Mesmo atrasado, este post merece ser publicado. Com tantos eventos acontecendo praticamente ao mesmo tempo, fica difícil conseguir cobri-los e colocá-los na seqüência aqui no Impulso HQ.

Sem mais delongas, e indo direto ao assunto, entre os dias 14 e 16 de outubro, aconteceu a décima oitava edição do Fest Comix, em São Paulo, evento que pela sua tradição, é um dos maiores e mais importantes do estado, e sempre aguardado pelos fãs de quadrinhos.

Essa edição mostrou que mesmo com tantos anos, o evento tem muito fôlego, e já em seu primeiro dia, que foi uma sexta-feira chuvosa, os quadrinhistas em seus estandes já apontavam um bom público, e na parte reservada para a feira de quadrinhos, no período da noite já era possível encontrar algumas prateleiras vazias devido às vendas.

O evento manteve o mesmo formato que a sua edição anterior, com exposição de actions figures, estandes de empresas que trabalham com revistas em quadrinhos usadas, algumas escolas de desenho, empresas de games, e alguns estandes de editoras como Escala e Panini, e é claro a Arena Comix, espaço reservado para as palestras com os profissionais convidados.

Uma das novidades para essa edição foi uma participação mais ativa dos cosplayers que além de terem o desfile, puderam participar de uma etapa do Yamato Cosplay Cup nas categorias tradicional individual e desfile, valendo vaga para a grande final no Anime Friends 2012.

E uma das peculiaridades desse ano foi justamente o público que esteve presente. Coincidência ou não, talvez o fato de ter a etapa do Yamato Cosplay Cup e exibição de músicas pop rock japonesas no palco principal, uma grande maioria dos presentes era formada pelos chamados otakus, fãs de mangás e animes, plaquinhas e gorros de orelhinhas eram uma visão constante entre o público.

Há quem goste, já outros torceram os narizes, mas não dá para negar que com certeza o evento teve um recorde de público, principalmente no sábado, e isso tem que ser reconhecido como uma coisa boa. Quanto mais público, mais pessoas interessadas ou com a possibilidade de entrar em contato com os quadrinhos. Mas tem que ser analisado se para as próximas edições o espaço de convenções São Luís não será pequeno, se essa linha for mantida.

Outra observação que também deve ser analisada para as próximas edições é o espaço para os quadrinhistas autografarem. Com tanto público e em sua maioria, pelo menos nessa edição, não conhecedores a fundo sobre quadrinhos nacionais, não ter nenhuma sinalização sobre quem estava autografando fica difícil os passantes terem interesse, e olha que os quadrinhistas que participaram das mesas são grandes nomes da produção nacional como Rodolpho Zalla, André Diniz, Flávio Luiz, Will, Laudo, Omar, Danilo Beyruth e outros. As sessões de autógrafos Mike Deodato Jr. e dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon, que foram melhores sinalizadas tiveram filas gigantes e cruzavam o espaço do evento.

Sobre as palestras, mais uma vez o espaço foi excelente. A Arena Comix sempre é uma área voltada para palestras e uma oportunidade do fã conhecer mais sobre o seu artista preferido, ou mesmo entrar em contato com os editores, como o caso Fernando Lopes e Levi Trindade, editores da Panini, e Marcelo Del Grecco, editor da JBC.

Organizada pela competente equipe do site Mavel 616, os editores da Panini Brasil, conversaram sobre as adaptações dos quadrinhos de super-heróis para o cinema. Quem esperava que Levi (editor da DC) falasse alguma sobre a reformulação dos títulos da editora nos Estados Unidos, saiu frustrado, mas em compensação descobriu que para ser editor de quadrinhos você tem que estar ligado em toda a cultura pop que as HQs geram, inclusive as adaptações. Tanto Levi como Lopes demonstraram profundo conhecimento sobre o assunto, mostrando que conhecem a fundo os personagens que editam. No final da palestra, a equipe do Marvel 616 fez uma brincadeira com Lopes entregando a próxima capa da Biblioteca Grandes Heróis Marvel, com o personagem Falcão de Aço.

Outra palestra organizada pela equipe Marvel 616 foi com o quadrinhista Will Conrad, artistas exclusivo da Marvel há dois anos, atual desenhista dos X-men, e como ele mesmo gostou de frisar no começo do bate-papo, aquela seria uma apresentação direcionada para os futuros desenhistas.

Will Conrad que começou a sua carreira como ilustrador em BH, decidiu se tornar quadrinhista quando em 1997 teve um encontro de cinco minutos com o mestre Will Eisner, durante uma edição do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ!).

