes levantaram a questão: Como seria o mangá brasileiro?

E chegaram à conclusão de que a maioria dos mangás que estão sendo produzidos no Brasil são elaborados como se vivêssemos no Japão, e isso deixa a obra sem identidade. Claro que nesse momento foi levanta outra questão: Qual a cara do quadrinho nacional?

De acordo com Cadu Simões que também estava entre os presentes, “O grande problema é que as pessoas encaram quadrinho nacional como gênero. Isso é um equívoco que é cometido também no cinema. Cinema nacional não é gênero. Assim com o mangá também não é!”.

E Cadu finaliza: “Só poderemos identificar o que é realmente quadrinho nacional só depois que toda uma produção maciça de quadrinhos. Só com toda uma produção já realizada é que você consegue olhar o todo e identificar quais são as características que todas as obras têm em comum”.

Flávio Luiz autografa O Cabra para Franco de Rosa

No domingo, novos convidados estavam presentes para um novo bate-papo. Foram eles: Flávio Luiz, autor de O Cabra e AÚ Capoerista, Franco de Rosa, editor da Editorial Kalaco, Thiago Spyded, editor da Editora Crás, Nobu Chinen, pesquisador de HQs e Zé Oliboni, do site Universo HQ.
A tarde começou com uma sessão de autógrafos de Flávio Luiz, que conversou sobre o seu mais recente álbum, O Cabra, onde em conversa com Franco de Rosa, ele revelou que a sua intenção em produzir a HQ foi de entreter e divertir o leitor, por isso, ele inseriu na obra várias referências para o publico se divertir, e ainda avisa que já está pensando como seria uma continuação para a história.

Flávio e Franco falaram sobre as suas coleções de HQs homéricas e das raridades que eles possuem, e como são diferentes os mix que se encontram nas bancas atualmente, e se vale a pena comprá-los.

O quadrinhista Flávio Luiz que até recentemente trabalhava para a agência África, contou um pouco de sua trajetória, que tem vários fatos interessantes, como quando ele teve aula com Will Eisner, encontrou Jeff Smith, criador da série Bone, em uma rua estreita de Angoulême, quando ele foi conhecer o festival de quadrinhos da cidade, e como Sergio Aragonés deu um incentivo para a sua jornada como quadrinhista.

Flávio também revelou que o roteiro de AÚ Capoerista nº2 já está pronto e a publicação se chamará AÚ e o Fantasma no Farol, e se passará no Farol da Barra, mas que o leitor vai se surpreender com a história já que ela apresenta uma dualidade. E ainda informou que ele está pensando já em uma terceira história com o personagem, que aconteceria no bairro da Liberdade em São Paulo.

Mais uma vez o bate-papo foi moderado por Will que colocou em pauta a questão de como conseguir novos leitores para os quadrinhos. E quem opinou primeiro nessa questão foi Franco de Rosa, que de acordo com a sua opinião quando a Editora Abril fez a mudança do formato conhecido como formatinho para o formato Premium, quando houve uma mudança de preço de R$3,50 para R$10,00, por revista, nesse momento o mercado perdeu leitores de quadrinhos, que nunca mais serão recuperados.

“Foi toda uma geração de leitores perdida. Não tem mais volta. E temos o problema também de que se a criança não começar a ler quadrinhos até uma determinada idade, passando dessa fase, ela não conseguirá ler quadrinhos”, disse Franco, que demonstrou preocupação com o fato de que as revistas em quadrinhos não são mais vendidas em bancas do interior do estado.

Durante o bate-papo falaram sobre casos que conseguiram achar ou criar um novo público que é o caso de Turma da Mônica Jovem, sucesso editorial, que conseguiu formar leitores sem apagar ou abandonar os antigos. Também foi citado o caso de Scott Pilgrim que é um híbrido de linguagens de games com quadrinhos, e atingiu um público específico, “adolescentes de 30 anos”, segundo Oliboni.

Foi citado se o cinema não poderia ser uma boa alternativa para se conseguir um novo público leitor, afinal segundo Nobu, “a tecnologia viabiliza produzir os efeitos especiais que os personagens com poderes precisam ter o que só aumenta a possibilidade de uma franquia”. O que ficou claro é que esquemas de vender os direitos dos quadrinhos para o cinema antes mesmo de se produzir a HQ já não é algo novo.

Oliboni aponta o fato de que a RT Features comprou os direitos de HQs como Cachalote e Furry Water para o cinema. E Franco de Rosa aponta que isso é uma prática antiga, e citou como exemplo o caso de Zorro, que foi vendido para o cinema antes do romance estar pronto e quando foi finalizado teve um desfecho totalmente diferente do que foi exibido.

Nobu Chinen e Zé Oliboni

Algo interessante apontado também por Oliboni, foi o fato de que precisamos deixar que a nova geração tenha os seus mitos, os seus super-heróis, que é um caminho que é seguido pelo mangá. As histórias são em ciclos com começo, meio e fim. Depois surge um novo personagem, mesmo que seja com uma história parecida. Thiago Spyded concordou com essa afirmação: “O Naruto de hoje é o Dragon Ball de ontem. Todos fizeram sucesso com a sua geração”.

Oliboni também entrou no assunto de programas governamentais e afirmou que iniciativas como essas são excelentes incentivos para o autor e para a editora, mas que dificilmente gera um público leitor, devido à falta de preparo dos professores que não recebem instruções de como lidar com os quadrinhos.

“É preciso que tenha um bibliotecário ativo, como por exemplo, o caso do programa de incentivo do Sesi. Falta no ambiente um profissional capacitado que possa orientar o aluno a leitura”, completa Oliboni.

Um dos assuntos em pauta foi a delegação coreana que recentemente esteve no Brasil e que Franco de Rosa teve a oportunidade de encontrar e conversar. Segundo Franco, as conversas foram a respeito do método da produção coreana de HQ, os chamados manhwas, que são lançados em coletâneas e quanto mais sucesso uma história faz, cada vez mais ela ganha uma edição só pra ela, até ela virar uma novela com 25 episódios no máximo. E o curioso aponta Franco, é que os manhwas estão atrelados ao método de ensino do governo coreano, o que garante um público leitor.

Por fim veio o assunto sobre quadrinhos e tecnologia, e se os novos leitores digitais acabariam com os impressos. Oliboni afirma que os seria uma possibilidade de se acabar com os mixes de bancas, já que a grande reclamação desse material é você comprar uma revista com quatro histórias só por causa de uma. O novo sistema possibilita que você só compre a história do personagem que você quer ler. Isso acabaria levando o impresso à livraria.

O grande entrave é que a tecnologia no Brasil devido aos impostos ainda é muito cara. E Oliboni finaliza com a seguinte reflexão: “Quando o governo parar de comprar livros didáticos e usar conteúdo digital, com certeza as editoras vão quebrar. Nossa preocupação não deve ser se o impresso irá acabar. A nossa grande preocupação é não deixar acabar o hábito da leitura”.

Acabando o bate-papo, teve fim também essa maratona que o Espaço Multiverso HQ promoveu, em homenagem ao dia do quadrinho Nacional. Com certeza eventos como esse aconteceram por todo o Brasil, e nada mais merecido do que comemorar as HQs, conversando, debatendo, lendo e produzindo cada vez mais.

Até  o próximo evento!

Galeria de Imagens:

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