Entre as surpresas desse ano, os organizadores comunicaram que a partir de 2013 mudará o sistema de votação: todo o processo será digital

No último sábado, dia 4 de fevereiro, aconteceu a vigésima oitava edição da cerimônia de entrega do prêmio Angelo Agostini, aos melhores do quadrinho nacional do ano de 2011. Mais uma vez a AQC-ESP (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo) promoveu um evento que prestigia HQ nacional, além de abrir espaço para todos confraternizarem, o que possibilita você conversar com grandes mestres do quadrinho nacional como Rodolfo Zalla, Primagio, Ventilo e outros nomes que fizeram história.

Pelo segundo ano consecutivo o evento foi realizado no Espaço Cultural Instituto Cervantes, que conseguiu receber de ótima forma todos os que prestigiaram a premiação. No hall havia espaço suficiente para a confraternização e para as bancas que venderam quadrinhos, como a da Comix Book Shop e a do coletivo 4º Mundo, além de abrigar também a HQ Coletiva, organizada por Bira Dantas, onde todos os presentes foram convidados a desenhar um quadro uma HQ, com tema “saudade”, escolhido no início do evento.

Outra grande vantagem do espaço é o auditório onde acontece a entrega dos troféus e como tradição, o debate que antecede a cerimônia. Por sua vez, o tema do debate deste ano não poderia ter sido mais apropriado: “A Nova Lei Brasileira dos Quadrinhos na Opinião dos Profissionais”, discutiu a lei que está causando polêmica entre os quadrinhistas. A atividade contou com as presenças de Jal (presidente da ACB – Associação dos Cartunistas do Brasil), Márcio Baraldi (cartunista), Spacca (cartunista) e o editor Guilherme Kroll (Balão Editorial) e mediação do jornalista Jota Silvestre. A cobertura do excelente debate você confere em breve aqui no Impulso HQ.

Antes do debate, foi lembrado que há 25 anos o Brasil perdeu um grande mestre dos quadrinhos, Jayme Cortez, e os presentes puderam conferir 15 minutos do documentário “Ao Mestre com Carinho”, que foi lançado no dia da premiação. O registro cinematográfico é uma homenagem de Márcio Baraldi, que assina o roteiro, produção e criação, para o grande mestre Rodolfo Zalla.

“Quem deveria fazer um documentário sobre Rodolfo Zalla, que é um dos grandes últimos mestres é uma grande emissora de TV e não um fã como eu”, disse Baraldi ao promover a sua iniciativa solitária, e completou: “Valorizem o trabalho de Zalla, não ignorem o seu trabalho, pois são mais de sessenta anos de carreira.”

O Impulso HQ conversou com Baraldi sobre os seus motivos de fazer um documentário sobre Rodolfo Zalla:

“Primeiro porque eu já lia os trabalhos do Zalla quando eu era moleque, então eu cresci lendo os quadrinhos dele. Os gibis dele eram muito legais e me davam o pensamento “será que um dia eu vou conseguir desenhar também?, porque o Rodolfo junto com outros caras fazia quadrinho nacional”. Foi uma surpresa pra mim que depois de tantos anos eu consegui entrar na profissão, consegui me consolidar e ainda acabei ficando amigo dele. Pra mim estou pagando um tributo para o meu passado e para o mestre.”

“A minha ideia inicial era fazer um documentário com vários mestres, mas muitos acabaram falecendo. Eu iria fazer com o Colonnese também, mas não deu tempo, então eu pensei, vou fazer com o Zalla porque ele já está com oitenta anos, e é triste dizer isso, mas a geração dele está indo embora, e esas é a geração de quadrinhistas nacionais que eu mais respeito. Eles eram nacionalistas e não tinham vergonha disso. Hoje você fala em quadrinhos nacional e o pessoal ri da sua cara.”

“O Zalla é um artista que não é valorizado aqui dentro. Se ele tivesse nascido nos Estados Unidos ele seriam considerado um Jack Kirby. Eu falo isso como artistas. Poderíamos estar em uma situação muito melhor com um grande mercado, vendendo muito, porque o Zalla com o currículo que tem, venderia muitos exemplares se ele tivesse nascido em outro país, mas infelizmente o nosso mercado não age assim.”