Com muito bom humor e com a simpatia típica mineira, Will Conrad interagiu com a platéia, e deu dicas importantes para quem pretende ingressar nessa carreira, e frisou que todo profissional deve aprender a aceitar críticas negativas, e entender que o editor está falando de um desenho em um pedaço de papel, e que o bom profissional nunca deve levar isso para um lado pessoal.

Dando sequências as palestras de sábado, Luke Ross, comentou todo o processo da produção da história do Capitão América, que serviu de prelúdio para o filme do primeiro vingador. O quadrinhista foi objetivo e como tratava de uma palestra sobre um título específico, a dinâmica foi outra. Luke apresentou algumas imagens referências que ele utilizou e como elas se transformaram em algo na página.

Essa alternância entre referência, trabalho final, rascunhos, uso do programa Google SketchUp, possibilitou aos presentes entenderem todo o funcionamento de um projeto de uma história em quadrinho. Realmente muito bom. Excelente ideia em focar o tempo em um projeto do começo ao fim.

Luke finalizou a palestra dizendo que Captain America: First Vengeance é uma história importante porque mostra a relação entre Steve Rogers e Buck Barnes: “Achei que a relação entre eles não ficou muito clara no filme.”, disse o quadrinhista.

Para finalizar as palestras do sábado foi a vez do convidado internacional, argentino Ariel Olivetti, que trabalhou para diversos títulos Marvel e DC, se apresentar e falar sobre a sua carreira.

Mas não foi muito bem isso que aconteceu. O quadrinhista que está há 23 anos no mercado, preferiu mostrar a sua técnica de pintura digital, explicando passo a passo o seu processo de colorização, desde a escolha do pincel e suas características até a sua finalização, mas antes de iniciar frisou: “primeiro é preciso aprender a pintar com o material clássico de pintura, depois partir para o digital”.

Olivetti falou um pouco sobre teoria das cores, e sobre paletas cromáticas, como as cores são importantes para dar o clima da história, e como em seu processo de colorização ele não escurece com o preto e nem clareia com o branco. O quadrinhista também comentou que apesar da versatilidade digital, esse sistema tem o lado negativo, que é a não produção de uma arte original física, e que existe todo um mercado de compra e vendo desse tipo de material.

O quadrinhista também comentou que na sua opinião o personagem mais difícil de todos para se trabalhar é o Homem-aranha, e que ele gostaria de trabalhar com o Hulk de verdade, e não apenas com o filho. Sobre o seu futuro Olivetti afirmou que como é contratado exclusivo da Marvel por mais dois anos, quando o seu contrato acabar, ele pretende voltar a se focar no seu personagem criado na Argentina, O Caçador, criação em parceria com outros dois artistas argentinos. O personagem segue uma tendência cômica asqueirosa, e agora a intenção de Olivetti é deixá-lo mais universal.

O ciclo de palestras no domingo começou com Laudo Ferreira Jr. falando sobre adaptações literárias, e o quadrinhista focou em um dos seus mais recentes álbuns, O Autor da Barca do Inferno, adaptação para os quadrinhos do texto do autor português Gil Vicente.

Laudo revelou para a platéia que a ideia partiu dele de apresentar para a editora Peirópolis, que já vem publicando adaptações literárias para os quadrinhos. Laudo afirmou que já tem bastante intimidade com o texto, devido a sua esposa ter feito parte de um grupo de teatro chamado Dragão 7, e foi assistindo uma das montagens do grupo que o seu interesse pelo texto começou.

De acordo com Laudo, a base que ele se apoio para fazer a adaptação para os quadrinhos foi pensar como se fosse uma peça de teatro alegórica, e mostrou os seus estudos dos personagens e cenários, explicando para a platéia resumidamente a história da obra.

Laudo afirma que a sua intenção nunca foi fazer uma adaptação correndo ou que não ficasse boa, e que ele sempre sentiu que estivesse fazendo um trabalho autoral, sem pressões editoriais. Ele revelou que devido a complexidade da obra ele recorreu a uma consultoria de um especialista em Gil Vicente, para entender melhor a gênese de cada personagem, e se diz orgulhoso com o resultado da HQ.

Sobre a influência da editora na obra, Laudo afirmou que não a sua ideia original para os personagens não sofreram muitas intervenções, somente no personagem anjo que os editores pediram para o quadrinhista repensar. Laudo comentou que a sua ideia era fazer um anjo no estilo do cantor David Bowie, mas que no final acabou usando como referência o anjo do filme Fausto (1926), Friedrich Wilhelm Murnau, do expressionismo alemão.

