Aconteceu no último sábado, 2 de fevereiro, em São Paulo, mais uma edição da tradicional premiação dos quadrinhos “Troféu Angelo Agostini”, que pela primeira vez foi dentro do Memorial da América Latina.

A cerimônia que há 29 anos é promovida e organizada pela AQC-ESP – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo – manteve o charme que lhe é tão peculiar: o sentimento de saudosismo e respeito mútuo entre os organizadores e convidados. É realmente muito bonito ver o carinho e respeito que é demonstrado com a “velha guarda” dos quadrinhos nacionais.

A mudança de casa fez bem à premiação. Se nas duas últimas duas edições (que foram realizadas no Instituto Cervantes) a premiação já estava bem localizada, agora dentro do Auditório da Biblioteca do Memorial da América Latina, ela ganhou o seu lugar merecido. Além de toda a ambientação que conta com excelente acústica, espaço amplo e agradável, existe toda a questão de ser uma das obras mais famosas de Oscar Niemeyer e ser um lugar de prestígio cultural.

João Batista de Andrade e Gonçalo Jr.

Logo na abertura da cerimônia, João Batista de Andrade, presidente do Memorial da América Latina, fez questão de frisar a importância de um prêmio como o Angelo Agostini acontecer dentro do espaço em que ocorreu a entrega dos troféus. “O Memorial nos últimos anos se isolou, e ele tem a obrigação de ser popular. Essa é a primeira vez que abrigamos um evento desse porte, e acho isso fundamental, pois temos uma grande capacidade de comunicação com a cidade”, disse João Batista, que também lembrou Niemeyer e o seu gênio criativo. “Estamos em uma instalação fruto da criatividade de Niemeyer, e nada mais natural do que abrigar a riqueza criativa dos quadrinhistas. Tudo aqui tem essa aura criativa, temos a biblioteca, o Salão das Artes e as Salas de Cinemas”, completa João Batista.

Gonçalo Jr., gerente de comunicação do Memorial, fez questão de lembrar que o Memorial da América Latina também foi cenário para a exposição de caricaturas de Oscar Niemeyer, que repercutiu muito bem na mídia nacional e internacional, e adiantou que para o mês de março sairá o catálogo da exposição com as 105 caricaturas expostas.

Mantendo a tradição, após a abertura, Fernando dos Santos apresentou a programação, e lembrou a história da premiação e do dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, que é comemorado no dia 30 de janeiro. Fernando mais uma vez agradeceu ao reconhecimento que o Memorial da América Latina creditou a premiação e finalizou com votos de que a parceria seja um longo namoro.

Na sequência, o caricaturista Bira Dantas abriu a palestra dessa edição apresentando os integrantes do estúdio Ely Barbosa: Eduardo Vetillo, Alexandre Silva e Cidão Norberto. Bira também participou da palestra, e frisou que começou a trabalhar com quadrinhos aos 17 anos dentro do estúdio Ely Barbosa, depois de um rápido estágio nos Estúdios Maurício de Sousa.

Foi um bate-papo saudosista da época em que um dos maiores estúdios de quadrinhos do Brasil estava em plena atividade. Vetillo, contou um pouco da história de como o estúdio começou a crescer em 1978 depois de um contrato assinado com a editora RGE para produzir as histórias da Hanna Barbera. Acima de tudo Vetillo lembrou das amizades iniciadas dentro do estúdio e fez questão de afirmar que para ele essa foi a melhor fase dos quadrinhos no Brasil, e que muitos quadrinhista que trabalham hoje para o mercado começaram dentro do estúdio de Ely Barbosa, falecido em 2007.

Depois do contrato com a Hanna Barbera, veio a parceria com a editora Bloch para produzir os quadrinhos dos Trapalhões, que na época era o programa de humor mais visto no País. “Foi uma fase muito produtiva. Chegamos a fazer 250 páginas mensais. E naquela época os personagens eram retratados como adultos. Era quase uma adaptação do programa”, lembrou o quadrinhista.

Cidão Norberto, Bira Dantas, Eduardo Vetillo e Alexandre Silva

Outro integrante da mesa, Cidão, contou mais detalhes sobre a história de Ely Babosa, e como ele começou a produzir quadrinhos para Silvio Santos com o gibi Baú da Felicidade. Uma curiosidade é que à mesa estavam pelo menos quatro gerações que trabalharam no estúdio. Uma característica que ficou marcante é que todos começaram muito cedo dentro do estúdio e admirando o trabalho um do outro. “Comecei dentro do estúdio com 16 anos assinando roteiro e desenho. Eu ficava impressionado com os trabalhos de Vetillo”, disse Cidão.

Bira contou um “causo” que ocorreu dentro do estúdio quando uma história dos Trabalhões foi barrada pela censura. O ano era 1980, e foi produzida uma história em que o sindicalista Lula da Silva (sim ele mesmo), se encontrava com os Trapalhões que estavam fazendo às vezes de super-heróis decidem fazer uma greve. Acontece que o termo “greve” era proibido, o que impediu a publicação. No final, Bira teve que mudar a história para não ter que arcar com os custos da produção. Uma matéria sobre o assunto pode ser lida no Contraversão, clicando aqui.

Depois de contarem mais curiosidade da época do estúdio e relembrarem como todo o processo de produção era manual, o que incluía cores e letras, além do envio dos originais para a editora via motoboy, os convidados abriram o espaço para as perguntas da plateia. Ao finalizar, Bira Dantas tocou a sua famosa gaita.

A cerimônia manteve o seu tradicional roteiro e antes da entrega dos troféus abriu espaço para os quadrinhistas divulgarem os seus trabalhos. O jornalista Jota Silvestre elencou as 10 coisas mais importantes que aconteceram para os quadrinhos em 2012. Como o jornalista não pode estar presente, Bira Dantas fez as honras.

