Sobre a homossexualidade do Batman

Por Renato Lebeau | 3 julho de 2009

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O texto interessante dessa sexta-feira aborda um tema que sempre esteve em discussão no universo dos super-heróis e parece que recentemente mais heróis andaram revelando a sua opção sexual, o que pode ser só marketing ou um momento que as editoras se sentem mais livres para abordarem certos assuntos que nas décadas anteriores seriam considerados tabus.

O autor do texto é Pedro Cassel, e foi retirado do site Homomento.

Não esqueça que você leitor também pode participar do texto interessante de sexta-feira, é só enviar o seu artigo sobre o universo das histórias em quadrinhos, que publicaremos e colocaremos os seus contatos.

Fiquem com o texto:

Sobre a homossexualidade do Batman

Uma das discussões mais polêmicas entre os fãs e leitores de quadrinhos (e mesmo os que não o são, pois trata-se de um personagem estupidamente famoso) é aquela a respeito da sexualidade de Bruce Wayne, o Batman. Mas porque esse tópico, levantado em 1955 por Fredric Wertham no famoso Seduction of the Innocent, se mostrou tão pertinente a ponto de ser levado adiante por tanto tempo?

Batman, em suas primeiras aparições na Detective Comics em 1939 e meados dos anos quarenta, era um vigilante solitário que combatia ferozmente o crime. Bob Kane utilizou no homem-morcego alguns conceitos de herói que cativaram o público, alcançando altas vendas e rendendo mais tarde inclusive uma série de televisão que potencializou sua fama, imortalizando-o.

Por algum motivo que merece uma boa pesquisa, talvez até ironia dos roteiristas e desenhistas, em alguns momentos já nos quadrinhos e posteriormente na série de TV havia insinuações a respeito da sexualidade do cruzado de capa: pequenas tiradas que questionavam sua relação com o ajudante Robin, principalmente.

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Para alguns entusiastas, fossem eles leitores ou não, a transfiguração da figura de um herói tão representativo em um homossexual a partir dessas evidências tornou-se interessante e útil, uma maneira de lutar contra o preconceito através de novas perspectivas de idéias já conhecidas pelo grande público. Certos fãs reagiram e reagem até hoje a tal ponto de vista de maneira agressiva, “defendendo a dignidade” de seu personagem favorito através de argumentos pouco convincentes como o de que o Bruce seria, pelo contrário, o maior garanhão dos quadrinhos e de que isso consta em muitas das histórias publicadas.

É natural que a DC Comics, apavorada diante da mácula de um de seus hits, se preocupasse desde então em afirmar a heterossexualidade do Batman; se antes só existia um garoto para acompanhá-lo em suas aventuras (criado inclusive para agradar ao público infantil), agora uma Batwoman e uma Batgirl foram concebidas justamente com o intuito de aproximar dele a figura feminina, antes presente apenas através de vilãs traiçoeiras. O próprio Dick Grayson, o primeiro Robin, hoje em dia é retratado nas revistas como um jovem extremamente atraente e cafajeste com as mulheres, comportamento que não deixa dúvidas acerca de suas aspirações no âmbito do sexo.

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O problema nessa tão utilizada argumentação é o fato de que não há uma verdade absoluta em relação a esse herói, e creio que seja correto dizer que não há em relação a nenhuma obra/ícone/elemento cultural. Se os próprios elementos da história dele foram sendo alterados através do tempo para agradar ao público, porque insistir que existe uma essência real para o Batman, seja ela homo ou heterossexual? Não importa se Bob Kane diz que ele é hetero, pois se apenas ele tivesse trabalhado com sua criação, com certeza esta não seria uma lenda hoje: os maiores clássicos de Batman não foram escritos por ele.

Tampouco conta o que qualquer outro autor diz, visto que o Batman não é mais propriedade nem mesmo da DC Comics, detentora de seus direitos autorais; ele está aquém de cronologias, arcos, especiais, teses de doutourado ou quaisquer outras formas de aprisionamento e definição. Ele é uma argila, um diamante bruto que está sempre no ar esperando para ser trabalhado e analisado por diferentes prismas, por quem quiser. Hetero, homo, com uniforme preto, azul, cinza, com Robin, sem, matando, sendo contra o assassinato.

Que seja respeitado e aproveitado tal como é, um grande personagem com enorme potencial para divertimento e reflexão, e não um canalizador de frustrações, fantasias ou lutas relacionadas à sexualidade.

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(obs.: a leitura meta-linguística do escritor Neil Gaiman sobre a recente morte do personagem Bruce Wayne foi publicada recentemente e traz exatamente esse ponto de vista a respeito da personagem, para orgulho do autor do presente texto, que escreveu-o meses atrás. Vale a pena procurar na internet: a história leva o nome de “Whatever Hapenned to the Caped Crusader?”.)

Visto no Homomento

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  1. Pedro Cassel disse:

    Oi, tudo bom?
    Eu sou o autor do texto e fico bastante contente em ver que o que escrevi suscitou interesse a nível de ser repassado.
    O diálogo entre quadrinhos e homossexualidade já vem de bastante tempo, mas nesses últimos anos realmente vem se destacando demais. Sites como o Gay League estão de olho nessas aparições de heróis LGBT de hoje e ontem. Pretendo em breve escrever um post sobre isso, por sinal :)

    (Só um adendo necessário: é importante constatar que a homossexualidade só é uma opção por uma perspectiva. Podemos, assim, ESCOLHER se vamos ser conhecidos como homossexuais na esfera social, mas não intimamente. Das termologias utilizadas para a homossexualidade, todas um pouco confusas e taxativas, a mais correta me parece ser “orientação”.)

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