Para finalizar Laudo comenta que concorda que publicar a HQ com o texto original foi uma tática arriscada editorialmente, mas que não havia sentido fazer a adaptação do texto, e que é nessas horas que o quadrinhista tem que se garantir como bom contador de histórias, e finalizou dizendo que recomenda aos estudantes que vão passar pelo vestibular ler a sua adaptação, mas que nunca deixem de ler a obra original.

A última palestra no domingo foi com Mike Deodato Jr., convidado que foi uma das grandes atrações da Fest Comix desse ano. Com um humor fantástico o quadrinhista que está no mercado internacional de quadrinhos há anos começou falando rapidamente da sua trajetória e como estava ansioso para trabalhar com o roteirista Ed Brubaker, depois de trabalhar com grandes nomes como Warren Ellis e Brian Bendis. O quadrinhista disse que ficou muito feliz quando soube que Secrets Avengers foi pensado para Brubaker e ele trabalharem juntos.

Deodato falou que a sua experiência e tempo de casa dentro da Marvel permitem que ele tenha mais liberdades, como escolher o seu arte-finalista e colorista, e ter a total confiança do seu editor. Atualmente o quadrinhista não passa mais pela etapa de mandar o layout para aprovação, mas ele enfatiza, isso você só com segue com a experiência.

Sobre o seu processo de produção, o quadrinhista revelou que atualmente faz pouca coisa no papel, mas precisamente só capas, o restante ele se utiliza de uma mesa digitalizadora Cintiq. As vantagens com essa ferramenta é a otimização do tempo, e a possibilidade de enxergar melhor os detalhes, não forçando a vista. A lado negativo seria pelo lado monetário, pois ele deixa de estar em um mercado de compra e venda de originais.

O quadrinhista falou sobre o seu ritmo de trabalho e revelou que a Marvel sabe que a sua produção é de uma revista e uma capa por mês, e que eles se adaptam a isso. Esse tipo de relacionamento fez Deodato se sentir muito a vontade na editora, fazendo o recusar contratos para trabalhar com as concorrentes.

Sobre futuros projetos, Deodato não revelou muita coisa, mas declarou que gostaria muito de desenhar western e inclusive já manifestou a sua vontade para a Marvel. Esse desejo vem do seu gosto pessoal e por adorar as histórias do Ken Parker, e ainda completou que adoraria fazer uma edição do TEX.

Deodato considera um dos seus melhores trabalhos a sua fase em Thunderbolts, e revelou que se divertia com as cenas bizarras como a do Venom arrancando um braço de um personagem.

Finalizando a palestra Deodato afirmou que o cenário dos quadrinhos no Brasil está em um ótimo momento, com muita gente boa produzindo e conseguindo viver só de HQs e completou “Eu queria ter começado a minha carreira agora”.

Para surpresa geral a palestra de Deodato foi finalizada com uma invasão cosplay dos Thunderbolts. A encenação foi divertida, principalmente a parte em que um dos cosplayers levou um golpe de Karatê do Deodato, que é faixa preta em arte marcial. E coroando a noite com chave de ouro, o encontro entre Mike Deodato e Rodolpho Zalla.

Que o Fest Comix é o maior evento de quadrinho de São Paulo isso é inegável. A sua trajetória de 18 anos está ai para ninguém falar o oposto. Em um ano como 2011 que está sendo super movimentado por atividades envolvendo quadrinhos, não é difícil de dizer que o Fest Comix representa São Paulo no calendário de eventos obrigatórios para se visitar. Deu pra perceber que mais uma vez o Fest Comix tem tudo para se tornar uma Comicon, só precisa de alguns ajustes para deixar de ser um evento de quadrinhos e se tornar também um evento sobre quadrinhos, postura que pelo que tudo indica, os organizadores estão cada vez mais se aproximando. Agora é aguardar o ano que vem!

Galeria de imagens:

Renato Lebeaucobertura de eventosAndré Diniz,Danilo Beyruth,Fábio Moon,Fest Comix,Flávio Luiz,Gabriel Bá,Laudo,Mike Deodato Jr,Omar,Rodolpho Zalla,WillMesmo atrasado, este post merece ser publicado. Com tantos eventos acontecendo praticamente ao mesmo tempo, fica difícil conseguir cobri-los e colocá-los na seqüência aqui no Impulso HQ. Sem mais delongas, e indo direto ao assunto, entre os dias 14 e 16 de outubro, aconteceu a décima oitava edição do Fest...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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