“O objetivo principal do documentário é mostrar a carreira do Zalla que é maravilhosa, e a trajetória da vida dele serve como exemplo para muitos quadrinhistas. Para quem é leigo vai assistir um documentário de um grande artistas, que fala bem, que é agradável, e um cara carismático. Para quem é quadrinhista brasileiro, o dvd tem uma mensagem embutida. Ele além de ser um grande artista, ele é um cara que lutou muito pelo quadrinho brasileiro.”

O Impulso HQ também falou com Zalla a respeito da emoção de ter a sua trajetória profissional registrada e reconhecida como uma importante parte da história do mercado nacional de HQ, e qual foi o momento mais marcante da sua carreira:

“Recebi a notícia com carinho e alegria. Vindo do Márcio Baraldi eu sabia que o trabalho seria bom, e depois seria uma oportunidade de estar com ele e falar sobre quadrinhos. Realmente o que mais me marcou na minha carreira foi a minha fase com Arimã. Foi uma personagem que signifivou muito pra mim, pois me mostrou o caminho que eu tinha que continuar. Naquela época eu tinha a influência de grandes artistas internacionais, e ela entrou na minha vida no momento em que vim para o Brasil. A sua figura era diferente. Os outros desenhistas fizeram-na no estilo Burroughs, e ela para mim deveria ter um outro tipo de beleza.”

Depois do debate deu-se início a premiação de fato. Quem está acostumado a ir ao Angelo Agostini e não vai as reuniões da AQC, nesta edição teve uma surpresa: quem conduziu a cerimônia não foi Worney de Souza, e sim Franco de Rosa. Deu pra notar que Franco estava à vontade em sua nova função, mas em alguns momentos ele se perdia no roteiro do que ele devia fazer, mas convenhamos também que assumir o lugar de Worney, que durante 23 anos assumiu essa função, não é tarefa fácil.

Franco conseguiu conduzir a premiação e até brincou sobre os seus improvisos: “Sempre falei que a premiação precisava de mais formalidade. Não se preocupem, ano que vem irei vir de smoking.”

O novo mestre de cerimônias também revelou uma grande mudança no sistema de votação do Angelo Agostini, a partir de 2013 todo o processo será digital: “Mudaremos o sistema da cédula. Este foi o último ano que vocês receberam do jeito que ela é, e a partir do ano que vem tudo será digital, inclusive a apuração. O Angelo Agostini entrou no século 21”, disse Franco.

O Impulso HQ conversou com Worney de Souza sobre a sua ausência como mestre de cerimônia desse ano, e como fica a premiação:

“Desde a última edição eu já havia comunicado que não iria participar mais nessa função. O prêmio nunca foi do Worney e sim da AQC. O Angelo Agostini vai continuar como sempre. Quem organiza são os cartunistas que participam das reuniões da AQC, que são abertas a quem quiser participar. Eu agora ficarei centrado na revista Picles, que foi muito bem aceita, e inclusive fiquei sabendo recentemente que a presidenta Dilma recebeu um exemplar, o que me deixa muito feliz. Fora isso tem outro projeto de edição que irei coordenar.”

Seguindo a tradição da premiação antes da entrega os cartunistas e quadrinhistas divulgaram os seus trabalhos, e vale publicação impressa, blog ou site de fomentação de cultura e até pintura sobre tela.

Iniciando oficialmente, Franco de Rosa lembrou os presentes sobre a história da premiação, o que é a AQC e divulgou o total de votos dessa edição: 480 votos de todo o Brasil. Franco lembrou que esse número é o dobro de votantes de 2011, e que poderia ter sido muito maior, já que a cédula de votação no site da AQC teve mais de 2.000 visitações.

Franco seguiu o já tradicional roteiro de chamar um convidado para entregar o troféu para o vencedor, e o primeiro a entregar um troféu foi Fernado dos Santos a Maurílio DNA, pela categoria Melhor Desenhista. O quadrinhista explicou sobre a revista Ação Magazine, título onde ele publica os seus desenhos, e o seu funcionamento de histórias seriadas e votadas. Finalizou agradecendo a todos os votantes.