Aproveitando o momento, Bira também apresentou uma publicação que conta a história da caricatura no Brasil com Eduardo Vetillo que lembrou: “essa publicação é importante, pois relembra que a caricatura já fez parte da imprensa do nosso país”.

Gazy Andraus falou do Dia Nacional do Fanzine e como a data 12 de outubro deve ser lembrada. Gazy frisou a importância dos agentes culturais que fomentam o fanzinato, como o Ugra Press, Thina Curtis com a Fanzinada e Marcio Sno com o documentário de fanzines. Finalizou reforçando a importância dos fanzines para a cultura dos quadrinhos no Brasil.

Fabrizio Andriani e Franco de Rosa

Continuando a cerimônia, pelo segundo ano consecutivo, Franco de Rosa subiu ao palco para apresentar os vencedores. Os primeiros a receberem o troféu foram os representantes do evento Gibicon, que levaram o Prêmio Jayme Cortez em reconhecimento ao incentivo da cultura dos quadrinhos no País. Franco fez questão de explicar que é natural um evento ganhar o reconhecimento, e que não necessariamente precisaria ser um quadrinhista, pois o Jayme Cortez é dado para iniciativas que fomentam a produção e memória dos quadrinhos.

Na sequencia, Alexandre Silva entregou o troféu da categoria “Melhor Desenhista” para Danilo Beyruth. Como o quadrinhista não pode comparecer quem recebeu o troféu foi Sidney Gusman, editor do álbum Astronauta Magnetar. Sidney subiu ao palco por uma segunda vez para receber o troféu de “Melhor Lançamento”, também pelo álbum Astronauta – Magnetar, e deixou os presentes com uma pulguinha atrás da orelha: “me perguntam se Astronauta – Magnetar terá uma continuação. Não posso afirmar nada, só digo que as portas foram abertas.”

Jean Galvão, vencedor na categoria “Melhor Cartunista” falou da importância de ser reconhecido em um prêmio como Angelo Agostini que tem o voto aberto e popular. Esse também foi o ponto citado por Petra Leão, vencedora na categoria “Melhor Roteirista”, que afirmou ter ficado muito surpresa e feliz com o reconhecimento, e deixou um recado: “dedico esse prêmio principalmente para aqueles que disseram que eu nunca ia conseguir trabalhar com quadrinhos. Esse troféu é para vocês.”

Sidney Gusman

Em seguida foi a vez da entrega do troféu para a categoria “Melhor Publicação Independente”, e o trio curitibano do grupo Lobo Limão subir ao palco e agradecer aos leitores que votaram na publicação que mistura o universo do RPG com quadrinhos.

Edgar Guimarães, um dos maiores vencedores da premiação na categoria “Melhor Fanzine”, fez as honras para Denilson Reis e Alex Doeppre, do coletivo Quadrante Sul, e entregou o troféu de melhor fanzine em 2012.

Para finalizar a entrega dos troféus foram anunciados os “Mestres do Quadrinho Nacional” desta edição. Marcos Maldonado ao receber o prêmio lembrou de sua época de letrista e como tudo era manual, “nós desenhávamos as letras” disse ele. Júlio Emílio Braz, autor de “Enquanto tiver vida, viverei”, infelizmente não pode comparecer a cerimônia e Jô Fevereiro recebeu o prêmio das mãos de Bira Dantas, que lembrou que Jô começou a desenhar profissionalmente aos 13 anos fazendo uma história do Drácula.

Worney de Souza

Uma surpresa nesta edição: Worney de Souza, que durante anos organizou o Angelo Agostini, e desde 2012 se afastou para cuidar de outros projetos da AQC-ESP foi lembrado e homenageado com o Troféu Voti, uma placa com a caricatura do próprio Worney segurando o Angelo Agostini nas costas. Uma merecida homenagem.

Encerrando a cerimônia, Fernando dos Santos agradeceu a presença de todos, e citou alguns agradecimentos especiais para aqueles que ajudaram a realização do prêmio nos bastidores e lembrou da confraternização que seria em seguida na Lanchonete do Memorial da América Latina.

Sem sombra de dúvidas o Troféu Angelo Agostini se renovou e manteve uma das características que mais é marcante: o clima de admiração pela história das histórias em quadrinhos no Brasil, tornando-o um evento familiar. De casa nova, a premiação ganha mais fôlego e prestígio para durar por muitos anos e se manter no posto de uma das mais importantes prêmios dos quadrinhos do Brasil. Há muito o Troféu Angelo Agostini merece esse reconhecimento.

Não deixem de confeir o nosso álbum de fotos no Facebook com mais de 80 imagens com tudo que rolou no 29º Angelo Agostini, clicando aqui.
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Para você leitor que sentiu a falta de um texto mais longo, a equipe do Impulso HQ preparou uma surpresa, e em breve estaremos postando aqui no site a cobertura em vídeo do 29º Troféu Angelo, com depoimentos dos vencedores, organizadores, e é claro, mostramos cada atração da cerimônia. Aguardem!

Renato Lebeaucobertura de eventosAlexandre Silva,Angêlo Agostini,AQC-ESP,Bira Dantas,Cidão Norberto,Eduardo Vetillo,Ely Barbosa,Fernando dos Santos,Franco de Rosa,Gonçalo Jr.,João Batista de Andrade,Memorial da América LatinaAconteceu no último sábado, 2 de fevereiro, em São Paulo, mais uma edição da tradicional premiação dos quadrinhos “Troféu Angelo Agostini”, que pela primeira vez foi dentro do Memorial da América Latina. A cerimônia que há 29 anos é promovida e organizada pela AQC-ESP – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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