Resenha HQB: Sápios & Mutunas nº1
Por Alexandre Manoel | 16 julho de 2009A edição tem uma capa que a coloca naquele grupo de publicações que dificilmente se destacariam numa prateleira. O desenho, a composição, as cores e a impressão estão ruins e devem ser repensados para as próximas edições.
Por se tratar de uma versão encadernada de uma série que saiu nas 3 primeiras edições da extinta revista Talentos Nacionais, mereceria um tratamento mais adequado.
O argumento é interessante: uma organização terrorista mutante desfere um atentado contra uma escola, matando mais de 800 pessoas – crianças, em sua maioria. Vendo a ineficácia do governo, um grupo de parentes das vítimas (alguns deles, mutantes), decide se unir para vingar a morte de seus entes queridos.
O problema é que a HQ escorrega na editoração, na narrativa e nos desenhos.
Embora impressione pelas suas cento e tantas páginas, o preço conseqüente disso afasta os leitores, ainda mais por se tratar de uma publicação nova e com uma capa ruim. Há o também o problema de ter algumas páginas em branco, caso das 2ª e 3ª capas. O espaço poderia ser melhor utilizado.
A apresentação dos personagens que integram o grupo (que não recebe nome nesta edição) é fraca, com exceção de Vada Aesmith. Eles aparecem brevemente na cena do atentado; na cena seguinte já fazem parte do grupo. A própria formação do grupo é rápida e confusa demais.
O nome dos personagens é outra coisa complicada. Ao que parece são sete integrantes, uma, inclusive, aparece do meio para o fim da história e se comporta como se já fosse integrante da equipe desde o início – e pela trama confusa, talvez seja mesmo.
No decorrer da história, os mesmos personagens são chamados por outros nomes como Roger, Snipper, Empty, Cistrans e não aparece nenhuma referência a estes nomes antes ou depois dessas citações. O desenho também não ajuda muito, a caracterização dos personagens é ruim. São todos muito parecidos uns com os outros, em traços e vestimentas (exceção feita ao personagem Dorian Saez, visivelmente inspirado em Wolverine). Isso acaba deixando as cenas de ação confusas.
Nunca sabemos quem está lutando contra quem. Os cenários seguem a mesma tendência: são pobres de detalhes, reduzidos à poucas linhas, sem presença de luz e sombra e predomínio de prédios sem nenhuma referência real. Falando nisso, é triste notar que o referencial de muitos aspirantes a desenhistas não sejam os cenários brasileiros.
Frank Delmindo, o autor da obra, vive em Manaus e sua história poderia ficar muito mais interessante se ocorresse por lá, com seus prédios, becos, ruas e escolas. Mas, infelizmente, ele prefere utilizar a Costa Leste estadunidense, a SWAT, o FBI… O que destaco de positivo é a força de vontade de Delmindo para desenhar as cento e tantas páginas e reuni-las nesta edição encadernada.
Os poderes dos personagens também é algo interessante para se ver em ação (o que quase não ocorre nesta edição, aliás), principalmente porque são relativamente fracos, nada extraordinários; e o fato de interromper as poucas cenas de ação com flashbacks ajuda a criar um suspense maior na cena, mas o uso deve ser moderado para não cansar o leitor.
Sugiro que Delmindo use essa força de vontade para se aperfeiçoar mais na escrita e no desenho, observar mais as pessoas ao seu redor para notar suas particularidades e colocar um pouco de lado aquelas apostilas que ensinam “a técnica dos grandes mestres dos quadrinhos”.
Ser quadrinista requer muito mais referências do que a Marvel oferece.
Sápios & Mutunas nº1
Autor: Frank Delmindo
Revista Independente
Nº de páginas: 104
Data: Janeiro de 2009
Preço: R$ 8,00
Contato: revistatalentosnacionais@gmail.com
Tags: Frank Delmindo, HQB, resenha, Sápios & Mutunas, Talentos Nacionais



Olá, Alexandre Manoel e amigos do Impulso HQ.
Agradeço muito sua resenha e considerações acerca do primeiro volume de SÁPIOS & MUTUNAS, e do apoio dado por este maravilhoso site aos Quadrinhos brasileiros.
Vamos lá às suas considerações:
“A edição tem uma capa que (…) que dificilmente se destacariam numa prateleira (…) desenho, a composição, as cores e a impressão estão ruins e devem ser repensados para as próximas edições.”
Você pode não acreditar, mas recebi muitos elogios pela capa, sua arte, desenho e composição. Mas de um modo geral os leitores reclamaram do material e impressão usados nela. Para sanar esta parte, mudei a gráfica que faz as capas. Esta evolução já pode ser conferida a partir de POWER VERSUS POWER, novo lançamento da TRINITY EDIÇÕES.
“O argumento é interessante: uma organização terrorista mutante desfere um atentado contra uma escola, matando mais de 800 pessoas – crianças, em sua maioria. Vendo a ineficácia do governo, um grupo de parentes das vítimas (alguns deles, mutantes), decide se unir para vingar a morte de seus entes queridos.”