Logo depois foi a vez de Will entregar o troféu a Daniel Esteves, vencedor da categoria Melhor Roteirista. Esteves agradeceu a todos, inclusive a sua mãe que estava presente, e mencionou como estava feliz por receber esse prêmio das mãos de Will, parceiro de tantas viagens e histórias: “Will é a minha sanidade”, disse Esteves, que não saiu antes de mencionar o momento importante em que passa o mercado de quadrinho com a lei de cota de 20% para as editoras publicarem quadrinho nacional.

Continuando a entrega foi a vez de Jal entregar o troféu da categoria Melhor Cartunista a Gustavo Duarte, que foi rápido em seu discurso e agradeceu a todos. O Impulso HQ conversou com Gustavo que está no mercado há 15 anos sobre ter ganhado o prêmio nessa categoria:

“Pra mim considero quase tudo a mesma coisa, não divido o que eu faço como isso é quadrinho e isso é cartum. Gosto do que faço o mesmo tanto. Nenhum filho é mais bonito. Fico contente em ganhar como cartunista, ano passado ganhei o HQMIX como caricaturista, quando me perguntam o que eu faço eu falo que sou cartunista. Eu acho que o cartunista faz um pouco de tudo, o que não é porque ele faz cartum, mas eu me vejo como cartunista fazendo quadrinhos, charges, Cartum, caricatura e etc. Uso o nome cartunista como algo mais completo. Gosto de ser lembrado por qualquer uma dessas coisas. É legal ser lembrado, isso que importa.”

O Impulso HQ aproveitou e perguntou para Gustavo se depois das publicações dos quadrinhos, o público começou a acompanhar mais as suas charges:

“Acho que é um pouco dos dois. Depois das publicações, atingi um público de quadrinhos que boa parte eu não alcançava no jornal onde eu publico, que é o maior sobre futebol da América Latina, e o que acontece é que nem todo mundo que gosta de quadrinhos gosta de futebol. Tinha muita gente que nunca tinha visto o meu desenho. Eu acho que soma o pessoal que acompanho o meu trabalho nos quadrinhos. Hoje eu entro no meu blog e vejo que o pessoal está entrando nas charges para tentar entender, ou pelo menos ver o desenho, e o pessoal que via as minhas charges, muitos foram conhecer os meus quadrinhos também”.

Continuando o premio, foi a vez de Márcio Baraldi entregar o troféu a Alexandre Lancaster pela categoria Melhor Lançamento, com a revista Ação Magazine, publicação que nos moldes da revista Shonem Jump, tradicional japonesa onde as histórias são seriadas e o público é que vota se a série continua. Geralmente o autor tem no máximo três histórias para poder se firmar na publicação, ou a história é substituída por outra. “Fico feliz que o público votou e tenha entendido a proposta da Ação Magazine. Queremos fazer isso mesmo, uma revista de ação para as bancas, para a massa em geral”, disse Alexandre em seu discurso de agradecimento.

Em seguida foi a vez de Bira Dantas entregar o prêmio a Murilo Martins, pela publicação Love Hurts, na categoria Melhor Lançamento Independente. Murilo foi o mais breve: “Bem, é isso, eu agradeço a todos que votam. Obrigado.”

O Impulso HQ conversou com Murilo sobre ter ganho o prêmio logo na estreia de Love Hurts:

“Foi uma surpresa. Lancei Love Hurts no Rio Comicon ano passado e ela começou muito bem. Confesso que não conhecia a premiação Angelo Agostini, conheço a importância que o Agostini teve aos quadrinhos, mas não sabia que eu podia concorrer. Quando eu soube, fiz uma campanha no meu site e envie um e-mail dizendo para votarem em mim para todos aqueles que tinham comprado uma edição, e deu certo. Para 2012 tenho dois projetos: fazer uma continuação de Love Hurts, nos mesmos moldes e padrão gráfico da primeira edição e terminar o roteiro que estou produzindo que é bem maior, com uma história linear”.

Edgar Guimarães, o grande vencedor da categoria Melhor Fanzine, foi quem entregou o prêmio para o Coletivo Miséria, que levou o troféu com a quinta edição do fanzine homônimo. Os quatro com placas de “vendo Miséria”, deixaram seu recado que precisam vender mais edições do fanzine para voltar para casa, mas precisamente a cidade de Campinas (SP), e que também estão arrecadando verba para lançar a sexta edição da revista.

