Resenha HQB: Alexandria

Por Alexandre Manoel | 19 fevereiro de 2009

resenha_hqb_alexandria

Li esta revista já faz um tempinho, mas como notei algumas qualidades interessantes, além do fato de ser uma revista desconhecida até para as pessoas envolvidas na cena independente e dos editores prometerem um novo número para abril próximo, resolvi resenhar a edição de estréia:
Por serem somente dois os responsáveis pelos desenhos (Jader Corrêa e Matias Streb), é surpreendente a variação de traços encontrados na revista, indo de um estilo mais carregado e cheio de sombras, passando por uma linha mais cartunesca até chegar ao mangá.

A edição apresenta ainda uma história colorida pintada em estilo realista, que me lembrou muito aquelas pinturas de panfletos distribuídos pelas testemunhas de Jeová (e é bom deixar claro que isso não é nenhum comentário pejorativo!).

Depois de um bom editorial que nos informa a origem do nome da revista – e justifica a capa em estilo “bíblico”, a edição começa com a ótima HQ “As cores do descobrimento” (roteiro: Carlos Francisco, arte: Jader Corrêa & Matias Streb), a tal da pintura de panfleto evangélico, que trata sobre a histórica condição dos índios desde a chegada dos portugueses até os dias atuais. Destaque para o uso ideológico que Corrêa & Streb fazem da cor.

Histórias de uma página só, como o caso da HQ “Um rosto na escuridão” (roteiro: Carlos Francisco, arte: Jader Corrêa, arte-final: Matias Streb), são curtas demais para que o leitor consiga se envolver com a trama, mas essa aqui compensa pelo final surpreendente.
A HQ seguinte, “Quiromante”, de Jader Corrêa, fala de uma charlatã que, no meio de uma leitura de mãos, de repente, como que acometida por uma epifania, prevê o fim do mundo. Os desenhos são um pouco cabeçudos demais, mas combinam com o espírito charlatão da quiromante. Destaque para o final, que também usa do efeito surpresa e de uma boa carga política.

“Um sonho de François”, de Jader Corrêa, é bela e singela como um bom poema. Em estilo cartum, acompanhamos os devaneios de um ancião preso a uma antiga paixão.

“Ariel”, de Matias Streb, é feita em estilo mangá, se passa na idade média e reúne guerreiros distantes no espaço e no tempo: um pirata, um samurai, um cavaleiro medieval e um viking – que mais parece Gimli, o anão do filme “O Senhos dos Anéis”.

Apesar de ser uma reunião interessante, é uma história com continuação, e as 4 páginas que ocupa nessa edição não são suficientes para apresentar um enredo que nos faça aguardar ansiosamente o próximo número.

A última página do miolo também é colorida e nos apresenta um texto sobre H.P. Lovecraft (1890-1937).

Para encerrar, na 3ª capa, encontramos uma HQ na horizontal que também é feita em estilo mangá por Matias Streb, também se passa na idade média e também apresenta a indesejada mensagem “Continua…”

Ao término da leitura ficamos com a sensação de que a revista tem muito mais páginas do que aparenta, dado o número de histórias. Isso é muito bom, mas o efeito poderia ser muito mais intensificado se no lugar do texto sobre Lovecraft, que não tem nenhuma relação com o restante do material, houvesse outra HQ colorida para fechar a revista com chave de ouro.

Textos são sempre complicados de se colocar numa revista de HQ porque quebram o ritmo de leitura e, quase sempre, apresentam temas que não tem nada a ver com as histórias publicadas. Ademais, se a opção é publicar textos, por que não publicar sobre assuntos que se relacionem com as histórias (e não com o gosto particular de seus editores) ou que reforcem a cultura local e desconhecida?

Que Lovecraft é um baita escritor ninguém duvida, mas penso que ele não precisa de mais textos atestando sua qualidade. Poderia ser um espaço melhor aproveitado, ainda mais por ser colorido.

É sabido de todo mundo que as revistas independentes quase nunca, infelizmente, conseguem manter uma periodicidade regular. Por isso não vejo com bons olhos as HQs com continuação, já que o leitor que se interesse por elas não vai saber quando terminarão – se é que chegarão a ser publicadas até o fim.

Claro que numa revista curta, a separação por capítulos é uma alternativa para abrir espaço para outras histórias, mas penso que é melhor fazer uma edição com uma única história que seja, desde que finalizada, do que dividi-la em capítulos e não dar ao leitor o conhecimento de quando sairá o próximo número nem o prazer de ver a HQ finalizada.

Claro que nem tudo são críticas. A quantidade, variedade e qualidade das HQs publicadas, mesmo as que têm continuação, fazem com que seja um item interessante para o público fã dos quadrinhos independentes.

Mas o ponto mais forte da edição é, sem dúvida, conseguir reunir os estilos da HQ ocidental (cartum, pictórico, noir etc.) com o mangá que, infelizmente, mesmo nas produções independentes, é tratado e publicado separadamente, como se houvessem dois mundos independentes: um para os quadrinhos ocidentais e outro para os orientais.

Essa reunião de estilos, se conseguir uma periodicidade regular e de preferência não muito dilatada, tem um potencial para atrair muito leitores e tornar a revista um referencial na produção independente nacional!

Alexandria
Autores: Carlos Francisco, Jader Corrêa & Matias Streb
Revista Independente
Nº de páginas: 20
Data: Setembro de 2007
R$ 4,90
Contato: alexandriaquadrinhos@bol.com.br

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