Creio ter alcançado alguma medida de agrado aos leitores com este enredo, pois quem comprou este primeiro encadernado de SÁPIOS & MUTUNAS já encomendou exemplar da edição #02. Aliás, SÁPIOS & MUTUNAS #02 está recebendo críticas bem mais positivas, em especial pelos desenhos de ANDERSON RELMOR.
“O problema é que a HQ escorrega na editoração, na narrativa e nos desenhos.”
De novo, você pode não acreditar, mas tenho recebido MUITOS elogios pelos desenhos e, principalmente, pela narrativa e diagramação das páginas. Quanto à editoração, recebi algumas críticas, mesmo…
“A apresentação dos personagens que integram o grupo (que não recebe nome nesta edição) é fraca, com exceção de Vada Aesmith”
De fato, a líder do grupo recebe mais destaque neste início de série. Contudo, cada um dos integrantes terá seu capítulo de destaque…
“Eles aparecem brevemente na cena do atentado; na cena seguinte já fazem parte do grupo. A própria formação do grupo é rápida e confusa demais (…) uma, inclusive, aparece do meio para o fim da história e se comporta como se já fosse integrante da equipe desde o início”
De fato, após o atentado, os integrantes partem logo para a ação. Contudo, você deve perceber que a reunião na casa de Dorian Saez é a primeira do grupo, e TODOS os integrantes estão lá, presentes. Se estiver falando da personagem Selma Sanchez, a que fuzila um grupo de mutantes criminosos, ela aparece desde o início da hq, quando abraça o corpo do próprio filho em meio aos destroços do ataque terrorista.
“… personagens são chamados por outros nomes como Roger, Snipper, Empty, Cistrans (…) todos muito parecidos uns com os outros, em traços e vestimentas (exceção feita ao personagem Dorian Saez, visivelmente inspirado em Wolverine)”
Aprendi uma grande lição com esta obra. Diferente de desenhos feitos em estilos caricaturais ou minimalistas, arte realista implica, sim, em cuidados dobrados com a caracterização dos personagens, justamente para impedir esta aparência média em comum. Até mesmo a cor ajuda a diferenciar este personagem daquele outro. Apenas um detalhe: as feições usadas nos personagens de SÁPIOS & MUTUNAS foram baseadas em atores famosos, além de alguns amigos e colegas meus. Além do Dorian “Hugh Jackman” Saez, outros atores e atrizes são freqüentemente reconhecidos pelos leitores, via e-mail.
“Os cenários (…) são pobres de detalhes, reduzidos à poucas linhas, sem presença de luz e sombra e predomínio de prédios sem nenhuma referência real.”
Aqui eu fiquei preocupado, Alexandre! Você chegou a ver a página dupla mostrando a destruição de Sidney, na Austrália, em um ataque direto do terrorista mutante Hurricane? Existem milhares de detalhes naquelas páginas!! Inclusive, tenho leitores que NÃO ACREDITAM que aquela página dupla foi desenhada por um quadrinista brasileiro, tal é a quantidade absurda de detalhes ali presentes, todos utilizados com motivos, nenhum desnecessário.
A própria base levitadora do grupo terrorista, sua fachada, seu interior, o salão principal em que Hurricane autoriza o ataque terrorista à Escola Two Angels. São MILHARES de detalhes, em páginas que levei semanas para finalizar. Destaque também para a primeira página do capítulo 02 da edição, e para a cadeia de montanhas no último quadro na parte em que o Australiano vai negociar com os traficantes de armas, também no capítulo 02. Todas cheias de cenários detalhistas. São pontos de fuga, ângulos diferenciados e perspectivas variadas, sendo, aliás, os cenários a parte mais elogiada dos desenhos de SÁPIOS & MUTUNAS! E você não viu estes cenários??
“Falando nisso, é triste notar que o referencial de muitos aspirantes a desenhistas não sejam os cenários brasileiros (…) sua história poderia ficar muito mais interessante se ocorresse por lá, com seus prédios, becos, ruas e escolas. Mas, infelizmente, ele prefere utilizar a Costa Leste estadunidense, a SWAT, o FBI… ”
Achei sem fundamento ambientar uma hq sobre mutantes na Amazônia. Creio que, a exemplo das demais ficções de gênero – ficção de terror, de aventura, policial, científica – o ícone MUTANTES funciona mais em ambientes internacionais, da mesma maneira que um cowboy “está em casa” quando ambientado no Velho Oeste, ou um samurai no Japão Feudal.
Da mesma maneira, os referidos “FBI” e “SWAT” são como que características inerentes a estes, compondo um verdadeiro mosaico referencial fundamental para a própria estética deste gênero de hq´s. Muitos confundem estas características, erroneamente, com clichês.
Contudo, se você quer super-heróis em terras brasileiras, a casa recomenda POWER VERSUS POWER, esta sim, uma hq de seres com super-poderes, ambientada no Brasil. Trata-se de uma hq completa, em 97 páginas, pelas quais tenho recebido críticas bem mais positivas do que a SÁPIOS & MUTUNAS.