Bira Dantas mais uma vez foi até a frente do auditório, mas dessa vez foi entregar o prêmio para Afonso Andrade, representante do FIQ (Festival Internacional dos Quadrinhos) que recebeu o troféu pela categoria Jayme Cortez, que é dado por contribuição aos quadrinhos nacionais. O Impulso HQ também conversou com Afonso sobre a premiação e se já tem alguma novidade para a próxima edição:

“O mais legal é que foi um premio espontâneo, o que significa que as pessoas realmente gostaram do FIQ e continuam a se lembrar dele. Essa é a primeira vez que o FIQ recebe um troféu Angelo Agostini, o que nos deixa muito orgulhosos.”

“Até nesse primeiro momento continua sendo na serralheria. Belo Horizonte tem uma carência de espaço para eventos, fora a serralheria só teríamos um outro local que é dez vezes maior que o espaço da ultima edição, ou seja, o evento se perderia lá dentro.”

“Como em todos os anos, o foco não será o público e sim a qualidade. Claro que termos sidos até mencionados como maior evento de quadrinhos, inclusive até de São Diego, causa uma expectativa maior e uma ansiedade maior, o que gera uma maior pressão. Já fizemos o primeiro contato oficial e a nossa tradição de homenagear um artista e um país será mantida, e pretendemos definir isso ainda nesse começo de ano.”

As ultimas premiações sempre são em homenagem aos grandes Mestres do Quadrinho Nacional, e nessa edição foram: Bira Dantas, que recebeu a medalha das mãos dos quadrinhistas Marcatti e Ventilo, em seguida Fernando Gonsales, recebeu a medalha das mãos do cartunista Spacca, o jornalista Jota Silvestre recebeu a medalha representando o quadrinhista Lourenço Mutarelli, que infelizmente não esteve presente, e Moacir Torres recebeu a medalha das mãos de Worney.

Antes do encerramento, uma surpresa final: Rodolfo Zalla recebeu um troféu especial por ser considerado o “Mestre dos Mestres”. Zalla demonstrou muita emoção e disse que se sentia muito honrado em receber o prêmio.

Para encerrar, Franco de Rosa fez os agradecimentos finais, lembrou que o 28º Prêmio Angelo Agostini foi realizado pela AQC-ESP e pelo Instituto Cervantes de São Paulo, e contou com o apoio da Comix Book Shop, da Inarco Internacional e do Coletivo Quarto Mundo, e disse a famosa frase “até o ano que vem para mais um Angelo Agostini.”

Acredito que uma das grandes emoções da premiação Angelo Agostini não é em si o troféu, e sim a oportunidade do encontro. Fora os grandes mestres que já citei, também é uma grande oportunidade para se encontrar grandes autores como Laudo, Spacca, Bira, Marcatti, André Diniz, Will, Vasqs, Rocco, entre outros. Percebe-se que é um encontro de alegria e descontração, por isso não é difícil de se encontrar a mãe dos quadrinhistas, ou a família toda, como foi o caso de Moacir Torres, que em todo o momento o seu sorriso estampava a sua felicidade.

O Angelo Agostini também é um momento de você apreciar as histórias de quem trabalha nesse difícil mercado. Onde mais você poderia presenciar um relato de Marcatti dizendo sobre a produção da HQ Ratos de Porão, que teve a ajuda de Bira, ou como foi a sua parceria com Lourenço Mutarelli, que o procurou para que ele imprimisse em sua velha máquina o uma HQ chamada Overdose, que todos os editores recusaram, inclusive Toninho Mendes.

São por essas e outras histórias que o Prêmio Angelo Agostini é uma cerimônia que prestigia a memória da HQ nacional, e por isso terá sempre lugar garantido no calendário de eventos sobre histórias em quadrinhos. E concluo essa cobertura com as palavras finais de Franco de Rosa: “até o ano que vem para mais um Angelo Agostini.”

Aproveite e fique com a galeria de fotos enviadas por Márcio Baraldi. A galeria de fotos do Impulso HQ sobre 28º Angelo Agostini pode ser encontrada na nossa página do Facebook, clicando aqui.

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