“o fato de interromper as poucas cenas de ação com flashbacks ajuda a criar um suspense maior na cena”
Heheheh! Este recurso narrativo você sacou direitinho, Alexandre. Não apenas o uso dos flashbacks, mas também cortes rápidos entre um cenário e outro, e entre uma ação e outra, realçam os aspectos da narrativa, complementando a carga dramática do roteiro.
“O que destaco de positivo é a força de vontade de Delmindo para desenhar as cento e tantas páginas e reuni-las nesta edição encadernada (…) Sugiro que Delmindo use essa força de vontade para se aperfeiçoar mais na escrita e no desenho, observar mais as pessoas ao seu redor para notar suas particularidades e colocar um pouco de lado aquelas apostilas que ensinam ‘a técnica dos grandes mestres dos quadrinhos’”
Agradeço o elogio, buscarei, sim, claro, como já venho buscando, aperfeiçoar texto e traço. Não me considero um quadrinista formado. Tenho consciência de minhas limitações artísticas. Quanto às apostilas dos grandes mestres, como não disponho de nenhum renomado quadrinista internacional, ganhador de prêmios diversos e pedra de toque da imprensa especializada para me orientar nesta profissão dos Quadrinhos, vou me atendo às instruções dos tais “grandes”, tentando compreendê-las e, usando como plataforma as críticas e sugestões recebidas, tentar alcançar outros níveis da linguagem e produção de hq´s.
Sem um mercado editorial local, e portanto sem trabalho constante, nem editores PROFISSIONAIS de quadrinhos para orientar e direcionar minhas hq´s, termino por me valer do Auto-didatismo, e da observação do trabalho alheio. E é melhor parar este parágrafo por aqui, antes de adentrar os queixumes típicos de quadrinista-brasileiro-sem-mercado-editorial-nem-editores-nem-quadrinistas-profissionais-que-ajudem-e-tem-de-aprender-tudo-sozinho-na-marra…
Outra vez, agradeço enormemente suas considerações, caro Alexandre Manoel, bem como o espaço cedido aqui, no Impulso HQ. Obrigado a todos. E fique no aguardo de POWER VERSUS POWER, da qual, tenho certeza, você tecerá comentários bem mais elogiosos.
Abraços a todos deste site.
Frank Delmindo.
Olá Frank, como vai?
Fico feliz que tenha absorvido meus comentários.
De fato, é injusto cobrar profissionalismo num meio on de poucos são profissionais (no sentido literal do termo). É o mesmo que as empresas fazem ao cobrar experiência de um candidato mas não lhe dar essa oportunidade.
Não costumo fazer isto, mas como vc se mostrou uma pessoa aberta a comentários, segue minha tréplica:
Sua capa está muito estática, acho que precisa de mais dinamismo, recomendo que observe mais a arte dos bons capistas como Neal Adams (pra ficar dentro do referencial Marvel/DC).
Mesmo que cada personagem tenha seu capítulo no decorrer da obra, é fundamental criar boas apresentações de todos eles já no primeiro número da edição, para que cada leitor vá se identificando aos poucos com pelo menos um deles.
Inclusive, tem uma personagem que não se apresenta embora esteja presente na reunião do grupo. Refiro-me à Noriko, por isso fica confuso os outros se dirigirem à ela.
Esse recurso de usar atores como referência… Confesso que não reparei, mas no próprio cinema, o visual das atrizes é inspirado uns nos outros, elas estão cada vez mais iguais. E isso pra quadrinhos não é bom, o ideal é que cada um tenha traços e vestimentas BEM distintos.
Página dupla, pra mim, é quando uma mesma composição ocupa duas páginas na HQ e não quando duas páginas mostram, sob diversos ângulos o mesmo evento. E os detalhes que você mencionou são apenas pontilhismo. Refiria-me a detalhes de objetos, pessoas etc. coisas que dariam mais personalidade aos ambientes. Por isso, insisti numa versão ambientada em Manaus já que vc teria mais proximidade com os lugares e seus detalhes particulares, dificilmente se consegue isso com ambientes desconhecidos, por mais que existam googles da vida…
Não vejo problema algum numa história de mutantes na Amazônia.
Não foram os estadunidenses que inventaram esse gênero, monstros desses tipos existem em todas as culturas/mitologias.
Termino reforçando sua força de vontade, inclusive para comentar a resenha.
Desejo que continue evoluindo sempre (apesar dos pesares de nossa cena)
E, desde já, fico na espectativa para conhecer a HQ POWER VERSUS POWER
Abraços!!
Olá gostei muito das resenhas feitas nesse site, tenho uma revista e gostaria de saber como posso envia-la para que vocês a vejam e façam uma resenha. Posso manda-la em material impresso (ainda não fiz uma versão para a internet)
Desde já agradeço a atenção e parabéns pelas resenhas!!
Olá Rodrigo, mande um e-mail para renatolebeau@impulsohq.com.br que entrarei em contato com você para dar o endereço de envio!
Abraços